Ele me encara e sinto meu rosto queimar de vergonha. Naquele momento, desejava que se abrisse um buraco para que eu pudesse me enterrar.
— Eu e minha boca grande! — Passo a mão no rosto, completamente envergonhada. — Pensei alto, Sr. Bianchini. Desculpe pela pergunta indelicada.
— Podemos ir? Preciso almoçar ainda. — Ele ignora meu pedido de desculpas.
— Claro!
Gustavo me ajuda a ficar em pé e me apoia novamente, passando meu braço em volta de seu pescoço e segurando minha cintura.
Entramos no elevador e ele aperta o botão do estacionamento ao invés do térreo. Não questiono, presumo que ele já tenha chamado um táxi para mim.
Depois de alguns segundos, ele me leva até o carro, me coloca sentada no banco do carona e assume o banco do motorista.
— Onde você está morando aqui?
— No apartamento da Sra. Rangel. Tenho o endereço anotado aqui, vou procurar. — Minha barriga ronca, e me dou conta de que ainda não almocei.
— Não precisa, sei exatamente onde fica. Já almoçou?
— Estava indo almoçar.
— Quer almoçar comigo?
Olho para ele surpresa pelo convite.
— Aí já é demais, não acha? Sr. Bianchini, já atrapalhei sua reunião, já estou te fazendo sair da empresa para me levar para casa. Acho que já tá de bom tamanho.
— Srta. Fernandes, a senhorita já atrapalhou toda a minha rotina de hoje, te levar para almoçar seria o de menos.
— Nesse caso, aceito! Estou faminta!
Pela primeira vez, vejo-o rindo de forma espontânea e não consigo evitar sorrir em resposta. Seus olhos ganham um brilho que antes parecia adormecido. Sorrio, satisfeita.
Ele dá partida no carro e deixamos a empresa para trás.
No trajeto, observo-o de relance e percebo que ele está segurando o volante de forma um pouco mais firme. Imagino que a minha presença esteja o deixando tenso. Decido não dizer nada; sei que tenho minha parcela de culpa por isso.
Após alguns minutos, chegamos a um restaurante de fachada em pedra, algumas mesas ao ar livre e uma atmosfera tranquila. Gustavo estaciona o carro e gentilmente abre a porta para mim, ajudando-me a sair em seguida.
Ao entrarmos, a recepcionista o saúda com entusiasmo, mas seu sorriso desaparece quando nossos olhares se cruzam.
Ela nos conduz até uma mesa, entregando-nos os cardápios logo em seguida. Gustavo os folheia e, não suportando mais o silêncio, tento iniciar uma conversa.
— Já está aqui há muito tempo?
— Há alguns anos. Já morei aqui antes, retornei ao Brasil atrás de alguém, mas não deu certo.
— Sinto muito por não ter dado certo.
— Já me acostumei. Há muito tempo aprendi a viver sozinho, então sobrevivi.
— Entendo.
Paro de falar, evitando parecer intrometida. Após alguns minutos, ele retoma a conversa.
— E você? Qual desilusão te trouxe para Paris?
— Como sabe que foi uma desilusão? — Sorrio sem graça. — Poderia ter vindo tentar a vida.
— Srta. Fernandes, se Mariana me indicou você e a aconselhou a vir para cá, alguma coisa aconteceu. Foi assim com ela. — Dessa vez, ele abre um sorriso tímido e desvia o olhar. — Sem contar que ela não abriria mão de uma funcionária exemplar, como ela se referiu a você.
— Encontrei meu ex na cama com minha melhor amiga... — Respondo num tom baixo.
— Que azar, hein.
— Não acho.
— Me refiro a ele. Ele perdeu uma mulher muito simpática e bonita. — Ele fala e sorri, deixando-me completamente sem graça.
— Obrigada pelo elogio, eu acho.
— Foi um elogio sim. Queria me desculpar mais uma vez pela arrogância.
— Tudo bem, eu também fui atrevida.
— Não imagina o quanto, Srta. Fernandes. Podemos fazer o pedido?
Ele parece encerrar o assunto ao perceber que já falou demais. Fico admirada ao vê-lo conversando civilizadamente.
O garçom se aproxima e anota nossos pedidos. Gustavo ocasionalmente me lança olhares, tentando disfarçar. Eu sorrio a cada vez, achando engraçado o contraste entre como estávamos há poucas horas e como estamos agora.
— Quer compartilhar o que está pensando? — Ele pergunta, com os olhos curiosos sobre os meus.
— Estava rindo porque há algumas horas parecíamos cão e gato, e agora estamos almoçando juntos.
— Verdade, não tinha pensado nisso. A vida é engraçada. — Ele diz, enquanto um sorriso sincero surge em em seus lábios.
— Muito. Pelo menos até agora, não virei uma estátua de gelo.
— Não entendi.
— É brincadeira. — Dou um leve toque no meu próprio braço, simbolizando a rigidez. — Me refiro à sua frieza.
— Um dia te conto meus motivos. — Sua voz adquire uma nota de mistério, e ele inclina a cabeça ligeiramente.
— Vou cobrar isso, Sr. Bianchini! — Deixo escapar um riso, acompanhado de um olhar travesso.
O garçom serve nossos almoços e acabamos ficando em silêncio. Finalmente, percebo que há uma pessoa legal por trás daquela fachada de gelo.
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Atualizado até capítulo 63
Comments
Rosangela Amorim
, Estou gostando muito da estória
2025-03-20
3
Sandra Regina
até agora ótima leitura vamos ver mais
2023-11-08
8
Rose Carvalho
Estou amando
2023-09-01
1