Capítulo 17

Rosemarie segurou a faca de um jeito que dava a impressão de desejar intoduzir a lâmina afiada num corpo maciço. Ela permaneceu sentada, enquanto Álvaro tentava ler os pensamentos dela.

— Não me olhe como se não soubesse o que todos já sabem.

— Rose...

De mansinho, tentou se aproximar dela.

— O que eu disse não é verdade...

— Canalha!

Ela se levantou rápido e, de imediato, tentou golpeá-lo. Álvaro girou em torno dela, desviando da faca e, por conseguinte, caindo no sofá.

— Como pôde me usar esse tempo todo! — gritou ela, entre lágrimas e uma raiva em crescimento. — Fui só mais um dos seus caprichos, não foi!?

Ela saltou sobre o sofá e, mantendo Álvaro sob a ameaça da lâmina, sentiu o medo exalando dele, ou seja, o cheiro que o próprio olfato revolto desejava sentir.

— Rose, por favor, tem criança em casa...

— Você só pensa em si mesmo, não é?

— É sério... saía de cima de mim, e vamos conversar como adultos que somos.

— Quem? Você, adulto? — riu em tom sarcástico. — Tá mais pra um animal no cio. Pergunto-me como conseguiu seduzir aquela mulher deitada numa grande fortuna. Será que usou a mesma lábia? Não, você não tem cara de repetir as palavras e nem mesmo os locais de sexo...

— Rose, nada disso é verdade...

— CALADO!

— É a sua imaginação criando tudo isso...

— Não finja ser surdo! — aproximou ainda mais a lâmina do pescoço dele. — A Isa merece ter um exemplo melhor.

— Não faça isso, por favor!

— Bem que eu não queria, mas você feriu a minha confiança, o meu amor, a minha dignidade...

— Eu juro, Rose, juro que tudo aquilo não passou de uma grande mentira.

— Jurar não prova nada.

— Mas aquele vídeo também não. Eu recebi uma grana só pra dizer aquilo.

— Então, ela ainda te pagou pra você...

— Não, é claro que não! — Álvaro começou a sentir a lâmina lhe ferir levemente. — Rose, pense bem, se a Isa aparecer aqui e nos ver assim...

— Ninguém vai aparecer, meu amor, ninguém. Eu a levei para a minha casa, e o seu pai também. Estão os dois dormindo confortavelmente agora. Diferente de dormir nesses seus colchões velhos.

— É por isso que estou trabalhando dia após dia, lutando para conseguir dar uma vida melhor aos dois.

— Não precisa se preocupar mais com isso, pois a partir de hoje eu vou cuidar muito melhor dos dois.

Iniciaram então uma luta de forças. Ela tentava finalizar o ato homicida, ao passo que ele resistia, segurando os pulsos dela, tentando afastar a arma da morte de si, mas na posição em que se encontrava a vantagem era muito menor que a dela.

— Rose, eu não posso morrer...

Ela mal conseguia ouvi-lo, pois, naquele momento, estava no auge das emoções, tomada pelos impulsos negativos, desejava de uma vez por fim a origem de um recente sofrimento.

— Eles estão em perigo...

— Morre logo! — gritou ela, fechando os olhos, pois sentia pesar o dilema entre parar ou continuar. — Eu te amo, Álvaro!

Álvaro ainda não tinha a certeza se o que sentia por ela era o mesmo amor, o amor de amantes, de cumplicidade na cama, de amizade eterna, de união num só corpo e numa só alma, de confiança indelével, porém, disse ele:

— Também te amo, Rose...

Disse tais palavras, em parte por impulso, em parte por vontade própria, pois se aquele fosse realmente o seu fim, não haveria outra oportunidade de dizer o que sentia ou julgava sentir.

Todavia, ele desejava intensamente a vida, pois além das pessoas que precisava proteger, também queria compreender melhor o que sentia de fato por Rosemarie, que estava nitidamente fora de si, consternada com tudo que viu e ouviu mais cedo tanto da reportagem quanto de boatos espalhados na região e na rede online, tal como as mais diversas teorias e explicações para o caso “Cristina Andrade e Álvaro Reis: o contraste do amor moderno”.

...***...

Bateram a porta, Rosemarie minimizou a força aplicada na faca. Foi aí então que Álvaro conseguiu tomar dela o objeto cortante e, abraçados sobre o sofá, pediram desculpas um ao outro, principalmente ela por ter se deixado tomar pela raiva de um coração ciumento.

Embora quisesse negar, ficou evidente que por outro homem Rosemarie não havia sentindo um amor tão gostoso e intenso como o que sentia por Álvaro, pai da menina que a cada dia crescia sua afeição e seu amor por ela, Isadora.

— Vai ficar tudo bem.

— Eu quase te matei — disse ela, chorosa.

— Está tudo bem, já passou.

Logo, Álvaro foi até a porta e, após abri-la, avistou um guardanapo no chão, no qual estava escrito:

"Eu quis te acolher, mas você se aproveitou disso para me prejudicar. Não pense que eu vou esquecer isso. Prepare-se, pois as consequências estão a caminho."

— É dele, só pode ser um aviso dele! — exclamou Álvaro, preocupado.

— Quem?

— O Ratão, chefe dos ratos, ou seja, de uma das organizações criminosas da cidade da qual nos mudamos há quase um ano.

— Por que não me contou sobre isso antes?

— Eu pensei que pudesse recomeçar uma nova vida. Esquecer que um dia fiz parte de um grupo do crime pra ter o dinheiro que eu não conseguia ganhar trabalhando honestamente.

— Se sabia disso antes, por que ainda se juntou a eles?

— Rose, uma organização criminosa paga bem melhor do que um trabalho honesto neste país.

Disso, Rosemarie não tinha o que discordar. Ela releu o que estava escrito no guardanapo e não encontrou em nenhuma parte o nome do remetente ou do destinatário.

— Não há assinatura. Pode ter sido escrito por qualquer pessoa.

— Não. Eu tenho certeza que isso é dele. Depois da minha imagem ser mostrada em todo o país, não tinha como ele não me encontrar. E vingança é o que o Ratão nunca deixa passar batido. Enquanto eu não for encaixotado, ele não vai me deixar em paz, tampouco a minha família ou quem quer que esteja próximo a mim.

Álvaro começou a andar de um lado a outro, pensando no que fazer, a preocupação movia as pernas dele de forma involuntária. Muita energia estava sendo produzida e queimada à medida que sentia a testa e as axilas suando.

— O que vai fazer?

— Preciso encontrar outro lugar pra morar.

— Você não pode se mudar...

— Aqui não é mais seguro pra mim, nem pra Isa e nem pro meu pai.

— E quanto a nós? Você vai levar a Isa pra longe de mim, assim, tão de repente?

— Não há outra saída, ou saímos daqui com vida, ou ficamos aqui aguardando a morte.

Rosemarie o parou, abraçou-o pelas costas e repousou o queixo sobre o ombro dele.

— Pois então, eu vou com vocês para onde quer que irão, e se recusar, aí dessa vez eu te mato de verdade!

— O quê!?

Rosemarie começou a rir.

— Estou brincando, bobinho.

Ela o apertou forte pela cintura e roçou seus cabelos morenos sobre as costas dele, sentindo com firmeza o corpo do homem que em hipótese alguma desejava largá-lo.

Murmurando em tom sereno e brando, ela acrescentou, carinhosamente:

— Podemos recomeçar tudo como uma família.

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