Capítulo 20

Rosemarie fez a própria mala de roupas e ainda ajudou Álvaro a arrumar os pertences dele e da família, que ainda permanecia dormindo.

A todo momento, Álvaro, preocupado, temia que a porta de entrada de sua casa alugada fosse arrombada pelo ex-chefe ou por um dos subordinados dele.

Contudo, entre esses picos de ansiedade, nervosismo e paranóia, Rosemarie tentava acalmá-lo com palavras positivas e doces beijos.

— Vai dar tudo certo, meu amor!

— Você poder ter razão, mas eu não sei, Rose…

— Ignore esses pensamentos negativos. — Ela colocou-se diante dele, estavam no quarto que até então era da menina. — Vamos terminar de aprontar as nossas malas e então iremos sair daqui sem que nada de ruim nos aconteça, combinado?

Ele assentiu com a cabeça e, sem delongas, concluíram as malas. Estavam prontos para partirem dali. A hora já era alta e, por isso, não era nada conveniente andar por aquelas ruas, mas não havia outra escolha, senão correr esse risco, tido menor que o de permanecer e esperar que o passado viesse tragá-lo, e a própria família também, incluindo a mais nova integrante, uma bela morena, que se mostrava ser muito mais além do que a mulher esperada por um coração que vivera anos como um lobo solitário na floresta dos relacionamentos amorosos.

...***...

— Isa, acorde…

— O que foi, papai? — indagou em voz lenta e sonolenta.

— Vamos, a gente precisa ir.

A menina despertou atônita.

Rosemarie despertou o idoso.

Saíram os quatro da casa de Rosemarie, que levava consigo uma bolsa grande de alça de um lado e outra menor do outro lado da cintura enquanto empurrava a cadeira de rodas do idoso que carregava consigo uma trouxa de roupas.

Álvaro, por sua vez, carregava a filha sonolenta com a força de um único braço, pois puxava a mala de Rosemarie com a outra mão, além de carregar uma mochila grande nas costas, quase uma bolsa, recheada de pertences importantes.

...***...

Adiante, Isadora tomou lucidez da situação, após umas três quadras percorridas, percebeu que estavam novamente de mudança, mas que a sua mochila escolar, em que estava os seus pertences mais preciosos, principalmente o seu invalorável caderno de desenhos e as suas prediletas lapiseiras, não estava sendo levada para o novo lar.

— As minhas coisas!

— Isa, eu compro outras para você depois — disse Rosemarie.

— Não! — contestou com certo dengo. — As minhas coisas! Eu quero as minhas coisas!

Álvaro a colocou no chão, assim como a mochila que portava nas costas.

...***...

— Droga! A gente foi esquecer logo isso — comentou à parte com Rosemarie.

— O que está pensando em fazer?

— Vou lá buscar.

— É perigoso, Álvaro!

— Que seja! Você sabe como a Isa é teimosa. Ela não vai parar de pedir as coisas dela, enquanto elas não estiverem conosco.

Pelos poucos meses de convivência com a menina, Rosemarie a conheceu bem ao ponto de concordar com Álvaro e deixá-lo partir dali em regresso à casa alugada.

Rosemarie permaneceu temente pelo que poderia acontecer ao seu amado, mas também ao que poderia surgir ali, pois estava na companhia de uma criança de dez anos, de um idoso de sessenta e dois anos e de uma bagagem volumosa.

— Meu Deus, proteja-nos, por favor! — pediu, baixinho, enquanto acariciava os cabelos da menina assistindo ao distanciamento do pai.

...***...

O tempo passava rápido. Percebe-se até hoje, a noite mais breve que o dia.

...***...

Álvaro entrou na casa e correu até o quarto da menina. Ao lado da cama estava a bendita mochila. Abriu-a e conferiu se estavam todos os preciosos pertences da filha.

— Acho que não tá faltando nada…

A porta de entrada rangiu.

