Zé da Perna Preta era o típico homem de aparência jovem e arrogante. Seu corpo tatuado, sem camisa, suado e sempre a usar calças emanava um excesso de poder que só entre homens movidos a dinheiro se fazia valer.
Longe de seus próprios domínios, ele não era nada mais do que mais um valentão que amava dar um de durão.
— Que porra de irmão, caraí — levantou-se, indignado, de sua almofada manchada de cachaça. — Abram a porta então!
Um dos cinco subordinados presentes ali abriu e, de imediato, o delegado já foi adentrando a moradia com passos pesados, peito estufado e papo inchado.
— O que foi dessa vez, Barradas?
A menos de três metros do irmão, o delegado sacou a pequena arma e, apontando-a contra o Zé, vozeou:
— Imbecil, fez cagada de novo e agora vai querer que eu limpe, como sempre, né…
— Calma aê, irmão…
— Calma nada, idiota! Eu bem que podia te apagar agora.
Ao som do engatilhado da arma, os subordinados de Zé sacaram suas armas e, apontando contra Barradas, engatilharam-nas também.
— Ótimo! Se querem me matar, me matem… Vamos! — abriu os braços, ao passo que fitou um a um. — Mas se fizerem isso, eu gostaria de saber depois, de alguma forma, quem vai enterrar as merdas que o seu chefe medíocre comete.
O clima começou a ficar tão rapidamente quente, pois os subordinados não estavam a gostar nenhum pouco da forma como o delegado falava e, tampouco, tratava-os.
— Ô pessoal, suavizem aê. Este é meu mano… Ó! Não quero ver ninguém tratando ele mal por aqui, entenderam?
Ainda hesitaram por alguns segundos o baixar das armas, mas quando o primeiro assentiu e seguiu o pedido do chefe, os demais fizeram o mesmo.
— É assim que eu gosto. Paz e Amor, moçada! — apontou o cômodo ao lado para os seus homens, que, entendendo o gesto, moveram-se para o local indicado. — E você, irmão, não devia estar dando um de mandachuva no meu território. Aqui só chove quando eu ordeno que chova…
— Deixa de se iludir, sabe muito bem que se não fosse por mim, tanto você quanto os seus homens já estavam encaixotados sob sete palmos do chão.
— Acredito — murmurou em tom de sarcasmo, rindo à medida que assistia à expressão fechada do irmão. — O que foi que azedou dessa vez?
— Suas ações infantis. Como pôde violentar uma mulher!?
— Foi só um tapa e, além do mais, o spray de pimenta era dela. Eu só dei o que já lhe pertencia. Não é isso que as escrituras dizem: daí a vadia o que é da vadia?
— Eu não estou de brincadeira — guardou a arma e, seriamente, deixou o recado final: — Da próxima vez que eu ouvir falarem o seu ridículo nome na minha delegacia, eu mesmo vou levá-lo a público num caixão acompanhado de velas pretas.
E então, deixou a moradia, sem dizer ou dar ouvidos ao resmungo do irmão, proferindo baixinho:
— Quanta bobagem, hein, Barradas.
Pouco após a saída dele, entrou uma dupla de homens armados.
— Chefe, encontramos a casa do cara que lhe agrediu ontem…
— Eu já disse! Quantas vezes mais vou ter que repetir que eu só não tive tempo de reagir!?
— Desculpa, chefe, a gente só pensou…
— Pare! Não pensem mais nada — ordenou com a mão aberta estendida à frente do corpo. — Apenas me tragam logo a cabeça daquele miserável — completou com um olhar maquiavélico a emanar chamas do desejo de vingança. — Ninguém escapa das consequências do Zé da Perna Preta.
...***...
Rosemarie, ao aconchego do corpo de Álvaro abraçando-a, quase não conseguia mais falar de tanta emoção que sobrecarregou a própria voz.
— Não diga mais nada, Rose.
— Álvaro…
— Eu sinto muito pelo que aconteceu.
— Não foi você, foram eles… o meu irmão, ele só queria me proteger!
E assim, ela voltava a chorar com mais intensidade, molhando a camisa mais nova que Avaro possuía em seu limitado guarda-roupa.
— Aquele desgraçado permanece solto até hoje.
...***...
Ela tinha razão. Zé da Perna Preta vez que outra era o assunto das línguas quentes dos arredores e, ao que diziam, ele vendia suas mercadorias ilícitas, fazia suas besteiras infantis, abusava de moças inocentes e entre tantas outras coisas ruins, nada disso lhe fazia ser levado ao chilindró.
Traficante temido pela região, que ao cair da noite naquele dia que marcou terrivelmente a vida de Rosemarie, o irmão dela ao retornar do trabalho, estacionou a motocicleta defronte a casa e seguiu até a porta de entrada fechada, retirou um conjunto de chaves do bolso, mesmo tendo a ciência de que a irmã estava lá dentro.
Ainda era cedo da noite, mas ele não queria ter de chamá-la, para evitar assustá-la no que quer que estivesse fazendo.
Aliás, desde a noite da abordagem criminosa, Rosemarie nunca mais deu aula à noite na escola, somente manhã e tarde, até passar a trabalhar apenas no horário matutino.
— Não é essa — pôs outra chave na fechadura. — Também não. Nossa, qual era mesmo? Só pode ser esta!
Essas foram as últimas palavras do irmão de Rosemarie, antes de a dupla armada e montada numa motocicleta avançar contra ele, subindo sobre o terreno diante da casa.
Encurralaram-no à porta ainda fechada e, evitando o tempo de reação, o “garupa” deu-lhe logo dois tiros no peito.
Do interior da casa um estridente grito feminino em tom de negação ecoou. Era a voz de Rosemarie, sentindo no peito apertado o acontecimento da tragédia.
Antes, porém, que ela se deparasse com o resultado desumano, os vizinhos já estavam chocados e traumatizados com aquele corpo sem cabeça sentado e apoiado na porta manchando com o líquido encarnado.
...***...
“Que tragédia! Que dor terrível esta maravilhosa mulher passou na vida”, pensou Álvaro, confortando e alisando os cabelos morenos e longos de Rosemarie sentada ao seu lado, no sofá. Ela não mais chorava, mas soluçava com o rosto apoiado em seu ombro.
— Não quero ter que passar por aquilo de novo.
— Não vai não. — Ela ergueu o rosto e, entreolhando-se, ele acrescentou, firmemente: — Eu prometo.
Dando-lhe o tão desejado beijo, da parte dela. Contato macio e suave, lábios a se encaixar e desencaixar, incitando reações quentes em ambos.
Álvaro tocou-lhe gentilmente o pescoço, beijando-a com vontade, e ela, atiçada pelos despertos desejos, quis tirar a camisa dele.
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Atualizado até capítulo 31
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