O ar estava denso, carregado de uma tensão palpável, à medida que nos aproximávamos do centro da tempestade. Mesmo sem ver, podia sentir a pressão crescendo ao nosso redor, como se algum poder imenso estivesse se acumulando, prestes a explodir. A terra sob nossos pés pulsava, vibrava, como se estivesse viva. O chão tremia, o céu se torcia em um espiral de sombras e luz, e eu não conseguia mais distinguir onde a realidade terminava e o pesadelo começava.
Lyria e Karl estavam à minha frente, mas não era a distância física que me separava deles. Algo havia nos afastado, algo invisível, uma barreira que a tempestade parecia ter criado entre nós. Eu sentia a presença deles, como se suas consciências estivessem entrelaçadas com a minha, mas ao mesmo tempo havia algo imenso e intransponível, algo que estava nos guiando, algo que não podíamos compreender completamente.
Lyria, com os olhos fixos no que estava à frente, caminhava sem hesitar. Havia algo intransigente em sua postura, como se ela soubesse o que nos aguardava, como se ela já tivesse estado ali antes, como se aquela jornada fosse uma extensão de algo que havia começado muito antes de nós termos sequer consciência dela. Mas sua expressão era silenciosa, impassível, e isso só aumentava o peso que eu sentia em meu peito.
Karl estava quieto, mas seu silêncio era pesado. Eu sabia que ele estava atento, sempre calculando, sempre pronto. Mas não havia a dureza habitual em seu olhar. Em vez disso, seus olhos estavam escuros, carregados de algo profundo e inquietante, algo que eu não podia decifrar. Ele não era mais o Karl de antes, aquele que parecia imune a qualquer medo, qualquer ameaça. Ele também estava com medo. E isso me assustava.
A tempestade, essa força primordial que agora nos envolvia, não era mais apenas uma ameaça externa. Ela estava dentro de nós. Estava nos moldando, nos transformando. Cada passo que dávamos, cada respiração que tomávamos, parecia nos aproximar de algo irreversível, algo que não podíamos mais controlar. Eu sentia como se minha alma estivesse sendo consumida pela tempestade, como se ela estivesse prestes a nos devorar completamente.
Os sons ao nosso redor começaram a se distorcer, como se o próprio espaço estivesse sendo rasgado. Antes, era o vento que dominava, agora havia algo mais — ecos distantes, quase como vozes, que pareciam vir de um lugar além de nós, além da compreensão. Eram murmúrios incompreensíveis, uma língua esquecida, um canto distante de um ser que não pertencía a este mundo. E, no entanto, de alguma forma, éramos atraídos para eles. Como se aquela força invisível, a própria tempestade, estivesse nos chamando.
“Você sente isso?” A voz de Lyria cortou o silêncio, mas soou como um sussurro profundo, carregado de inquietação. Seus olhos estavam fixos em algum ponto à frente, mas ela não parecia mais ali, em nosso mundo. Ela parecia estar em outro lugar, em outra realidade.
Eu não sabia o que responder. Era uma sensação estranha, impossível de descrever. Como se o próprio tempo estivesse se contorcendo, como se a nossa jornada estivesse quebrando as barreiras do espaço e do tempo. Mas havia algo mais — uma paz estranha, uma sensação de que, por mais aterradora que fosse, estávamos no lugar certo. Algo maior nos guiava. Algo que a tempestade havia acordado dentro de nós.
“Sim”, foi o que consegui dizer, minha voz quase um eco.
Karl, que até aquele momento permanecera em silêncio, deu um passo à frente, seu olhar focado, mas a tensão em sua postura era palpável. Ele não parecia mais seguro de si como antes. Seus olhos estavam tão escuros quanto a tempestade que nos cercava.
— Estamos chegando. — Sua voz era baixa, carregada de uma gravidade que eu não conseguia ignorar.
Eu balancei a cabeça, absorvendo as palavras dele. Sabíamos que estávamos chegando ao fim de nossa jornada. Mas o que isso realmente significava? O que era o Coração da Tempestade? O que encontraríamos quando chegássemos lá? Nada poderia ser mais poderoso que a força que nos guiava até aquele ponto. Mas o que, afinal, nos aguardava?
A medida que caminhávamos, os sinais de algo fora do comum começaram a surgir. O ar, uma vez carregado de incerteza, agora estava se distorcendo ao nosso redor, como se a própria atmosfera estivesse se moldando em algo diferente, algo que não podíamos mais compreender. O solo começou a rachar, fissuras que se abriam como feridas na terra, e à medida que avançávamos, vi uma torre surgir diante de nós, imensa e imponente. Ela parecia ser feita da própria tempestade, do vento, das nuvens e do relâmpago. Como se o céu tivesse sido esculpido em forma de pedra, algo irreal e aterrador.
Eu olhei para Lyria, buscando algum sinal, alguma reação. Mas ela estava inabalável, seus olhos fixos na torre, como se fosse apenas uma passagem, uma etapa a ser cumprida. Sua expressão não revelava nada, como se tudo aquilo fosse inevitável, parte de uma jornada que ela já havia percorrido, que já sabia como terminaria.
Karl, ao meu lado, também não parecia surpreso, mas seus olhos estavam tensos, vigiando cada movimento ao nosso redor. Ele deu um passo à frente, se aproximando de Lyria, sem hesitar.
— Estamos preparados para isso? — A pergunta foi mais uma afirmação, uma constante que ele precisava confrontar, mas a dúvida era palpável na sua voz.
Eu não sabia o que responder. “Preparados” parecia uma palavra vazia diante do que estávamos prestes a enfrentar. Como alguém pode estar preparado para encarar o Coração da Tempestade? Para enfrentar o que está além da compreensão? Mas, de alguma forma, sabia que éramos necessários ali. A tempestade não nos havia trazido até aqui por acaso. Ela tinha nos escolhido. Era isso que eu sentia, uma verdade inegável que queimava em meu peito.
A pressão sobre nós aumentava a cada passo. O solo parecia nos desafiar, testando nossa determinação. Eu sentia o peso de tudo que havíamos vivido até ali, mas, ao mesmo tempo, havia uma sensação de alívio iminente, como se finalmente pudéssemos compreender o que essa tempestade havia nos mostrado. O Coração da Tempestade estava ali, à nossa frente, e sabíamos que ao alcançá-lo, seríamos diferentes. Eu seria diferente.
Quando finalmente chegamos à base da torre, a terra tremeu novamente, e uma voz profunda e retumbante ecoou ao nosso redor. Não era uma voz humana. Era a voz da tempestade.
E, naquele momento, tudo mudou.
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Atualizado até capítulo 35
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