Começo a mexer no celular, pesquisando uma forma de chegar ao apartamento sem ser através de um táxi. O céu está escuro demais e já sinto algumas gotas caírem na tela.
Em questão de segundos, começa a cair o verdadeiro dilúvio em cima de mim. Tento usar minha bolsa para me proteger, mas é em vão.
— Entra! — Ouço a voz autoritária de Gustavo me chamar. Arregalo os olhos ao vê-lo parado à minha frente, dentro do carro. — Vem, eu te levo em casa, srta. Fernandes.
— Não precisa, Sr. Bianchini. Meu táxi já está vindo.
Ele sai do carro, para na minha frente com um péssimo humor.
— Você quer ficar resfriada, Alice? Acredito que não, não é? Então entra na porra do carro!
Não precisa muito para a sua voz autoritária me fazer tremer. Gustavo provoca o temor de qualquer pessoa ao alterar um pouco sua voz.
Reviro os olhos e faço o que ele manda. Ele não me olha até chegarmos ao apartamento, mas as mãos apertadas no volante já mostram como ele está. Não demora e ele estaciona o carro, subindo comigo até a porta do apartamento.
— Obrigada pela carona, Sr. Bianchini. — digo, sem graça. — Agora preciso entrar.
— Você pode me dar um copo de água?
— Claro, minha avó sempre me ensinou que não se nega água para ninguém.
Abro a porta do apartamento para ir buscar a água na cozinha. "Que cara bipolar," penso.
Quando volto, ele já está sentado na poltrona com as pernas cruzadas. Se estivesse segurando um charuto , certamente iria parecer uma cena de filme mafioso.
Entrego o copo com água para ele e ele bebe como se estivesse saboreando, me fazendo suspirar de insatisfação.
— Estou incomodando, srta. Fernandes? — ele pergunta, num tom sarcástico.
— Não, é só que... Eu preciso tomar banho, minha roupa está molhada.
— Pode ir, não tenho pressa.
Ele continua bebendo água e eu olho sem entender. Não era isso que eu queria, só queria que ele fosse embora e me deixasse em paz com meus pensamentos. Reviro os olhos discretamente e vou para o meu quarto.
A busca por uma roupa se torna urgente, pois a chuva ainda encharca minha pele. Luto para manter a calma, mesmo ciente de sua presença tão próxima na sala. Cada fibra do meu corpo está tensa.
Apanho minha roupa e vou ao banheiro. Me livro das vestes encharcadas e deixo a água levar o cansaço do dia. Sinto o líquido quente e reconfortante escorrer pelo meu corpo, lavando os vestígios da tempestade.
Ao deixar o box, me enrolo na toalha e enrolou outra nos cabelos molhados, sem poder me dar ao luxo de seca-los como deveria ser.
Quando saio do quarto, noto que ele ainda está sentado, mas agora sua postura parece mais descontraída.
— Vou preparar um café. O senhor aceita? — ofereço, tentando manter a voz firme.
— Se não for muito incômodo, aceito. — sua voz sai rouca, e ele me segue até a cozinha.
Rapidamente, coloco a água na chaleira e a levo ao fogão. Na tentativa de me acalmar um pouco, decido beber um pouco de água.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, enquanto meus olhos dançavam aleatoriamente pelo ambiente. A tensão entre nós se estende até que a chaleira irrompe com um agudo assovio. Uma bênção oportuna.
Faço o café e entrego-lhe a xícara. E então me apoio na pia, determinada a romper o silêncio.
— Então, Sr. Bianchini. Paris também serviu como refúgio para superar desilusões?
— Digamos que sim, mas também é um lugar cheio de boas recordações. Estou num meio-termo quanto a isso.
— Parece que funcionou para o senhor. Espero que funcione para mim também.
— Torço para que sim. Não é justo uma mulher como você ficar solteira e desiludida para sempre.
— Espero que eu consiga encontrar alguém bacana um dia, assim como o senhor parece ter encontrado... — Gustavo me encara com confusão e eu completo — A moça que estava com o senhor na sala.
— Bem, Srta. Fernandes, você tem uma língua afiada, mas se estiver interessada em saber, a moça que viu na minha sala é apenas uma... Amiga.
— Peço desculpas se parece atrevimento, mas lamento que seja apenas uma amiga. Vejo o senhor como um homem que se resguarda em um mundo cinza, e acredito que não seja saudável ficarmos sós para sempre.
— Já me decepcionei uma vez e prometi não cometer o mesmo erro novamente. Acabei convivendo com uma mulher que inicialmente me provocou antipatia, mas não demorou para eu me apaixonar por ela. Quem acabou perdendo nessa história fui eu. Portanto, prefiro manter a distância e permanecer nesse meu mundo cinza, como a senhorita disse. É mais seguro assim.
— Entendo suas razões. Eu também não desejo passar pela mesma dor que já vivi, mas tampouco almejo solidão eterna. — Dou o último gole no café e o encaro. — Acredito que o caminho se torna mais leve quando temos alguém ao nosso lado.
— Cada um tem sua própria maneira de enxergar a vida.
Ele se ergue, deixando a xícara na pia, e nossos corpos se encontram em um breve esbarrão. Nossos olhares se prendem, e sinto meu coração acelerar com a proximidade.
Ficamos assim, imersos nesse instante, até que, por um impulso irresistível, me inclino e o beijo. A surpresa me domina quando ele corresponde, envolvendo-me pela cintura e trazendo-me para mais perto.
Nossos lábios se encontram em um beijo ardente, e só nos separamos para recuperar o fôlego.
— Me desculpe, Srta. Fernandes. — ele diz, num tom sem graça. Ele suspira e me lança um olhar apreensivo. — Isso foi um erro.
Ele me solta e se afasta em direção à sala. Balanço a cabeça, negando para mim mesma, enquanto o sigo. "Burra! Sempre burra, Alice!"
— Peço desculpas, Sr. Bianchini. Sinceramente, não sei o que aconteceu comigo.
— Não precisa se desculpar, Alice, mas você tem suas perspectivas e eu tenho as minhas. Não seria justo beijá-la se não posso oferecer o que você merece, muito menos levá-la como um passatempo. Até amanhã!
Ele abre a porta e parte, enquanto eu permaneço no sofá, tentando processar o que acabei de fazer. Espero que meus impulsos não me custem o emprego.
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Atualizado até capítulo 63
Comments
Amélia Rabelo
não pode ser fácil não mulher deixa ele correr atrás
2024-10-09
8
Nil.HerFerrari
kkkkkk... não tão certinha
2024-07-11
2
Kariny Kelly
isso pq era certinha
2023-10-07
4