Capítulo 15

Em retribuição a toda companhia da recepcionista durante o dia, Cristina a deixou em casa ao anoitecer, pois Anne estava com o carro no mecânico.

Além disso, Cristina lhe ofereceu uma bonificação, após estacionar o veículo em frente a casa da funcionária.

— Sabe que eu não faço nada disso por dinheiro — disse Anne —, mas não me custa aceitá-lo também.

— Obrigada, Anne.

— Não há de quê, eu só desempenhei o meu trabalho.

— Você fez mais do que isso. Mais uma vez, você se mostrou ser uma ótima companheira, uma amiga...

— Amiga? Imagina… Nós duas sermos amigas?

— Há algum problema nisso?

— O que as pessoas vão falar da senhora se descobrirem que somos amigas?

— Deixem que falem o que bem-quiserem. Não já estão falando? Nossa amizade no mínimo seria verdade, ao contrário do que disse aquele homem.

— Não quero dar opinião no que não me diz respeito, mas aquele tal de Álvaro Reis, desde quando o vi entrar na empresa, não me cheirava bem.

— Pior que eu queria ajudá-lo de verdade, para ele poder dar uma vida melhor à filha — pensou na menina que conhecera —, mas ele pôs tudo a perder pela mentira.

— A senhora fez o que achava ser certo. A culpa dos mal-falados é dele. O mínimo que ele merece agora é ser processado e preso.

Cristina teve outra súbita dor de cabeça. Essa, porém, mais breve que as outras, pois passou em segundos.

— Tem certeza que consegue dirigir até a sua casa?

— Sim, já passou. Acho que foi só o estresse de ter pensado em tudo isso agora.

Assegurando a capacidade de prosseguir sozinha, Anne abriu a porta do veículo, e Cristina agradeceu novamente.

— Até amanhã — respondeu a recepcionista. — Tchau! — acenou.

Em seguida, Anne baixou o braço e, murmurando consigo mesma: “Ingênua, está caindo direitinho na rede”, assistiu ao veículo se distanciando até o segundo quarteirão.

Logo, deixou a calçada rumo ao portão trancado à chave, pois mesmo vivendo numa região mais segura do que a de Álvaro, a segurança nem sempre era garantida por ali.

Destrancou o portão e caminhou até a porta da casa de tamanho padrão, como as demais ao redor. Ainda não era a moradia que tanto almejava ter, mas era a que tinha, onde também habitava a desempregada e viúva mãe.

...***...

— Não vai nem dizer "boa noite"?

Questionou a mãe carrancuda de Anne, vestida numa camisola de dormir, sentada numa cadeira da sala, a fingir bordar um tecido, pois há horas fazia e desfazia a pequena costura.

— Acabei de chegar do trabalho, estou cansada demais para lhe dar atenção.

Anne desejava seguir para o quarto, mas sua mãe insistia em não querer vê-la dando lhe as costas.

— Nada disso! Sente-se aqui e me conte se já conseguiu o meu milhão.

Hesitante, Anne cerrou os dentes de raiva. Não gostava muito de ter a mãe como companhia, pois nunca podia ter razão diante dela. Enfim, mesmo contra a própria vontade, sentou-se na cadeira diante dela.

— Vai, desembucha, pois não me formei em ”vidência”.

— A senhora é desagradável, sabia?

— Até que consiga o que quero, não me importa se gosta ou não de mim.

Anne retirou os abafados calçados e, pondo as pernas sobre a cadeira, sentou-se de lado.

— Não vejo a hora de poder me livrar de uma vez da senhora — murmurou em tom audível.

— Então, é isso que deseja para a mulher que, além de te dar a vida, passou anos na prisão por um crime seu.

— A senhora sabe que eu não pedi nada disso…

— Ingrata.

— Eu!?

— Quem mais? Filha ingrata! Ingrata!

— Eu não preciso ficar ouvindo isso da senhora. — Anne levantou-se da cadeira, apanhou os calçados e seguiu rumo ao quarto. — Boa noite, velha!

— Volte aqui, Anne Lígia! — gritou, irritada. — Não dê as costas pra sua mãe!

Anne entrou no quarto e bateu a porta com força, trancou-a à chave, o som ecoou de lá até os ouvidos da mãe, que, de tão indignada, acabou por furar o dedo com a agulha.

— Aí, diabo!

A cortina da janela aberta balançou. A repentina brisa percorreu a sala e, fazendo a falsa costureira pôr a costura de lado, seguiu até o quarto de Anne, que havia acabado de tirar a blusa de trabalho e a calça de cintura justa.

Em seguida, Anne despojou-se também das peças íntimas e, após enrolar o corpo numa toalha, retirou de um pequeno bolso interno da blusa o colar que pegou da mesa da chefa, sem ela notar, já que na hora Cristina não tinha foco devido a repentina enxaqueca.

— Isto deve valer milhares — murmurou consigo mesma, segurando o objeto sobre o pescoço, como se estivesse a colocá-lo diante do enorme espelho pendurado na parede. — Amanhã mesmo irei vendê-lo.

— Anne? — A mãe bateu a porta.

— O que é dessa vez?

— Eu preciso do meu milhão pra ontem.

— A senhora acha que é fácil subtrair uma quantia dessa da fortuna de uma pessoa.

— Ela é multimilionária. Tenho certeza que um milhãozinho a menos não vai fazer falta.

— Além de desagradável, é ignorante. A senhora sabe muito bem que isso demanda tempo.

— Já faz dois anos que ouço sempre a mesma justificativa. Pensa que eu não sei que você anda passando a mão em objetos de valor do seu trabalho.

— Quem mandou a senhora bisbilhotar as minhas coisas?

— Se a sua chefa soubesse que sob esses seus cabelinhos loiros reside uma mente desonesta.

— Não faço mais do que o que a senhora me ensinou.

— É verdade… Cof! Cor! — tossiu e, por conseguinte, escarrou a secreção da garganta e a cuspiu no chão diante da porta. — No entanto, eu não me lembro de ter te ensinado a mentir para a própria mãe.

Anne abriu a porta e, retrucando a mãe, acabou por pisar no cuspe dela.

— Eca, dona Ana!

A idosa abriu um sorriso largo, de canto a canto, deixando saliente a dentição a faltar um ou dois dentes.

— Só seja rápida em conseguir o dinheiro, pois eu não tenho mais muito tempo de vida — acrescentou, retirando uma carteira de cigarros e um isqueiro do bolso da camisola.

Anne, porém, tomou dela os cigarros de ópio.

— Terá mais tempo se não usar mais isso.

— Duvido… Cor! Cof! — tossiu a idosa novamente.

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