Capítulo 14

Outra funcionária assumiu o posto de Anne Lígia na empresa, pois esta, por sua vez, acompanhou a chefa ao hospital particular da cidade vizinha, especializado em ressonância magnética. Era o quinto exame do mês, e o resultado, o mesmo.

— Não há nenhum dano interno.

— Tem que haver — retrucou Cristina. — De que outra forma eu teria essas enxaquecas repentinas?

— Talvez sejam decorrentes de um trauma.

— O que isso significa? — indagou Anne.

Os três estavam no escritório médico dele.

O médico sentado à sua mesa, e elas, sentadas à frente da mesa, tentavam entender o laudo médico.

— Se o corpo acusa um problema que não é constatado no corpo, então é muito provável que ele seja neurofisiológico.

— Um trauma pode ser a razão também de eu ter perdido algumas memórias.

— Talvez.

— Talvez? — retrucou Anne, inconformada. — Viemos em busca de respostas mais concretas.

— Sinto muito, mas eu não posso fazer afirmações sem haver nenhuma evidência...

— Eu esperava mais do senhor, doutor — disse Anne —, mas parece que este foi só mais um hospital que nada fez pela minha chefa.

Cristina cortou a conversa e, agradecendo ao médico, estavam de saída.

— Por que não procuram um hipnoterapeuta? — sugeriu, antes que Cristina pusesse o outro pé fora da sala. — Posso lhe indicar um de minha total confiança.

...***...

Ao deixarem o consultório médico, as duas conseguiram ouvir murmúrios no corredor, onde notaram os olhares que tinham Cristina como alvo.

Confusas, só entenderam o que aquelas pessoas estavam comentando quando, na recepção, assistiram à tevê transmitindo uma reportagem, na qual continha uma foto de Álvaro no carro de Cristina.

E se isso já não fosse o suficiente para encher de saliva a boca dos falatórios, a legenda era sugestiva: "Cristina Andrade e o seu atual amante?"

— Nós vamos processá-los...

— Para dar mais força a eles? — Cristina já se sentia incomodada com o ambiente em que lhe olhavam com desconsideração. — Não quero pensar nisso agora. — Ela começava a sentir sua cabeça pulsando novamente.

Não era preciso muito esforço para notar que Álvaro era um homem de classe baixa em comparação com a dona da multinacional.

A reportagem acrescentou a filmagem dele, dizendo as palavras pedidas pela repórter em troca de uma grana fácil. Sem consciência, Álvaro pôs numa corda bamba a reputação de uma multimilionária.

...***...

Naquele dia, ao deixar a multinacional, Álvaro retornou à casa ao meio-dia, com três marmitas que comprou com uma pequena fração do dinheiro ganho da repórter, cujo restante da “grana” guardou embaixo do colchão do idoso pai, que nele ficou deitado, e a filha ora estudando, ora brincando com o que tinha à disposição: uma boneca velha, o rabiscado caderno de desenhos e os seus prediletos lápis de cores, enquanto Álvaro retornou às ruas à procura de um “trampo”, algum serviço que pudesse lhe pagar por sua mão de obra.

Encontrou, pois, num posto próximo uma vaga disponível no “lava a jato” do local. Ali havia também uma oficina de veículos automotores.

Alguns carros e motocicletas passavam primeiro pela lavagem antes do mecânico, outros eram lavados para, então, serem abastecidos e dali seguirem rumo aos seus respectivos destinos.

Álvaro deu o seu suor naquela tarde de trabalho abençoado, pois o fluxo de veículos estava bom, e o número de clientes superior ao que a própria força de trabalho poderia dar conta.

Contudo, sem deixar nenhum cliente insatisfeito, Álvaro lavou todos os veículos à espera. E quando se deu conta do tempo, já eram quase oito da noite, três horas a mais do que havia sido acordado com o dono do lava a jato.

— Pronto, senhor?

Álvaro terminava de polir a última porta do carro do derradeiro cliente.

— Pronto! Boa viagem!

— Obrigado! Tome esta nota também.

— Não precisa...

— Aceite logo, estou com pressa.

Recebeu o valor do serviço, tal como uma nota de valor superior ao preço do trabalho finalizado. Logo, Álvaro foi para com o dono do lava a jato trabalhando como frentista acertar a conta da tarde de trabalho, sozinho.

Em nenhum momento Álvaro recebeu ajuda e, mesmo assim, o dono subtraiu mais da metade do dinheiro ganho com a árdua tarde de trabalho.

— Satisfeito?

Álvaro não disse nada, apenas fez que sim com a cabeça, pois estava cansado demais para protestar o valor injusto ganho.

Nem mesmo as gorjetas recebidas por fora equilibraram a balança a favor de Álvaro, que continuava com um ganho muito baixo.

— Amanhã melhorá — disse o dono. — Venha mais cedo, tudo bem?

...***...

O som de um carro que chegou para abastecer cobriu a fala de Álvaro, deixando claro que pensaria se iria voltar ou não àquele trabalho. O motorista do veículo baixou o vidro e, ao avistar Álvaro, disse:

— Ei! Você não é... Cacete, é você mesmo!

— Boa noite, senhor, o que deseja? — indagou o frentista.

— Encha o tanque, por favor.

O frentista se afastou, e Álvaro desejava fazer o mesmo, mas no sentido de ir embora.

— Cara, espera aí! Deixa eu te dizer... Eu vi a sua reportagem de hoje cedo. Agora tá em tudo quanto jornal do país.

— Reportagem? — Álvaro se aproximou da janela do motorista. — Como assim? Não entendi o que está querendo dizer?

— Pra que dizer? É só ver aqui — pegou o dispositivo celular e apresentou o vídeo online da mencionada reportagem.

...***...

— Dizem por aí que você está tendo um caso amoroso com a multimilionária Cristina Andrade, e que já chegaram a ter até relações íntimas no carro dela.

— Sim, não vou mentir.

...***...

— Não é mesmo você? — indagou o cliente.

— Apaga isso aí…

— Não tem como deletar, pois tá na rede...

— APAGA! — gritou Álvaro, tomando o dispositivo celular dele e, não conseguindo deletar o vídeo, acabou por quebrar o pertence alheio.

— Perdeu o juízo, cara!

Ouvindo a voz do frentista, Álvaro correu dali.

— Volte aqui e pague pelo prejuízo que causou ao cliente!

Em momento algum olhou para trás.

O que Álvaro mais desejava, então, era chegar à sua casa o mais depressa possível, pois se a reportagem estava em mídia nacional, era muito provável que eles, os traficantes da facção que prejudicou, haviam descoberto o local de seu refúgio, isto é, a cidade para a qual se mudou em razão da ameaça de morte do chefe dos ratos.

A maior preocupação de Álvaro, portanto, era de ser afogado pelo seu passado, assim como fazer sua família também ser engolida pelas ondas da reação de uma consequência que nem mesmo o tempo poderia apagá-la.

Disso, Álvaro tinha a certeza. O líder dos ratos tinha uma memória excepcional e uma mente de diabo.

Adiante, ao chegar e entrar em sua casa, Álvaro se deparou com Rosemarie, que, inesperadamente, estava sentada no sofá com uma faca ao lado de si.

— Finalmente... Eu estava te esperando, ansiosa, meu querido aluno Álvaro — disse ela num tom sinistro.

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