O sol arrastou-se ao trono do meio-dia, centrado sobre a cabeça dos justos e injustos, fazia a cidade arder naquele dia ensolarado de céu aberto, sem previsão de uma gota sequer das pálidas nuvens franzinas.
Meia hora antes, os alunos foram liberados da escola, incluindo Isadora, que esperava mais alguns minutos até que Rosemarie estivesse pronta para ir embora.
— Tchau, Isa!
— Até amanhã, Isadora!
Diziam suas amigas e colegas de classe. Alguns alunos voltavam para casa a pé e desacompanhados, outros em veículos automotores e acompanhados pela mãe ou pelo pai, ou pelos dois. Neste último caso, Isadora observava, por um lado, sentindo-se feliz por ver aquela família unida e atenciosa à filha, em contrapartida, baixava o olhar e se entristecia com os pensamentos de indagação: "Por que não mereço o mesmo?"
— E então... Isa?
Distraída em seus pensamentos, não percebeu a aproximação de Rosemarie e, antes de erguer o olhar, passou o verso da mão sobre os olhos.
— Está tudo bem, querida?
— Sim, senhora Rose.
Não satisfeita com a resposta, Rosemarie tocou o rosto dela e sentiu a recente umidade deixada pelas lágrimas.
— Por que estava chorando?
— Por nada não...
— Isa, ninguém chora sem razão. Vamos, diga-me a verdade.
Não havia mais ninguém no pátio, além das duas. O vigia e outros funcionários estavam em locais afastados. Ali, tiveram um tempo considerável para conversarem.
— Por que meu pai não vem me buscar? Por que eu nunca tive uma mãe? Por que tivemos de nos mudar pra esta cidade? Por que...
— Calma, querida, uma pergunta de cada vez.
— A senhora sabe as respostas?
— Não, não sei...
— Eu sabia — murmurou, indignada.
— Mas também não é bem assim. — Rosemarie a chamou para se sentarem no banco próximo sob a sombra de uma frondosa árvore. — Às vezes a mudança é necessária. Nós mesmos mudamos a todo instante. E não pense que o seu pai não tem o desejo de estar mais presente no seu dia a dia. Tenho certeza de que ele não faz o que os outros pais fazem porque deve estar ocupado com algum trabalho, tentando lhe dar uma vida melhor, talvez até melhor do que a que ele mesmo teve, mas que um dia sonhou em ter.
As palavras de Rosemarie atiçaram os pensamentos de Isadora. O que ela disse até que fazia certo sentido, se parasse para pensar com mais profundidade.
— E, além do mais, quem disse que você nunca teve uma mãe? Por acaso eu não conto?
Dito isso, Rosemarie conseguiu dela o sorriso que desejava e até um inesperado abraço.
— A senhora é a melhor mãe do mundo!
— Eu digo o mesmo, filha!
— Bem que também podia se casar com o meu pai, assim, ficaríamos mais unidos.
Tiveram uma conversa similar há pouco menos de um mês. Rosemarie absteve-se de dizer algo com a justificativa de que já era hora de irem embora. Quem é que consegue sair da escola quase no horário do sol a pino e não pensar no almoço?
Rosemarie e Isadora se separaram na rua entre as duas moradias. Esta, com sua mochila em mãos, correu e abriu a porta da casa alugada, aquela, porém, foi à casa própria sem pressa, pois quis ver a menina fechando a porta.
Um aceno de lá e outro de cá. Isadora sumiu de seu olhar. Teve então a certeza de que já poderia entrar em sua casa. No interior, Rosemarie caminhou até a sala intermediária, pôs a bolsa de alça única sobre a mesa e seguiu para a cozinha.
— Álvaro!? — exclamou ela, de repente.
Ele estava a guardar a jarra de água na geladeira. Não obstante, tomou um susto ao ouvir a voz dela.
— Como entrou aqui?
— A-A porta — gaguejou — a porta dos fundos estava aberta.
Se não fosse o ar gélido da boca da geladeira soprando em seu corpo surpreso, teria suado sob o silêncio que pairou entre ambos, entreolhando-se a uma certa distância.
Ela desviou o olhar, abanou o rosto com a mão esquerda e, quebrando o silêncio, pediu com uma voz serena:
— Pegue um copo de água pra mim, por favor!
Pondo o copo de água diante dela, pediu desculpa por entrar sem permissão.
— Álvaro...
— Achei que você já tivesse retornado da escola, por isso vim aqui primeiro antes de ir pra casa.
— Não precisa ficar nervoso. Eu já lhe disse para ficar à vontade, sinta-se como se estivesse em casa.
— Obrigado, Rose, mas eu realmente não queria ter deixado essa impressão negativa...
— Esqueça isso e me conte o porquê de ter aparecido sem aviso?
— Eu nem sei por onde começar...
— Comece por esse curativo — tocou a região cuidada.
— Ei! — segurou a mão dela — Ainda dói um pouco.
Conectados pelas mãos, a distância entre ambos se encurtou e as falas tornaram-se mais baixas, quase sussurrantes.
— O que aconteceu?
— É uma longa história.
— Não tenho pressa.
Os rostos se aproximavam, tal como o ponteiro maior de um relógio de parede quase marcando o último segundo de um minuto.
— Impedi que um roubo de pneu ocorresse...
Ela, sem mais nem menos, largou o copo de vidro no chão, e este, por sua vez, estilhaçou-se ao lado dos pés de ambos, devido aos pés calçados, não foram cortados pelos fragmentos pontiagudos. Rosemarie recuou, e ele, agachando-se, começou a recolher os cacos. Foi tudo tão de repente.
— Você perdeu o juízo!? — questionou ela, aflita. — Não sei como era em sua antiga cidade, mas nesta não se pode impedir um assalto! Nem pensar... É loucura!
— Rose, calma. Você está ficando muito nervosa.
— Aqui não existem heróis, Álvaro! E sabe o porquê disso?
Ele se levantou com os cacos maiores em mãos.
— Porque todos cedo ou mais tarde morrem — respondeu-se a si mesma, emotiva, quase chorando.
Álvaro pôs os cacos sobre a pia, situada próxima, e, voltando-se a Rose, quis acalmá-la, assim como fora aliviado por ela.
— Por que tanta preocupação? Eu não os conheci e é provável que também não me conheçam.
— Ocorreu o mesmo com ele — disse ela, rememorando o passado.
— Ele? De quem está falando?
— Eu o vi morrer diante da minha porta, quando eu estava a voltar da escola — seus olhos negros desabaram em lágrimas e seus lábios carnudos se separaram em choro.
— Quem, Rose?
— O meu irmão mais velho, o meu único irmão, Álvaro...
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Atualizado até capítulo 31
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