Capítulo 5

A caminho do hospital, Álvaro permanecia calado, com a mão a pressionar o ferimento, quis trocar a mão direita pela esquerda, de repente.

— Cuidado, ou vai manchar o meu carro! — disse ela, retirando uma mão do volante, segurou firme o pulso dele.

Entreolharam-se pela curta distância dos assentos do veículo e, estando sem os óculos escuros, Álvaro notou nitidamente os olhos esmeralda e brilhantes dela.

O toque, por sua vez, disparou involuntárias sensações de ambos os lados. Mantiveram o contato visual por mais de dez segundos, que, lentos, pareciam não passar.

— Ô… desculpa — soltou o pulso dele e retornou a vista à estrada. — Só, por favor, não descubra mais o seu ferimento dentro do meu carro.

Com a mão esquerda a pressionar o corte, permaneceu sem falas a fitar o colar suspenso no retrovisor interno.

— Aliás, como disse mesmo que se chamava?

Nem mesmo lembrava-se do nome dele, como poderia então pensar em algo para ajudá-lo, se lhe era mais fácil esquecer as próprias promessas. Nisso, pensou ele brevemente.

— Álvaro.

— Cristina Andrade — disse ela entre pausas —, imagino que já sabia.

— Não.

Isso era quase impossível para uma pessoa reconhecida em toda a cidade. Disso tinha ela a certeza, por isso ficou surpresa e, percebendo o olhar dele, na direção do colar dourado suspenso no retrovisor interno, quis fazê-lo falar.

— Quer perguntar algo?

— Talvez...

— Estamos quase chegando no hospital.

— Tive a impressão de já ter visto esse colar.

— Você deve ter me visto usando o meu.

Cristina passou uma mão sobre o pescoço e não sentiu o esperado pertence. Alisou o colarinho e sentiu a ausência do colar.

— Não, este é parecido, mas não é o meu.

Foi aí então que ela se lembrou de que o colar havia se desprendido de seu pescoço, por isso colocou-o sobre a mesa de sua pequena sala particular, mas esqueceu de voltar para pegá-lo.

— Que memória essa minha! Desde a morte do meu marido, tenho tido perdas de memória ocasionalmente. Não é à toa que deixo o colar dele aqui, para poder lembrar do quanto o amei, mesmo não conseguindo me recordar nem do dia e nem do mestre de cerimônia do nosso casamento.

— Sinto pela sua perda.

Álvaro desviou o olhar para o para-brisa, acrescentando em tom pensativo:

— Não é a única, digo, há uma década perdi as memórias do meu passado daquela época. Desde então não sei mais ler nem escrever, se é que eu sabia fazer isso antes daquele dia…

"Intrigante, será que fala a verdade?" já pensava ela no meio da fala dele, dando-lhe pouca atenção.

— Talvez seja esse o motivo de não me contratarem, mesmo que nunca tenham me dito isso exato e diretamente.

— Nossa! — retomou ela o assunto das perdas de memória. — Não imaginei conhecer nesta cidade alguém que tivesse o mesmo problema.

Álvaro percebeu a falta de atenção dela e, mediante a isso, sentiu-se desprezado, mesmo que essa não fosse a intenção dela. Respondeu com certo tom de desânimo:

— Não é raro que isso aconteça a alguém. Uns nascem com ele, outros o adquirem com o tempo, ou após sofrer um trauma, ou um acidente como foi o meu caso.

Cessou a fala e retornou o olhar a assisti-la centrada na direção, com uma expressão diferente, nem fechada e nem aberta, um meio-termo, como se estivesse a refletir. Algo a incomodava.

— Você sabe, mas eu não sei o porquê das minhas perdas de memória — externou o incômodo, notando o quarteirão antecessor ao do hospital. — Melhor eu não dizer mais nada, é uma longa história...

— Eu estou a ouvidos.

— Talvez outra hora... Chegamos.

Repôs os óculos escuros no rosto e saiu do carro, esperando que ele fizesse o mesmo.

— O que houve?

— Esse hospital... É um hospital particular! Eu não tenho como pagar!

— E quem disse que precisará pagar? Venha!

Entrou seguida, ela mal pôs os pés no local e a recepcionista já foi se colocando em prontidão.

— É um prazer recebê-la em nosso hospital!

— Anote que eu tenho pressa — pediu, seriamente, retirando os óculos.

— Claro, no que posso ajudá-la?

— Cuide dele, por favor.

A recepcionista enfim notou Álvaro logo atrás da conhecida e, com certo olhar de indiferença, encaminhou-o para ser atendido pelo setor de curativos.

— É na segunda sala, logo à esquerda — apontou o caminho.

Álvaro olhou para Cristina e, sem muito o que falar, agradeceu.

— Obrigado!

— Não pense que agora se livrou de mim.

— Como assim?

— Vá tratar logo esse seu ferimento — respondeu em tom apressado. — Peça que a enfermeira seja breve e, caso precise, diga-lhe "Cris33".

Tanto Álvaro quanto a recepcionista não tinham ideia do que significava tal palavra, que mais se assemelhava a um código.

— Ficarei aqui esperando — acrescentou, indo sentar-se na poltrona macia e confortável próximo ao balcão.

Álvaro se foi e sumiu ao dobrar à esquerda do corredor. Cristina sentou-se e ficou a mexer em seu aparelho celular de última geração, cheio de notificações relacionadas em maioria ao trabalho, à multinacional e às demais organizações. Em momento algum, ela tinha tempo a perder à toa.

A recepcionista quis puxar conversa, mas ela não conseguia nem um pingo de atenção. Então, voltou-se ao telefone de trabalho e realizou uma demorada ligação telefônica, falando às vezes em voz baixinha, como se estivesse a sussurrar um segredo pelo telefone.

Nesse ínterim, Álvaro recebeu os cuidados necessários após falar a palavra mágica, pois sem ela, todos do hospital teriam ouvido um grito ecoar daquela sala. Quando a enfermeira o viu, pensou que fosse algum bandido que tivera levado um tiro na testa.

— Obrigado pelo curativo.

— É só o meu trabalho.

Assim que retornou à recepção, Cristina já estava a bater o pé no chão por tanta demora. Ele teria sido mais breve se a enfermeira não tivesse tantos estereótipos encucados naquela cabeça de gente que vê as coisas com mais facilidade pelo lado ruim.

— Pelo menos já podemos ir. — Repôs novamente os óculos. De tanto fazer isso, às vezes, fazia até sem perceber. — Espere-me no carro.

Álvaro saiu do hospital, repetindo um obrigado. Muita gratidão por fora, mas por dentro, preocupação. Tinha, pois, de conseguir dinheiro para comprar o almoço da filha e do idoso pai.

...***...

— Moça, o que está olhando? — indagou Cristina.

A recepcionista distraída retornou a si, de imediato.

— Perdão.

— Pois bem, pagarei o atendimento por transferência instantânea.

Logo, Cristina deixou também o local, passando pela porta de duas abas com abertura automática. Do outro lado da rua pavimentada estava estacionado o carro. Aproximou-se com passos apressados e sem demora adentrou o veículo.

— Pronto para ir... Álvaro?

Ele simplesmente não estava no carro nem sequer avista, para onde teria ido?

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