Agarro meus livros firmemente e vou para um canto, chorar por aquela rejeição. Mais uma afinal. Falo sozinha, em alto e bom som:
— Não adianta, em todo lugar que você vá, acontecerá isso, sua idiota, burra. Você não muda nunca. Imbecil. Estúpida. Quando você aprenderá? Por que você insiste em sair de casa?
Vitor chega e me ver chorando. Por uma fração de segundos noto um ar de preocupação. Mas com certeza são meus olhos inundados me enganando. Seco rapidamente e invento uma desculpa.
— Ei, ei, por que você está chorando?
— Finalizei um livro. Foi tão emocionante que comecei a chorar, só isso.
***
Chego ouvindo a imbecil da Carolina, expulsar Camila de onde estão. Sigo-a e ela vai para um canto se esconder e chorar. Sinto uma vontade incontrolável de ir ajudá-la, mas ela começa a falar sozinha, se critica, sobre coisas que não entendo. Resolvo esperar para aparecer. Até que ela diminui seu choro, fica calada e eu surgindo em sua frente, pergunto por que ela está daquele jeito. Ela seca suas lágrimas e me dá vontade de fazer isso por ela. Mas não me aproximo. Não sei qual será sua reação. Quando ela dá uma desculpa mentirosa sobre estar emocionada devido a um livro, a abraço forte, tentando passar um mínimo de proteção para acalmar ela e ela chora desesperadamente em meu ombro. Deixo-a desabafar, quem sabe assim ela consiga falar a respeito. Fico sem ação. Sem palavras. Depois de alguns minutos dessa forma, faço-lhe uma pergunta:
— Esse livro era tão triste assim, menina?
— Sim. Bastante. Muito triste.
— Você quer falar sobre a história dele?
Ela me olha espantada, saindo de meu abraço, seca suas lágrimas e fala rispidamente:
— Não! É apenas um livro! Não tem importância para ninguém. Com licença! Tenho que ir embora.
— Não vai assistir à aula?
— Não. Estou com muita dor de cabeça. Tchau!
— Você sabe que não é assim que se bate de frente com um problema, não sabe?
— Não sei o que você está falando. — Ela diz arrumando suas coisas.
— Você sabe sim.
Ela me fuzila olhos e diz novamente a mesma frase:
— Tenho que ir embora. Tchau!
— Tchau, menina.
Fico olhando ela ir e sinceramente não expresso nenhuma ação. Eu, que sei sempre o que fazer, nesse momento sinto-me limitado e reflito sobre o estado dela.
***
Algum tempo depois na sala, um inspetor da universidade chega e comunica a todos:
— Boa noite, pessoal! Venho informar que infelizmente a professora de hoje sentiu-se mal e não vai poder vir dar a aula.
Ouço todos da turma lamentar, mas tenho certeza que é apenas encenação.
— Ahhhhhh…
Comento em alto e bom som arrumando meus pertences para ir embora.
— Fazer o quê? Vamos embora, então!
Levanto-me sem olhar para trás, até que ouço meu nome. É ele novamente que me chama e me viro para dar atenção.
— Melissa.
— Oi, Ricardo.
— Podemos continuar nossa conversa de mais cedo?
Sorrio tentando esconder minha frustração. Por que eu sempre tenho que abrir minha boca nos momentos mais indevidos?
— Você não esqueceu, não é?
— Não. Não costumo me esquecer de assuntos importantes.
— Já comecei. Tenho que terminar.
— Muito bem, mocinha!
Rio e o encaro sorrindo para mim também. Aquele sorriso que me encantou assim que o vi. Fico me lembrando dos seus beijos e ele me tira de meus devaneios, mas também não deixo por menos.
— Posso te levar em casa?
— Pode. Mas mereço um beijo antes? — Ouso perguntar e recebo uma grata resposta.
— Inúmeros.
Ricardo me levanta em um abraço no meio de várias pessoas, inclusive de toda a turma e me beija apaixonadamente. Fico rindo e bato nele de brincadeira porque não esperava por aquela reação.
— Coloque-me no chão! Está todo mundo olhando.
— Tudo um bando de invejosas.
— Seu bobo.
Ele me coloca no chão e faz um carinho em meus cabelos, olhando-me ternamente.
