Eu estava chegando em casa. Morava sozinho, como sempre preferi. Não gostava de gente demais no meu espaço, até meus seguranças sempre ficavam do lado de fora. Aquele dia foi longo pra caralho. Cheguei por volta das duas da tarde, depois de resolver uns negócios no clube de luxo, nosso ponto principal pra lavar dinheiro. A família Martinéz tinha vários estabelecimentos, mas aquele era o meu campo, o meu território.
Assim que entrei, fui direto pro banheiro. A tarde estava quente, e eu precisava me livrar daquele peso do dia. A água escorria pelo meu corpo enquanto eu pensava em tudo que tinha feito. Contas fechando, acordos assinados, e alguns problemas resolvidos da maneira tradicional.
Depois do banho, fui pra cozinha. Queria uma bebida, algo pra aliviar o calor. Mas assim que entrei, notei algo estranho. Algo fora do lugar.
Meus olhos percorreram o ambiente e o desgosto veio na hora. Alguém tinha mexido nas minhas coisas. Utensílios, temperos… tudo deslocado, fora da ordem. Cada detalhe diferente do que eu tinha deixado. Merda. Isso me irritava mais do que qualquer outra coisa. Eu gostava das minhas coisas exatamente como eu deixava, na posição certa. Precisas, organizadas.
Suspirei fundo e ajeitei tudo de volta no lugar. O estresse do dia já estava alto, e essa merda só piorava. Só podia ter sido a nova chefe de cozinha.
Fui até a geladeira pegar uma bebida quando notei um pequeno bilhete colado. Peguei o papel e li rapidamente.
Entortei a boca. Foi de propósito? Ou Concepción esqueceu de dizer pra essa mulher que eu não gosto de recadinhos espalhados pela minha casa?
Sem perder tempo, peguei o celular e disquei.
— Demita a nova chefe. — Minha voz saiu fria, cortante.
Do outro lado, Concepción hesitou.
— Señor Martinéz… — Ela tentou argumentar, mas não deixei.
Desliguei na cara dela. Ela entendeu o recado.
Joguei o papel no lixo, já esquecendo aquela merda, mas no instante seguinte meu celular escorregou da minha mão e caiu direto no cesto.
— Joder (porra)… — Praguejei, sem paciência.
Revirei o lixo e peguei o celular, mas não foi só isso que encontrei. Um papel. Um bilhete diferente.
A curiosidade me fez desdobrá-lo, e assim que li, senti um calor subir pelo meu corpo.
A audácia dessa cozinheira...
"Senhor Rabugento, antes de comer, coloque uma pitada de páprica defumada no molho. Vai te fazer sorrir. Se você for capaz disso, claro."
Insolente, atrevida, ousada. Me insultando sem a menor cerimônia. Como se eu fosse um idiota qualquer.
Quase ri da petulância, mas a vontade de fazer essa mulher engolir as palavras foi mais forte. Quem ela pensa que é pra falar assim de mim? Eu poderia mandar arrancar os dedos dela pra aprender a não escrever merda, mas naquele momento…
Eu estava com fome.
Salva pela fome.
Peguei os pratos que ela havia deixado prontos, esquentei e me sentei à mesa com minha bebida.
Na primeira garfada, parei. O sabor tomou minha boca de um jeito inesperado.
Era bom.
Muito bom.
Que merda.
O que essa mulher tinha de atrevimento, ela tinha de talento.
Continuei comendo, cada garfada me convencendo mais. Então, peguei a páprica e coloquei no molho. No instante em que o tempero se misturou à comida, fui jogado para outro momento.
Aquele sabor…
Lembrava minha mãe.
O gosto exato da comida dela. Algo que eu não sentia há anos.
Parei por um momento, ainda sentindo aquele gosto na boca.
Soltei um suspiro, repensando a decisão. Peguei o celular de novo e liguei para Concepción.
— Esqueça. Não precisa demitir. — Minha voz saiu mais baixa, mas ainda firme. — Mas avise a ela que essa cozinha tem regras. Nada de bilhetes inconvenientes e nada de bagunça.
