Cristina levou o menino de volta ao orfanato, ainda não era tarde da noite, mas havia prometido a madre superiora que não tardaria o momento da pizzaria.
— Gostou mesmo?
— MUITO! Obrigado, senhora Cristina!
— Imagina, querido! Voltarei aqui em breve para sairmos de novo.
— Tá bom! — respondeu o menino, que venceu a própria timidez.
Ele se sentiu tão bem próximo a ela que demorou um pouco para abrir a porta do carro estacionado em frente ao prédio do orfanato.
Cristina havia buzinado duas vezes, por isso uma das freiras abriu a porta e recolheu o menino para o aposento dele.
...***...
— Como foi o passeio? — indagou a freira.
— Foi bom — respondeu o menino, brevemente.
— Só isso?
— Teve pizza… A senhora sabe o que é isso, né?
— Hum! Ô se sei! Vamos andando pro seu quarto, enquanto você me conta tudo o que ocorreu com mais detalhes.
Assim, seguiu o menino para o dormitório ao lado da freira que o recebeu de volta ao orfanato que Cristina ajudava a manter em pleno funcionamento, para o atendimento de dezenas de crianças e adolescentes de diferentes regiões da cidade.
...***...
Cristina se preparava para partir dali, quando a madre superiora surgiu à porta do orfanato e a chamou uma, duas vezes. Cristina baixou o vidro da porta ao lado do banco do copiloto.
A madre superiora inclinou-se sobre a janela e, expressando ter algo inadiável, disse, seriamente:
— Precisamos conversar.
— Entre, por favor.
Cristina desligou o veículo e, após a madre superiora se aconchegar no banco do copiloto, fechou o vidro fumê de todas as portas.
— Aconteceu algo, madre?
— Minha filha, que escândalo é esse que estão espalhando pra tudo que é canto e, por misericórdia, carrega o seu nome!?
— Até a senhora ficou sabendo disso.
— Como não saber? Nem mesmo o povo de Deus tem língua presa. E além disso, estão ameaçando fechar o nosso orfanato…
— Como assim!? Isso não pode acontecer! O que estão dizendo sobre mim não é mais que uma história inventada e muito bem editada…
— Sendo ela verdade ou não, o nosso problema já foi condicionado. Hoje mais cedo, antes do anoitecer, recebi a visita do dono do prédio, e ele nos deixou bem claro de que se não rompemos o vínculo que temos contigo e se ainda mantermos a permissão de que venha até aqui visitar as crianças, perderemos o prédio…
Cristina ouviu tudo isso somente porque conseguiu conter a demasiada vontade de contestar, dizer a madre o que desejava dizer ao tal dono do prédio, que nunca chegou a conhecê-lo pessoalmente, mas tinha ciência de que era um homem tão importante, rico e imponente quanto o nome da própria família Andrade.
— Deixe que ele tire o prédio de vós, pois eu comprarei outro.
— É muita generosidade de vossa parte, minha filha, que Deus lhe abençoe pelo seu bom coração, mas o problema vai mais além do que isso.
Cristina abriu uma cara de paisagem, a cada solução que apresentava, a madre superiora recusava, dizendo o problema ser mais além do que se podia pensar.
— Como pôde criar um inimigo tão forte, minha filha?
— Inimigo?
— Por favor, não venha mais aqui.
A madre superiora tentou sair de imediato do carro, mas não sabia como abrir a porta. Precisou que Cristina a ensinasse.
— Isso… é só segurar e empurrar a porta que ela abre.
— Consegui!
Ela saiu do carro, deixando Cristina num vácuo de interrogações.
— Que Deus te guarde e proteja, minha filha! — foram as últimas palavras ditas pela superiora do orfanato, antes de retornar ao prédio e fechar a porta, encerrando, assim, de forma repentina e vaga, a ligação entre Cristina e o lar de crianças e adolescentes órfãos.
...***...
Cristina retornou à sua invejável casa tão grande e tão bela. Poucos tinham mansões como a dela. Outrora vivia com os pais, mas estes faleceram há cinco anos, e desde então continuou a viver na companhia somente de três seguranças e de duas empregadas domésticas.
Cristina parou o carro ao lado da guarita, situada em frente a moradia, saiu do veículo e manteve a porta aberta para o segurança levá-lo à carnagem.
Ele sentou-se no banco do veículo, e ela a pé seguiu ao próprio aposento.
— Senhora Andrade — chamou o segurança sentado ao volante do carro.
Ela parou ao segundo passo.
— Sim, o que foi?
— Está esquecendo o seu colar no carro.
Era de costume dela manter o colar suspenso no retrovisor interno do veículo somente quanto estava fora de sua casa.
Recebeu o colar e, de imediato, estranhou por ser apenas um. Passou então a mão em seu colarinho e não sentiu estar com o outro, mas, por sorte, lembrou-se que havia novamente deixado sobre a mesa da pequena sala da empresa.
Aliviou-se, pois, a súbita preocupação e, evitando outras falas, guardou consigo essa informação.
— Obrigada!
Sem nova interrupção, seguiu ao local desejado, ao quarto amplo e penumbroso, onde a pouca iluminação advinha de abajures e lustres à vela suspensos no teto forrado. Não acendeu as demais lâmpadas, pois já conhecia bem cada canto.
O quarto era tão enorme que havia divisões e, por ser de um andar superior, poderia dali observar melhor os arredores de sua casa, tal como o céu estrelado, da sacada separada por portas de vidros transparentes, onde havia uma pequena banheira ao ar livre.
Cristina não sentia vontade de um banho sob aquela lua amarelada, mas ao tomar uma dose de uma garrafa de uísque retirada de sua estante de bebidas particulares, ignorando a recomendação de sua recepcionista, acabou por ignorar também a própria vontade e, por isso, em vez de se despojar do excesso de roupas para somente se jogar sobre o leito e torcer para que o sono viesse com brevidade, ela simplesmente foi à sacada e adentrou a banheira com as roupas íntimas, deixando a garrafa de uísque e a taça de vidro na borda, onde se escorou após mergulhar todo o corpo e sentir que mesmo molhada dos pés a cabeça o seu coração permanecia abalado e os pensamentos agitados.
Lembranças constantes do dia recheado de acontecimentos lhe adivinham à mente e, para cada vez que rememorava algo, tomava uma dose a mais da bebida ao ponto de sentir as lágrimas de choro convertendo-se em lágrimas de risos.
— Eu vou dar um jeito em tudo isso…
Assim que tomou a última gota, lançou a garrafa vazia por cima do parapeito da sacada.
— Dinheiro não será problema!
Lá de baixo e de outros cômodos da casa soaram vozes espantadas. Cristina saiu da banheira e, inclinado-se sobre o peitoril, avistou um dos seguranças tentando compreender a causa do objeto estilhaçado após a queda.
— Limpe isso para mim, por favor! — pediu em tom irritado.
— Senhora, por que fez isso?
— É só uma garrafa de vidro…
— Eu não quis dizer isso.
Afastou-se do peitoril sem dizer mais nada. Consternada com os próprios pensamentos, Cristina não sabia nem o que dizer, tampouco conseguia pensar com a razão.
Bebeu, pois, o suficiente para inibir a porcentagem de lucidez que sentia ainda ter naquela noite amarga.
Adiante, agachou-se sobre a borda da banheira, pegou a taça de vidro que ali estava e, ao levantar-se, Cristina teve outro mal súbito.
Uma nova e repentina enxaqueca mais intensa que a anterior ao ponto de perder a consciência e cair de lado sobre as águas da banheira.
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Atualizado até capítulo 31
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