Rosemarie parecia não estar mais com brincadeira, pois começou a levar tudo muito a sério. Bateu com o chicote sobre o colchão.
Álvaro sentiu o ar cortado pelo objeto lhe atingir levemente o rosto pasmado. Estava, pois, a conhecer pela primeira vez a professora de sua filha por trás das cortinas, sobre a cama, sob o lençol de veludo.
Quando foi a última vez que teve contato tão íntimo assim com uma mulher? Ele não se lembrava, senão de que sabia como agarrá-la, desarmá-la e despojá-la à proporção que se despia também.
De repente, o ar tornou-se limitado, a cama pequena, as palavras poucas e os gemidos delongados. Álvaro digitou no corpo dela os comandos do prazer e ela disparou nele os gatilhos do ápice.
Lento, penetrante, carinhoso e gentil, amaram-se como um só corpo, unindo-se no decorrer de alguns minutos.
Ele chegou primeiro à linha do limite, que, uma vez ultrapassada, não é possível mais regressar, e ela, em seguida, suspirou, deitando-se ao lado dele.
O ar começou a se expandir, minimizando o calor dos corpos oleosos de ambos desnudos.
Acariciando o peito dele, Rosemarie parecia satisfeita, mas ele, por sua vez, pensativo, prendia as expressões do gozo no interior de si, como se nada houvesse sentido ao liberar a loucura do ato sem o uso de preservativo.
Nem sequer eram namorados, como podia ser um bom exemplo de tradicionalismo a filha, como bem pregava a menina?
— O que te preocupa?
O silêncio foi o primeiro a responder, e ele em seguida, dizendo baixinho:
— A gente avançou muito rápido...
— Não se preocupe, eu já estava preparada para isso.
Dizia em relação ao uso de anticoncepcionais e a mentalidade pronta para o que quer que aquele ato fosse considerado, incluindo a interpretação de algo casual.
— Eu gosto muito de ti e da sua família também. Desde quando vieram morar próximo a minha casa, esta região não é mais a mesma.
Se a unha dela fosse uma agulha de tatuadora, teria deixado registrado no corpo dele a figura de um coração.
— Sinto-me muito agradecida por despertar e encontrar a Isadora me chamando mãe, é algo tão especial entre nós...
— Te chamando de mãe?
— Não é nada de mais, é coisa nossa.
Álvaro começou a tomar nota da relação que, por trás de si, existia entre Rosemarie e a filha.
— Você não se importa que fazemos isso às vezes, não é?
Ele virou o rosto e, fitando-a, olho a olho, respirando lentamente, respondeu sem expressar dureza ou leveza, dizendo:
— Quero que pare com esse fingimento.
— Álvaro! — exclamou, surpresa, com o coração a partir e os olhos a encherem de abruptas lágrimas. — Eu amo a sua família... Eu amo você!
— Eu sei disso — ressaltou em tom brando. — Por isso, tê-la como a mãe da minha filha me deixa feliz.
— Por que disse pra eu parar então? — questionou, confusa, limpando a borda dos olhos com o lençol.
— Eu só não quero que finja quando pode ser de fato quem a Isa tanto deseja ter na vida.
...***...
— Uma mãe! É isso que eu quero de presente!
— Mas, filha, esse presente eu não posso te dar...
— É só o senhor se casar com a professora Rose.
— De onde tirou isso? A Rose é só a nossa vizinha desde quando viemos pra cá há quase um ano e, por coincidência, a sua professora também...
— Não é não!
— Não grite, por favor...
— Ela também é a minha mãe!
— Volta aqui, Isa... Aonde está indo?
— Ver a minha mãe!
...***...
Álvaro sentiu a região do curativo doer ao fim da súbita lembrança, daquelas que passam diante dos nossos olhos quando menos esperamos.
Em seguida, notou que Rosemarie ainda estava meio emotiva pelo que falou primeiro.
— Calma, não foi minha intenção te deixar assim...
— Você não sabe o quanto a Isa tem melhorado a minha vida. Ela é muito especial para mim.
Rosemarie o fitava com seus olhos brilhantes à luz do abajur sobre o criado-mudo ao lado da cama.
— Você também é especial pra nós, Rose. Você é o presente que eu não pude dar à nossa filha — acrescentou, beijando-a em seguida.
Reiniciou-se então uma nova dança de estímulos corporais.
Quando a sede bateu nos dois, ela foi desnuda até a cozinha e de lá trouxe consigo uma bebida alcoólica.
Beberam, conversaram mais um pouco, seriedades e banalidades, abriram-se um para o outro, como girassóis a compartilhar entre si a luz, a verdade e a confiança. E antes de as cortinas se fecharem, depositaram as últimas energias da madrugada em mais um ato voluptuoso.
A lua foi testemunha de que naquela casa, naquele quarto organizado, que teve a cama bagunçada pelos amantes, emanou a paixão, brotou o amor e ressoou o prazer.
Há meses eram estranhos, e então, tão conhecidos se consideravam ao ponto de dormirem juntinhos numa noite que nem o calor os separou.
Contudo, Rosemarie ligou o ventilador, que pelo resto da noite trabalhou, como o garçom de um bar noturno servindo os amantes até o nascer do dia.
Álvaro despertou sob o hálito e os zunidos do ventilador, soprando-lhe um ar desagradável, pois o clima do dia com o ventilar do equipamento elétrico não estavam se combinando.
Desligou o ventilador e, aquietando o quarto, percebeu sobre a cama as roupas que Rosemarie vestira à noite.
Após bocejar num demorado espreguiçar, levantou-se e vestiu-se, sentindo ainda um resquício do cansaço que as agitações da madrugada lhe causaram.
Entre os cadarços de um de seus sapatos, havia um bilhete de sua querida professora Rose. Dizia ela ter lhe deixado sobre a mesa da sala de jantar o café da manhã pronto, bem como alimentou a filha e o idoso pai dele e, deixando o debilitado senhor de idade feliz com a fome saciada, levou a menina para o colégio, como sempre fazia em todas as manhãs de aula.
Como havia lido no bilhete, Álvaro encontrou a mesa atraente com um café da manhã irrecusável, se não fosse a lembrança de que estava uma hora atrasado, teria se satisfeito com mais do que uma única fatia de bolo, que pegou e, comendo-a enquanto corria até o centro da cidade, lembrou-se de que deveria ter ido primeiro ver o pai antes de ir à multinacional, porém, já estava distante demais para retroceder.
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Atualizado até capítulo 31
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