Houve um silêncio do outro lado da linha, mas antes que ela falasse, continuei:
— E diga pra ter mais cuidado com o que anda escrevendo a meu respeito. Da próxima vez, ela não terá mais dedos para escrever.
Desliguei antes de ouvir qualquer resposta.
A cozinheira entenderia o recado.
Depois da faculdade, voltei para a casa do senhor não-me-toques.
Recebi minha primeira bronca no meu primeiro dia. Impressionante. Mal cheguei e já sou um problema ambulante. A governanta falou tanto que acho que meu cérebro travou no meio do discurso. Algo sobre não mexer onde não devo, manter tudo em ordem, não deixar bilhetes e não insultar o chefão da casa.
Bom… esse último conselho veio tarde demais.
Se ele leu o bilhete que joguei fora, eu estava ferrada.
Sério, por um triz eu não desisti de ir. Mas respirei fundo, juntei os cacos da minha dignidade e fui.
Ao chegar, a casa estava silenciosa. Nenhum sinal do mafioso ranzinza e fodão. Ótimo. Fiz tudo conforme pediram, seguindo as regras como uma aluna exemplar. Preparei um dos pratos que ele gostava:
Filé ao molho de páprica defumada, batatas rústicas e um toque de ervas frescas.
A carne estava no ponto certo, selada e suculenta, o molho encorpado, e as batatas douradas, crocantes por fora, macias por dentro. Se aquilo não fizesse o chefe babaca suspirar de prazer, nada mais faria.
Coloquei tudo na travessa e já ia terminar quando percebi que faltava um ingrediente para o molho final.
— Mas é claro… só podia ser comigo! — murmurei, exasperada.
Sem opção, fui até a despensa.
Era um cômodo grande, estreito, com prateleiras cheias de ingredientes. Entrei, procurando o que precisava.
Mas cadê?
Tateei as prateleiras, me esticando, tentando ler os rótulos com a luz fraca… e então...
A porta se fechou atrás de mim.
No mesmo segundo, meu coração disparou.
Merda.
Merda, merda, merda!
Tentei girar a maçaneta. Nada.
Empurrei a porta. Nada.
Foi quando o pânico começou a se espalhar pelo meu corpo. A respiração ficou curta, o peito apertado, a visão embaçando.
Eu tinha claustrofobia.
E eu estava trancada ali dentro.
Meus dedos tremiam enquanto batia na porta com força.
— EI! ALGUÉM! SOCORRO!
O ar parecia sumir, e minha mente começou a girar em espiral. Eu não conseguia respirar direito, o lugar parecia menor a cada segundo.
Eu ia surtar. Eu ia enlouquecer ali dentro.
— POR FAVOR! SOCORRO!
Bati mais forte, agora desesperada, com os olhos marejando e a garganta fechando de medo.
Se ninguém me ouvisse… eu não sabia o que faria.
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Atualizado até capítulo 81
Comments
Fernanda Figueiroa
ela vai virar a cabeça dele ao avesso kkkk
vai deixar ele maluco
2025-02-18
36
Marlene Reis
EU TENHO PAURA DE LUGARES FECHADOS,SOU CLAUSTROFÓBICA E JÁ APERTEI O BOTÃO DO PÂNICO FAZENDO RESSONÂNCIA MAGNÉTICA E TIVE QUE SER SEDADA, O COLETE SALVA VIDAS SUBIU NO MEU ROSTO E GRITEI E FALEI CADA PALAVRÃO GIGANTE IGUAL UMA CONDENADA KKKKK
ODEIO TÚNEIS,ALGEMAS DE BRINQUEDO EU SURTO,JÁ PASSEI VERGONHA EM FESTA DE CRIANÇA, ME ALGEMARAM COM ALGEMAS DE BRINQUEDO E Ñ CONSEGUIA TIRAR 🤦🏻♀️🤣🤣🤣🖤🤘🏼
2025-04-04
0
Gedna Feitosa Gedna
Vc só não foi demitida pq vc já fez ele suspirar de prazer. kkkkkkkkkkkkkkk
2025-03-22
5