Capítulo 13

Álvaro ouviu a porta abrindo e, juntando as mãos como se quisesse dar a impressão de que não fazia nada de errado, sentiu uma mão deslizar sobre seu ombro esquerdo. Isso o fez se arrepiar, pensando que fosse a delicada mão de Cristina.

— Nervoso, amigo?

Era, no entanto, um dos funcionários veteranos da empresa: o seu Nivaldo, homem de quase meia-idade, que já tinha muitos cabelos brancos na cabeça e rugas distribuídas pelo rosto sorridente.

— Não se incomode, só vim limpar aqui e ali e já irei sair.

Produzindo um ruído na garganta, seu Nivaldo tentava reproduzir uma música nacional enquanto limpava o pó do carpete e de uma estante de livros.

— Quem dera eu fosse um cantor, meu amigo. A esta hora eu estaria curtindo as praias do Caribe cantando sob a sombra de um coqueiro… Cof! Cof!

A poeira o fez tossir, mas de forma alguma afastou dele o bom humor.

— Aproveite a vida, amigo, de preferência, sendo honesto, pois seria tolice desperdiçar a única tacada com uma bola na caçapa, quando ainda há outra pra ser encaçapada.

Álvaro passou a mão na consciência e, não entendendo bulhufas do que ele falava , mentiu ao fazer um gesto positivo com a cabeça.

— Fale algo, amigo. Assim, fica parecendo que estou a falar sozinho aqui enquanto limpo estes livros.

— Por que o senhor está me chamando de amigo? Por acaso já nos conhecemos antes?

— Nossa! De tudo que poderia dizer, disse o mais óbvio.

— É que, pode parecer estranho eu dizer isso, mas eu não lembro de muita coisa do meu passado.

— Amnésia?

— Não exatamente, mas é quase isso.

— Eu não acredito no esquecimento, mas também não pense que eu acho que você esteja mentindo.

— Por que eu mentiria? — indagou Álvaro.

Seu Nivaldo cessou o trabalho e, sentando-se na cadeira de Cristina, indagou-o, como se fosse o chefe daquela pequena sala:

— Pois então, diga-me: o que é preciso pra alguém chamar outro de amigo?

— Eu não sei… Acho que deveriam no mínimo conhecerem um ao outro.

Seu Nivaldo riu da resposta dele e, batendo sobre a mesa com a mão aberta, acrescentou:

— Errado, amigo! Dizer é fácil, pois posso até mesmo chamá-lo de meu pai, mas se, para com você, eu não agir como um filho, não somos de fato pai e filho, senão palavras vagas ditas sem nenhum fundo de verdade.

Seu Nivaldo aconchegou as costas na confortável cadeira e, abrindo os braços como se estivesse a se espreguiçar, pôs os pés calçados em botas pretas sobre a mesa.

— Nunca duvide disso, amigo, pôr fé nas palavras é dar as costas a um homem armado que tanto pode, como não, apunhalá-lo pelas costas.

Cristina abriu a porta e, ao ver o rosto da chefa, Nivaldo tombou a cadeira para trás, ao empurrar a mesa. Papéis e lapiseiras caíram no chão que nem ele, que, no entanto, se levantou às pressas.

Álvaro o ajudou a reorganizar a mesa, ao passo que Cristina sentou-se na cadeira e, sem dizer nada, apenas observou os dois, principalmente seu Nivaldo, nervoso, pois não era a primeira vez que fazia algo do tipo. Talvez tenha sido essa a razão por nunca ter sido promovido durante os mais de dez anos trabalhando ali.

— Deixe-nos a sós, por favor, seu Nivaldo, depois o senhor termina a limpeza.

— Sim, senhora.

Seu Nivaldo saiu todo constrangido. Mais um flagra como aquele e certamente veria o olho da rua diante de seus pés.

— Eu novamente quero pedir desculpas pelo atraso.

— Acredita que isso vale mesmo alguma coisa na situação em que você se encontra? — Cristina estava estranha, sentada à sua mesa, sentindo suas mãos suando e suas coxas formigando, seu coração palpitando acelerado e seus pensamentos se colidindo. — Como pode conseguir um emprego se não cumpre nem mesmo com o horário? — Seu tom de voz gradualmente se elevou. — E essa roupa, não tinha uma melhor? — começou a deixar Álvaro incomodado e de certa forma chateado. — Será que tomou ao menos um banho, hein? — inclinou-se sobre a mesa. — Deixa eu sentir o seu hálito…

Álvaro hesitou, com a língua coçando poucas e boas palavras a serem ditas, mas nada disse e, por fim, fez o que ela pediu.

— Eu sabia, bebeu de novo, não foi!?

— Como assim? — indagou-se, atônito.

***

Foi aí então que Cristina voltou a si.

— O que foi? Por que está me olhando assim?

— Você estava agindo diferente…

— Diferente? Como?

— A senhora começou a falar como se fôssemos próximos.

— Chame-me só de Cristina, por favor…

— Olha aí! — Álvaro recuou em direção a porta.

— O que foi… Ai! — Cristina pôs, de imediato, uma mão sobre a fronte, sentindo a região da testa pulsar de uma súbita dor.

— Você precisa de um médico…

— Não, não. Isso acontece de vez em quando e, por isso, sinto uma forte enxaqueca, desde a morte do meu marido.

***

Portanto, o súbito ataque dela já parecia ter algum sentido após sua última fala. Apesar disso, ainda soava estranho aos ouvidos de Álvaro o que ela dissera, principalmente porque a carapuça de certa forma lhe serviu.

— Só chame a Anne para mim, e amanhã venha no mesmo horário, mas sem atraso, por favor.

***

No caminho à recepção, Álvaro cruzou com o seu Nivaldo, que passou a acompanhá-lo até o objetivo.

— Pensei no que você disse há pouco, amigo, e é por isso que eu gostaria que você fosse até a minha casa, sabe? Pra gente se conhecer melhor.

Seu Nivaldo repassou o endereço.

— Estou lá sempre à noite. Apareça quando e a hora que desejar, só não após a meia-noite, pois é a hora que não sei mais distinguir se estou vivo ou morto.

Seu Nivaldo sorriu, e Álvaro não pôde evitar o riso contagiante dele, que, porém, teve breve efeito em Álvaro, pois este não tinha muito tempo para rir, mas sim, tinha um pedido importante em mente para cumprir.

— Acho que ela precisa de um médico também…

— Entendi — respondeu a recepcionista, com desdém. — Já pode ir embora.

Álvaro despediu-se de seu Nivaldo com um aperto de mão. Ainda não eram conhecidos, mas há certas pessoas que isso é o que menos importa, pois, só ao ouvi-las falar, parece que já a conhecemos. A isso muitos chamam de a magia do rapport (da conexão).

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