Chegou suado e ofegante. A recepcionista notou de cara as marcas do suor enxugado com a própria camisa. Álvaro desejava estar em condições melhores, mas à noite foi tão empolgante que acabou por se esquecer de que tinha de ter descansado mais cedo.
— Você quer ver a minha chefa!? — indagou em tom de ironia a ariana recepcionista, que mais queria ter dito: “Você!? Desse jeito aí, quer ver a minha chefa? É brincadeira, né?” Não era não, coitada de gosto refinado.
— Sim. — Ele respondeu.
— Espere um momento, vou ver se ela pode lhe atender agora.
Pouco tempo após a saída dela de seu posto de recepcionista, Álvaro notou a aproximação de duas mulheres que estavam sentadas no banco próximo ao balcão ao lado de si.
— Com licença, senhor!
Virou-se a elas e, de imediato, percebeu uma câmera lhe filmando. A outra desconhecida, portando um dispositivo celular em mãos, usava-o como microfone.
— Quem são vocês?
— Não precisa tentar esconder o rosto, nós podemos ocultá-lo na edição do vídeo. Só queremos que nos fale mais sobre a sua relação com a multimilionária Cristina Andrade.
— Não entendo o que querem dizer.
— Deixa eu lhe explicar melhor então — fez sinal para a colega com a câmera mudar de posição para o filmá-lo de frente. — Vazou uma foto sua saindo de dentro do carro dela e outra que mostrava vocês dois muito próximos um do outro. O que ocorreu no dia dessas fotos?
— Não ocorreu nada.
— O curativo em sua testa está relacionado com o mesmo dia?
— Isto? Sim, mas…
— Então, o senhor afirma que esteve no carro dela… e para onde foram?
— Por que essas perguntas?
— Só queremos ouvir as respostas, por gentileza.
— Eu não sei. Ela foi que veio até mim.
— E de onde o senhor é?
Ao mencionar o nome da região desprezada pelo poder público, o rosto da repórter aparentou sentir o gosto de ânsia, como se tivesse sentido o forte cheiro do esgoto a céu aberto que havia em algumas ruas de lá.
Nesse ínterim, a recepcionista bateu levemente e consecutivas vezes na porta da pequena sala da chefa, a mesma onde Álvaro foi atendido pela primeira vez.
Cristina Andrade tentava pôr novamente no pescoço o colar que havia deixado sobre a mesa.
— Senhora Andrade…
— O que foi dessa vez, Anne?
— Ele chegou.
— Mas agora!? Eu disse às sete e já são quase nove…
— Ele ficou lá na recepção. Quer que eu o chame?
— Não, eu mesma vou até lá — levantou-se da cadeira, deixando o colar sobre a mesa, pois teria de levá-lo ao joalheiro para consertar. — Vamos lá.
No decorrer do caminho cruzaram com outros funcionários, que, vendo a chefa, trataram de retornar de imediato ao trabalho.
Ambas passaram também ao lado do zelador mais conhecido da empresa, o seu Nivaldo, homem baixo e de andar lento, que conseguia fazer um bom trabalho, apesar das aparências.
Anne Lígia, a recepcionista, seguia Cristina Andrade, que, andando apressada, fez chegar rapidamente a recepção, onde Álvaro Reis já era indagado pela trigésima pergunta. Quantas mais tinha aquela repórter?
A recepcionista fez as perguntas cessarem e, quando as duas repórteres quiseram filmar e questionar a própria senhora Andrade, os seguranças foram acionados, retirando de vez as mulheres que fingiram ser clientes para conseguirem o que desejavam: uma excelente matéria, que mais tarde iria viralizar nas mídias televisivas e nas redes sociais.
— Peço desculpas pelo horário avançado…
— Anne, leve-o para a minha sala dos fundos — referiu-se à mesma sala em que estava.
— A senhora está bem?
— Sim, eu só vou resolver primeiro uma questão pendente no setor de recursos humanos e já vou para lá.
Cristina prosseguiu para onde disse ir, carregando consigo na mente a única indagação que a repórter conseguiu lhe fazer.
...***...
— É esse o tipo de caridade que a senhora faz naquela região: transportar um estranho?
— Ele não é um estranho — respondeu no impulso.
— Afastem-se dela — disse um dos seguranças que removeram as repórteres do local.
...***...
Álvaro nada mais disse, porque Cristina nem sequer deu ouvidos aos seus pedidos de desculpa. Por isso, calou-se e, assim, manteve-se, em silêncio.
— Siga-me, por favor.
Não obstante, Álvaro seguiu a recepcionista até a sala mencionada.
Ela abriu a porta e, pedindo que ele aguardasse sentado, acrescentou, baixinho:
— Não sei o que a minha chefa está pensando em fazer, mas só de tê-lo aqui já não é coisa boa. Se você tiver o mínimo de noção, deve recusar qualquer que seja a oferta dela.
— Por que está me dizendo isso?
— Não é nada, é só um aviso — lançou, porém, um sério olhar. — Espere ela aqui. Eu tenho de voltar ao meu posto de trabalho.
Anne saiu da sala, deixando Álvaro conturbado com as palavras que dissera. Ele sentia como se elas fossem uma ameaça e, ao mesmo tempo, um alerta. Em quem deveria confiar? Apenas em si mesmo?
Após fechada a porta e, sozinho ali, sentado diante da mesa de Cristina, Álvaro roçou a mão sobre o bolso das calças, sentindo o bloquinho de dinheiro recebido pela repórter em troca de uma pergunta um tanto estranha, pois, na verdade, não houve pergunta, ela apenas desejava que ele dissesse “sim, não vou mentir”, após dez segundos olhando fixamente nos olhos dela.
Nos cinco primeiros segundos, ele a considerou doida, mas nos segundos seguintes, a repórter já parecia um tanto quanto atraente, causando-lhe uma mudança involuntária na própria expressão, que lhe fez naquele instante esboçar uma feição similar a de quem pensa bobagens.
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Atualizado até capítulo 31
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