Capítulo 16

No decorrer do caminho a sua casa, Cristina ouvia a voz da assistente do dispositivo celular lendo as notificações recebidas a cada meio minuto.

Quanto mais mensagens ouvia, mas decepcionada se sentia, pois, pequenas ações da empresa já perdia devido à reportagem transmitida na tevê.

Além da indignação de alguns acionistas pulando fora do barco tão de repente, Cristina ouviu também as mensagens de repúdio de seus familiares.

— Mais que borrão você foi fazer na sua bela imagem, prima.

— Nossa, minha sobrinha, seus pais ficariam desapontados com essa baixaria de quinta.

— Boa noite, senhora Andrade! Aqui é o Tomás, gerente do setor financeiro. Estive recebendo várias mensagens de insatisfação de um pequeno grupo de investidores conservadores. Se a senhora não fizer nada a respeito da reportagem invasiva o quanto antes, eles vão contar as parcerias que firmaram conosco.

E eram tantas outras mensagens de fulano, beltrano, cicrano e enfim, tanta gente, que cansada de ouvir tudo isso, desligou o dispositivo celular preso ao suporte do carro.

Seus olhos já lacrimejavam gotas que deslizavam sobre seu rosto pálido até chegar ao queixo, onde se acumulavam e uma a uma caía sobre seus óculos escuros posto na gola de sua blusa.

— Deus! Como podem acreditar tão fácil assim nessa mentira?

Questionou-se ao parar o carro diante dos largos portões de sua grande mansão. Bastou ela buzinar para que os portões se abrissem como num passe de mágica.

Então, prosseguiu com o veículo até parar ao lado da guarita, onde um dos seguranças abriu a porta do carro para ela, como sempre fazia, pois era ele quem levava o veículo para a garagem.

Antes que ele pudesse vê-la, Cristina tratou de enxugar o rosto e os óculos com o conjunto de guardanapos que estava no porta-luvas e em seguida pôs seus óculos escuros para ocultar os olhos úmidos, que ainda acumulavam algumas lágrimas desejosas para transbordarem.

— Boa noite, senhora!

Ela nada disse. Ele esperou que ela saísse do carro, mas Cristina hesitou, pois no coração sentia uma forte emoção de revolta, tal emoção era tão intensa, que sem comunicar nada ao segurança, fechou a porta do veículo e, de ré, deixou os domínios da mansão.

...***...

Mais tarde, Cristina estacionou o carro próximo à casa de Álvaro. Ela não estava mais só, pois antes de ali parar, havia passado pelo orfanato que financiava já há um bom tempo.

Desse orfanato, ela convidou e trouxe consigo o menino que havia recentemente levado para lá. Era o mesmo garoto de rua que numa noite passada foi alimentado por Álvaro.

Cristina escreveu uma pequena mensagem sobre um guardanapo, entregou ao menino e pediu que ele pusesse no chão diante da porta, na qual ele teria de bater e sair correndo de volta ao carro.

Dado as orientações, o menino fez como ela pediu. E após retornar ao veículo, Cristina ligou o veículo e dali foram embora sem saber se a mensagem seria ou não lida por quem ela a partir de então sentia o coração arder de ódio.

...***...

— Aonde estamos indo agora, senhora? — indagou o menino, trazendo Cristina de volta ao controle do coração acelerado e muito revoltado.

Num breve momento, ela olhou para o menino e retomou a visão da estrada asfaltada, pois já estavam bem longe da casa de Álvaro, numa rodovia movimentada.

— Eu não prometi que te levaria a pizzaria? — indagou ela.

— Foi...

— Pois é onde estamos quase chegando.

— Sério!? — animou-se o menino.

— Qual sabor você vai querer?

— Sabor?

— É o tipo de pizza.

Chegaram, pois, ao destino. Cristina estacionou o carro o mais próximo possível. E antes de retirarem o cinto de segurança, o menino a indagou, timidamente:

— E o que é uma pizza?

Cristina sorriu, um sorriso que a fez naquele e nos instantes seguintes esquecer que a sua vida estava mudando de uma forma tão rápida quanto a mudança que promoveu na vida do menino.

— Você já vai descobrir.

O local era muito bonito, na visão da criança, um paraíso de cheiros divinos que hipnotizavam até o mais relutante estômago.

Ambos sentaram-se à mesa num canto mais reservado, mas ali também eram visíveis aos demais clientes saboreando a pizza requerida.

— Traga-nos a moda da casa e, de acompanhamento, batata palha e uma garrafa de refrigerante.

O garçom anotou com atenção o pedido simples e objetivo de Cristina, que, assistida pela pequena companhia, sentia-se bem com o vislumbre dos olhos dele.

...***...

— Está gostando do orfanato?

— Sim, é muito melhor do que a rua — respondeu, baixando o olhar.

— Tem algo que ainda te incomoda?

— Tenho medo de me acostumar com aquela cama quentinha e depois ter de voltar a dormir no chão frio.

— Não precisa, querido. Eu não vou deixar.

Prometendo cuidar para que o mal das ruas não viesse a atingi-lo novamente, Cristina foi pega de surpresa pela chegada da pizza de tamanho médio.

— Rápido como sempre — elogiou.

— Obrigado!

O garçom pôs a pizza sobre a mesa e, após abrir a garrafa de refrigerante, foi buscar a batata palha.

O rosto do menino se abriu num sorriso que dinheiro algum poderia pagar, pois, foi tão espontâneo que outro como aquele seria praticamente impossível de captar novamente.

— É a primeira vez que vejo uma pizza.

— E não vai ser só essa — disse Cristina. — Sempre que eu puder, irei levá-lo a outros lugares como este, o que acha?

Em resposta, o menino se levantou do assento e, com lágrimas a escorrer pelo semblante feliz, abriu os braços na direção de Cristina.

— Obrigado, senhora!

— Meu querido!

Ela o abraçou, sentindo a infantil gratidão que emanava daquele ser de nove anos. Assim, permaneceram por um demorado momento, pois era bom ao ponto de desejarem que essa sensação gostosa, bem mais do que o próprio cheiro da comida, não cessasse tão rápido quanto um estalar de dedos.

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