De imediato, Álvaro se entocou debaixo da cama, sentindo o coração bater além do normal, tentou conter a respiração descontrolada e, devido à repentina sudorese, a camisa ficou parcialmente suada.

— E agora?

Discutia com o próprio medo.

Aprisionado num dilema entre encarar o perigo ou permanecer escondido (até quando?).

A impaciência uniu forças com a preocupação da família. Álvaro prendeu o fôlego e, num andar sorrateiro, saiu do quarto como um policial a percorrer o interior de uma casa suspeita.

...***...

— Que droga!

Deparou-se com a porta de entrada aberta e vez que outra sendo movida pela brisa da noite.

— Deixei a porta aberta e…

Riu por alguns segundos de si mesmo.

Assustou-se, pois, com o que mesmo fizera. Não havia invasor algum, mas por precaução, fechou logo a casa e dali seguiu ao local onde deixara a família.

O tempo estava ficando frio. Alguns postes elétricos pareciam estar morrendo com a constante brisa, pois piscavam com certa frequência e um ou outro desligava e não mais ligava, tornando, por consequência, a rua penumbrosa.

...***...

Um grito agudo soou, assim como o choro de uma garota.

Álvaro reconheceu as vozes e, portando a bolsa numa mão, na outra, o coração de amante e pai, correu ao local de encontro, onde encontrou também um bando de motoqueiros armados com ripas de madeira.

Um deles usava calças largas, com uma das pernas da vestimenta dobrada até o joelho, deixando a estranha perna negra à mostra, pois era ele branco no restante do corpo visível, tal como nos fios de cabelo da cabeça. Seu verdadeiro nome nem os próprios comparsas conheciam, pois todos o chamavam de o Zé da Perna Preta.

— Papai!

A menina estava presa entre as armas de dois subordinados do temido criminoso da região.

O idoso pai de Álvaro era, com zombaria, atormentado pelo mais jovem do grupo de arruaceiros, ladrões, vagabundos, enfim, homens que do bem jamais poderiam ser chamados.

— Á-Álvaro! — gaguejou Rosemarie sob os braços indelicados e selvagens do líder.

Zé da Perna Preta até então negociava com ela a liberdade em troca de um momento casual e íntimo. Só os dois, sozinhos, trancados num quarto, em segredo para o mundo e sob somente os olhos de Deus e do Diabo.

— Sem piar, vadia. — Zé já estava cansado das relutâncias dela ao seu imenso desejo de possuí-la. — Eu bem que poderia ter a matado também naquela época, mas agora compreendo o porquê não fiz isso antes… Você cresceu muito, tornou-se uma mulher desejável e olha só esses seus…

Apalpou o seio dela.

— Desgraçado! — gritou Álvaro, “pilhado” com toda a situação sobre seus queridos entes. — Largue a minha mulher! — avançou, derrubando uma das motos que estavam estacionadas sem dono.

— Ei, essa moto é minha, porra! — vozeou um dos homens que colocava pressão sobre a menina. — O que acha se eu fizer o mesmo com esta fedelha?

— Deixe a minha filha em paz…

— Pai!

Isadora foi empurrada bruscamente.

Não conseguiu manter o equilíbrio. Caiu e machucou o pulso da mão esquerda, a mão de apoio, a mesma com a qual fazia seus rabiscos coloridos.

Começou a menina a chorar.

— Maldito! — Álvaro largou a mochila no chão e, com os punhos cerrados, saltou contra o dono da moto, atingindo nele um feroz soco no rosto, que arrancou uma rajada de sangue da venta dele.

Tal sangue respingou na blusa da menina ao lado deles.

— Álvaro, cuidado! — gritou Rosemarie.

— Cala, vadia! — Zé da Perna Preta deu-lhe um forte tapa na lateral do bumbum. — Se fizer mais um pio, vou matar os quatro aqui e agora… Fui claro pra ti!?

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