— Não era a minha intenção! Não logo de cara, nessa primeira semana, mas estou me apaixonando por você Melissa.
— Hum! Isso é ótimo! Mas brincadeiras a parte, estou gostando de você também.
— Você quer namorar comigo?
— Assim, de supetão?
— Sim. Assim, porque quando a gente se apaixona tem que ser assim.
Brinco com ele dando-lhe soquinhos em seu peito largo e forte por não acreditar naquele pedido.
— Então quer dizer que você já se apaixonou inúmeras vezes?
— Algumas.
— Ai, seu cretino!
Até que ele me olha, pega em meu rosto com toda gentileza que nunca recebi antes, fazendo-me olhar diretamente em seus olhos e sinto sinceridade quando ele fala:
— Mas nenhuma foi como está sendo com você.
Olho para ele diferente. Sinto um sentimento crescendo, não sei explicar, mas é algo muito especial e ele sorrindo me beija.
— Ninguém nunca falou isso para mim, agora me apaixonei também Ricardo.
***
Ricardo me leva em seu carro para minha casa e começamos a conversar.
— Então, Melissa. Sobre seu pai ser um ex-policial, você pode explicar mais detalhadamente?
Pronto! Começou a parte ruim da história, agora que comecei, tenho que continuar a falar a verdade.
— É uma história tão complicada e tão difícil para mim e para ele. Para relatar isso será difícil, Ricardo.
— Não temos mais a aula de hoje, ao invés de te levar em casa, você quer ir pro meu apartamento para gente conversar, melhor?
Engulo em seco com aquela proposta. Querer até poderia querer, mas não posso. Fico receosa e ele percebe.
— Calma, só foi uma pergunta.
— Eu não sei, meu pai vai ficar preocupado. — Digo estando nervosa. — Na verdade, não posso! Não gosto de deixar ele preocupado, a saúde dele e tudo mais.
***
Ricardo passando a mão em meu cabelo rapidamente enquanto dirige.
— Você não sai Melissa?
— Saio, mas gosto de avisar. Quando aviso, ele fica de boa.
— Tudo bem. Eu te levo para sua casa mesmo então.
— Ok. Vou te guiando. Obrigada!
Seguimos e sorrio para ele. Por concordar comigo, por me respeitar. Mesmo que tenha sido algo pequeno como eu não querer ir para sua casa. Mas senti o respeito dele ao me olhar e gostei. Quando chegamos, fico tímida de início, mas resolvo perguntar:
— Você quer entrar?
— Para conhecer meu sogro? Só se for para pedir sua mão em casamento. Posso? — Pergunta ele brincando e eu rindo respondo:
— Pode. Mas tem que entrar primeiro.
Ouvimos um tiro. Fico assustada e olhando para minha casa.
— Um tiro. Vem da minha casa Ricardo. — Outro tiro é disparado. — Outro Ricardo, meu Deus! Meu pai está lá.
Ricardo, querendo me proteger, age com calma, o que acho estranho.
— Abaixe e fique aí quietinha, ouviu?
— Sim.
Ricardo pega uma arma embaixo de seu banco tentando esconder de mim, mas sempre fui esperta e vejo, porém, nada falo. Fico pensativa sobre aquela situação. Entretanto, nesse momento minha única preocupação é meu pai. Juntos, observamos três bandidos saindo de minha casa e fugindo. Levanto, fico assustada e peço ajuda a ele. Se ele tem uma arma, tem algum motivo específico.
— Ricardo, meu pai.
— Fique aí, Melissa, deixe que eu vá até lá.
Consinto naquele instante, mas fico com medo. Não que eu tenha medo de armas, não tenho. Mas quando se trata de alguém que amamos estar em perigo, sim, ele surge. Observo cada ação de Ricardo. Nesse momento ele está com a mão próxima a sua arma que está em sua cintura. Ele abre silenciosamente o portão da minha casa. Gostaria de saber o porquê de ele estar armado. O que está acontecendo?
***
Entro na casa de Melissa, vejo dois bandidos mortos e um homem em sua cadeira de rodas que deduzo ser o pai dela, com uma arma em punho. Imediatamente pergunto a ele:
— O senhor está bem?
— Sim, se estivesse andando, teria acabado com todos.
Ao ver a situação estabelecida, não chego a mexer em minha arma. Ouço quando Melissa chega correndo chamando por seu pai.
