Outra funcionária assumiu o posto de Anne Lígia na empresa, pois esta, por sua vez, acompanhou a chefa ao hospital particular da cidade vizinha, especializado em ressonância magnética. Era o quinto exame do mês, e o resultado, o mesmo.
— Não há nenhum dano interno.
— Tem que haver — retrucou Cristina. — De que outra forma eu teria essas enxaquecas repentinas?
— Talvez sejam decorrentes de um trauma.
— O que isso significa? — indagou Anne.
Os três estavam no escritório médico dele.
O médico sentado à sua mesa, e elas, sentadas à frente da mesa, tentavam entender o laudo médico.
— Se o corpo acusa um problema que não é constatado no corpo, então é muito provável que ele seja neurofisiológico.
— Um trauma pode ser a razão também de eu ter perdido algumas memórias.
— Talvez.
— Talvez? — retrucou Anne, inconformada. — Viemos em busca de respostas mais concretas.
— Sinto muito, mas eu não posso fazer afirmações sem haver nenhuma evidência...
— Eu esperava mais do senhor, doutor — disse Anne —, mas parece que este foi só mais um hospital que nada fez pela minha chefa.
Cristina cortou a conversa e, agradecendo ao médico, estavam de saída.
— Por que não procuram um hipnoterapeuta? — sugeriu, antes que Cristina pusesse o outro pé fora da sala. — Posso lhe indicar um de minha total confiança.
...***...
Ao deixarem o consultório médico, as duas conseguiram ouvir murmúrios no corredor, onde notaram os olhares que tinham Cristina como alvo.
Confusas, só entenderam o que aquelas pessoas estavam comentando quando, na recepção, assistiram à tevê transmitindo uma reportagem, na qual continha uma foto de Álvaro no carro de Cristina.
E se isso já não fosse o suficiente para encher de saliva a boca dos falatórios, a legenda era sugestiva: "Cristina Andrade e o seu atual amante?"
— Nós vamos processá-los...
— Para dar mais força a eles? — Cristina já se sentia incomodada com o ambiente em que lhe olhavam com desconsideração. — Não quero pensar nisso agora. — Ela começava a sentir sua cabeça pulsando novamente.
Não era preciso muito esforço para notar que Álvaro era um homem de classe baixa em comparação com a dona da multinacional.
A reportagem acrescentou a filmagem dele, dizendo as palavras pedidas pela repórter em troca de uma grana fácil. Sem consciência, Álvaro pôs numa corda bamba a reputação de uma multimilionária.
...***...
Naquele dia, ao deixar a multinacional, Álvaro retornou à casa ao meio-dia, com três marmitas que comprou com uma pequena fração do dinheiro ganho da repórter, cujo restante da “grana” guardou embaixo do colchão do idoso pai, que nele ficou deitado, e a filha ora estudando, ora brincando com o que tinha à disposição: uma boneca velha, o rabiscado caderno de desenhos e os seus prediletos lápis de cores, enquanto Álvaro retornou às ruas à procura de um “trampo”, algum serviço que pudesse lhe pagar por sua mão de obra.
Encontrou, pois, num posto próximo uma vaga disponível no “lava a jato” do local. Ali havia também uma oficina de veículos automotores.
Alguns carros e motocicletas passavam primeiro pela lavagem antes do mecânico, outros eram lavados para, então, serem abastecidos e dali seguirem rumo aos seus respectivos destinos.
Álvaro deu o seu suor naquela tarde de trabalho abençoado, pois o fluxo de veículos estava bom, e o número de clientes superior ao que a própria força de trabalho poderia dar conta.
Contudo, sem deixar nenhum cliente insatisfeito, Álvaro lavou todos os veículos à espera. E quando se deu conta do tempo, já eram quase oito da noite, três horas a mais do que havia sido acordado com o dono do lava a jato.
— Pronto, senhor?
Álvaro terminava de polir a última porta do carro do derradeiro cliente.
— Pronto! Boa viagem!
— Obrigado! Tome esta nota também.
— Não precisa...
— Aceite logo, estou com pressa.
Recebeu o valor do serviço, tal como uma nota de valor superior ao preço do trabalho finalizado. Logo, Álvaro foi para com o dono do lava a jato trabalhando como frentista acertar a conta da tarde de trabalho, sozinho.
Em nenhum momento Álvaro recebeu ajuda e, mesmo assim, o dono subtraiu mais da metade do dinheiro ganho com a árdua tarde de trabalho.
— Satisfeito?
Álvaro não disse nada, apenas fez que sim com a cabeça, pois estava cansado demais para protestar o valor injusto ganho.
Nem mesmo as gorjetas recebidas por fora equilibraram a balança a favor de Álvaro, que continuava com um ganho muito baixo.
— Amanhã melhorá — disse o dono. — Venha mais cedo, tudo bem?
...***...
O som de um carro que chegou para abastecer cobriu a fala de Álvaro, deixando claro que pensaria se iria voltar ou não àquele trabalho. O motorista do veículo baixou o vidro e, ao avistar Álvaro, disse:
— Ei! Você não é... Cacete, é você mesmo!
— Boa noite, senhor, o que deseja? — indagou o frentista.
— Encha o tanque, por favor.
O frentista se afastou, e Álvaro desejava fazer o mesmo, mas no sentido de ir embora.
— Cara, espera aí! Deixa eu te dizer... Eu vi a sua reportagem de hoje cedo. Agora tá em tudo quanto jornal do país.
— Reportagem? — Álvaro se aproximou da janela do motorista. — Como assim? Não entendi o que está querendo dizer?
— Pra que dizer? É só ver aqui — pegou o dispositivo celular e apresentou o vídeo online da mencionada reportagem.
...***...
— Dizem por aí que você está tendo um caso amoroso com a multimilionária Cristina Andrade, e que já chegaram a ter até relações íntimas no carro dela.
— Sim, não vou mentir.
...***...
— Não é mesmo você? — indagou o cliente.
— Apaga isso aí…
— Não tem como deletar, pois tá na rede...
— APAGA! — gritou Álvaro, tomando o dispositivo celular dele e, não conseguindo deletar o vídeo, acabou por quebrar o pertence alheio.
— Perdeu o juízo, cara!
Ouvindo a voz do frentista, Álvaro correu dali.
— Volte aqui e pague pelo prejuízo que causou ao cliente!
Em momento algum olhou para trás.
O que Álvaro mais desejava, então, era chegar à sua casa o mais depressa possível, pois se a reportagem estava em mídia nacional, era muito provável que eles, os traficantes da facção que prejudicou, haviam descoberto o local de seu refúgio, isto é, a cidade para a qual se mudou em razão da ameaça de morte do chefe dos ratos.
A maior preocupação de Álvaro, portanto, era de ser afogado pelo seu passado, assim como fazer sua família também ser engolida pelas ondas da reação de uma consequência que nem mesmo o tempo poderia apagá-la.
Disso, Álvaro tinha a certeza. O líder dos ratos tinha uma memória excepcional e uma mente de diabo.
Adiante, ao chegar e entrar em sua casa, Álvaro se deparou com Rosemarie, que, inesperadamente, estava sentada no sofá com uma faca ao lado de si.
— Finalmente... Eu estava te esperando, ansiosa, meu querido aluno Álvaro — disse ela num tom sinistro.
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Atualizado até capítulo 31
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