Álvaro descobriu ser pai. Não se lembrava sequer da mulher que lhe deu uma filha. Onde ela estava? Questionou uma vez ao pai Adalberto.
— Estava contigo no carro, não sobreviveu, senão a criança e você — respondeu.
O primeiro contato entre Álvaro e a pequena recém-nascida não deixava dúvidas de que seus corações bombeiam sangue do mesmo sangue.
...***...
Álvaro, o pai Adalberto e a filha batizada com o nome de Isadora tiveram de se mudar de cidade para uma não muito distante, onde cresceu a menina até os dez anos completos. Menor por lá eram as oportunidades, mas o custo de vida também. Por mais dificuldades que tinham, conseguiam levar à vida, dia após dia, matando um leão por vez, pagando uma conta atrasada aqui e outra ali, persuadindo o mercador da esquina para vender, pela promessa de derradeira vez, alguns poucos pacotes de alimento.
— Ao final do mês, eu te pagarei…
— Quantas vezes já ouvi isso, Álvaro.
— Prometo, Matias!
Um mercador de bom coração, conhecendo o âmago presente no interior daquela casa de paredes rachadas e teto a apodrecer, situada do lado oposto do mesmo quarteirão, não pôde deixar de dar a mão por mais uma vez.
— Leve o que precisar, mas só por esta vez.
— Obrigado! Obrigado, Matias! Obrigado!
— Da próxima vez, se não me pagar, não lhe venderei nada.
Matias passou as compras pelo sistema e anotou a conta num caderno especial, em que só constava o nome de Álvaro, pois era o único a fazer compras fiadas ali.
— Leve esta caixa de bombons de chocolate também, sei que sua filha adora doces.
— É verdade, mas devo recusar…
— Não se preocupe, é por conta da casa.
Recolhendo a caixa de bombons e as sacolas de compra do balcão, agradeceu pela derradeira vez e saiu do comércio, a sorrir com o fim de tarde. O mercador, assistindo-o sair do estabelecimento, murmurou consigo mesmo:
— Lá se vai um homem que faz de tudo pela própria família.
E então, riscou o nome dele do caderno de contas fiadas.
Tinha Álvaro mais uma semana garantida de refeições, mas, em contrapartida, apenas sete dias para conseguir um novo emprego, pois do antigo foi demitido por roubar carnes do armazém do frigorífico, local de trabalho.
Surpreendia o fato de ele ter conseguido manter as subtrações por oito anos, quando então foi pego no flagra por uma funcionária recém-contratada.
— Não é o que pensa.
— Não penso nada, você é que se mostra ser o ladrão.
— Ladrão? Não! — pôs ele a carne de volta no mesmo freezer, xingando-se em pensamentos a falha cometida.
— Então, o que faz aqui a esta hora? Não estamos fechados?
— Eu poderia perguntar o mesmo…
— Impossível! O frigorífico é do meu tio e eu vim aqui justamente a pedido dele.
— Vai me dedurar pro chefe, é isso? — pensava ele que isto com certeza seria o seu destino: ser demitido por causa dela.
— Não… Não preciso, ele mesmo já ouviu essa nossa conversa.
O dono acabara por acompanhar a sobrinha na inspeção noturna. Não imaginou encontrar o suspeito com a mão na massa, mas fez da oportunidade o momento perfeito para demiti-lo sem pagamento algum, e se ele reclamasse os direitos trabalhistas, teria de suportar o peso do processo por roubos. Por tanto tempo fez isso que, no fim, teve medo de protestar. O emprego ali encerrou-se nisso mesmo, sem receber nem sequer o dinheiro das compras do mês seguinte.
...***...
Ao virar a esquina, Álvaro avistou em frente a porta de sua casa uma viatura policial, e à porta, a filha de dez anos, portanto o aparelho celular de tela grande, que ele havia roubado de uma senhora a exibi-lo numa rua sem movimento próximo ao centro, para que a menina pudesse estudar em casa também, tal como as outras crianças da escola faziam.
— Papai!
— Exatamente, encontramos quem viemos procurar — comentou um policial ao colega.
Os dois esperavam que não houvesse resistência, porém, Álvaro não prosseguiu e, sentindo a adrenalina disparar e espalhar-se pelo corpo, deu meia volta e correu.
Os policiais retornaram à viatura e atrás dele seguiram. Um homem fugindo a pé de um veículo cinco vezes mais rápido.
Adiante, deixou a caixa de bombons cair no chão ao passar em frente a um micro-ônibus que não o atropelou, mas amassou os deliciosos doces.
Álvaro buscou refúgio nas vielas da zona mais precária da cidade. O que antes eram dois policiais e uma viatura, chegaram em pouco tempo a se multiplicar ao triplo ou mais. Ele levou os homens da lei na direção exata do esconderijo dos ratos.
— Você é louco, cara! Trazer os gambé até a porta da nossa casa!
Álvaro, assustado, sentiu pela primeira vez o cano de uma arma sendo pressionado contra o próprio peito.
— Eles querem me prender…
— E eu vou te matar, porra!
Tremeu-se ao vociferar do chefe da facção daquela região.
— Eu tenho uma filha e um pai deficiente…
— Pare com essa choradeira, maluco! Nós também temos família, porra!
Os policiais avançaram até certo ponto de onde começaram a trocar tiros com os malandros sobre o telhado de algumas casas ao redor. Não havia precisão de nenhum dos lados. Os disparos foram dados a esmo, mas um e outro que contaram com a sorte foram feridos, incluindo um policial.
— Se algum dos meus homens morrer, você morre também, maluco, ENTENDEU!?
— S-Sim, sim, perdã…
Álvaro levou uma coronhada no rosto e, caindo no chão, cuspiu sangue e ficou tonto. O chefe foi orientar os subordinados, que seguiram todos ao confronto, com exceção de um. O objetivo era expulsar vivo ou mortos os gambé da região.
Lá fora, um dos subordinados foi atingido no rosto. Este desabou do telhado da moradia em que estava e, debruçado no chão, ficou entre a vida e a morte, agonizando um rouco pedido de socorro.
— Cara, você se fodeu, um dos nossos foi abatido.
Entre um chororô de homem medroso, repetia: — Eu tenho uma filha e uma pai deficiente…
— Pois saí logo daqui.
— C-Como? — gaguejou, afligido por pensamentos negativos.
— Pelos fundos, deve dar certo.
— O chefe vai me matar…
— Vai rápido! Pegue sua filha e seu pai e saiam da cidade.
Álvaro ergueu-se do chão e, limpando o sangue dos lábios com o dorso da mão, questionou o colega: — Por que está me ajudando?
Admitindo a verdade, respondeu, pausadamente: — Já vi muitos pais serem mortos e nem sequer sentia o que sinto hoje…
Afora os tiros se intensificaram.
— Não faz nem um mês que nasceu a minha primeira filha, entende?
Um grito de fora ecoou, dizendo: — Morto!
— Por isso te entendo — concluiu.
O agonizante lá fora não resistiu. Foi aí então que lançaram uma granada contra os gambé. Sob o som da explosão, o colega ajudante, um verdadeiro anjo da guarda, fez gesto à Álvaro, para que ele “desse no pé”, saísse, sem olhar em momento algum para trás, pois tinha pouco tempo para sair da cidade com a família, deixando de si mesmo somente os títulos de ladrão, mentiroso e devedor.
Para aquela cidade, nunca mais poderia retornar, pois, lá devia o corpo e a alma, e se, em caso de retorno, os demônios lhe encontrassem primeiro, para o inferno desceria sem prévio julgamento.
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Atualizado até capítulo 31
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