— Pai!
— Minha filha!
— O senhor está bem?
— Sim, minha princesa, fique calma.
***
Ricardo olha incrédulo para mim me repreendendo, mas sua fala é calma.
— Melissa, eu não disse para você ficar lá fora?
— Eu não podia Ricardo. É meu pai! Desculpe-me.
— Vou acionar a polícia.
Ouço quando meu pai fala calmamente a ele também. Uma calma que não parece de quem que acaba de matar dois homens.
— Já fiz isso rapaz. Já devem estar chegando. Mas quem é você?
Fico com meus olhos arregalados. Esqueci-me desse detalhe. Tomo a frente de Ricardo, mesmo que seja em vão, porque ele é bem mais alto do que eu. Provavelmente mede 1,90 m ou bem próximo. Olho para meu pai que ainda está com sua arma em punho e o defendo a minha maneira.
— É meu amigo da faculdade pai. Eu não gosto de ver essas coisas. Vou entrar. — Falo desconversando. Ouço a polícia chegando e meu pai dizer:
— Fique em casa, então!
Peço a Ricardo para entrar comigo, pois ainda me encontro trêmula. Ele, observando meu estado, concorda, mas antes estende a mão para meu pai.
— Você vem comigo Ricardo?
— Claro. — Direcionando-se para ele. — Sei que não é a hora, mas muito prazer, senhor… O senhor precisa de alguma ajuda?
— Está tudo bem. Eu só não ando rapaz. Mas pelo, o que você ver aí. Ainda sei me defender. — Diz ele dirigindo-se aos dois corpos ensanguentados.
— Ok, eu vou entrar então. Se eu puder ajudar.
— Obrigado, mas ajudará bastante ficando com minha filha.
— Ok. Farei isso.
***
O amigo de Melissa entra com ela e em seguida a polícia chega e começa a conversar comigo. Algum tempo após eu ter relatado tudo, finalizo dizendo:
— E foi isso! Aqui estão todas as imagens das câmeras.
Um policial, aproximando-se de mim, diz:
— Sim, senhor! Mas preciso que o senhor me acompanhe.
Na mesma hora, Carlos, meu ex-colega de trabalho, chega me reconhecendo.
— Elias?
— Carlos?
— Você está bem?
— Como pode ver, acabei com a vida de dois. Seu policial quer que eu vá com vocês. Já cedi todas as imagens, foi um ato de legítima defesa, invadiram minha casa, está provado!
Carlos dirigindo-se para o policial.
— Não! Recolha tudo o que for preciso aqui mesmo. Cuide para que esses infelizes sejam levados imediatamente.
— Sim, senhor.
Vendo sua prontidão em me ajudar, sinto-me na obrigação de agradecer.
— Obrigado.
— Que isso! Posso fazer mais alguma coisa para te ajudar?
— Já ajudou bastante.
— Ok.
***
Em meu quarto, assim que chegamos, deitei em minha cama e fiquei encolhida pela cena que vi. De repente sinto os braços de Ricardo em envolvendo em forma de proteção e realmente naquele momento o que mais me sinto é protegida.
— Fique tranquila! Já passou. Estou aqui.
— Ricardo, meu pai podia ter morrido dessa vez.
— Ele teve um acidente?
— Não. Um parceiro dele, na época da polícia, atirou e ele ficou paralítico. Tenho ódio desse homem.
***
Meu Deus! O que Melissa está falando? A mesma história que meu pai contou. Basta ligar os fatos. Preciso saber de mais detalhes.
— E isso aconteceu há quanto tempo?
— Há quinze anos. — Ela responde chorando nesse momento. — Eu tinha cinco anos e não só meu pai ficou assim, como minha mãe nos abandonou.
Agora tenho certeza de que se trata da mesma história. Era só o que me faltava! Logo eu, me apaixonar pela filha do cara que meu pai deixou paralítico.
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Atualizado até capítulo 43
Comments
Shirlei Costa
eu amei esse personagem 😍❤️
2023-09-08
4
Imaculada Abreu
As voltas que vida dá. O casal é lindo.
2023-07-10
0
Mágda Virgínia Rocha
Espero que eles consigam resolver esses problemas e ficarem juntos.
2023-07-03
0