O vento tinha cheiro de metal. Sempre odiei isso.
Estávamos há três dias subindo essas malditas montanhas, e tudo o que eu conseguia pensar era em como a umidade deixava minha capa mais pesada do que devia. Cada passo parecia mais alto na minha cabeça, mesmo que eu me movesse com a leveza de quem passou metade da vida roubando debaixo do nariz de outros piratas.
Mas não era o peso da capa ou o barulho dos passos que me incomodava. Eram os olhos invisíveis, grudados em nós desde a manhã anterior.
Arlen e Lyria sentiam o mesmo, mas não falavam disso. Eles eram discretos, calculistas. Lyria, principalmente. Ela sempre andava com a mão próxima do arco, como se estivesse a um sussurro de sacar uma flecha e perfurar a noite. Arlen apenas observava o céu, conversando com as nuvens como se fossem velhos conhecidos.
— Estão atrás de nós — ela disse, mais cedo.
Eu ri, mas não porque achava graça.
A questão não era se eles estavam nos seguindo. Era quando iriam aparecer.
Agora, sentado perto do fogo baixo, mastigando um pedaço de pão duro como pedra, eu observava Arlen traçar linhas invisíveis sobre o mapa.
— Não adianta encarar isso por tanto tempo. Ele não vai se desenhar sozinho.
Arlen levantou a cabeça e me lançou aquele olhar de quem prefere a companhia de livros à de pessoas.
— O mapa responde ao vento. Eu só preciso decifrar a direção certa.
— Direção certa para quê?
— Para o Coração.
Revirei os olhos.
— Claro. O Coração da Tempestade. Vamos direto até ele, pegar a relíquia mais poderosa que já existiu e voltar para casa, como se estivéssemos trazendo uma lembrancinha de mercado.
Lyria ergueu os olhos do fogo, e mesmo na penumbra eu senti o olhar dela me atravessar.
— Se não acredita, por que veio conosco?
— Aventura — respondi com um sorriso enviesado. — E um pagamento generoso, se é que se lembram.
— Você acha que vai gastar esse dinheiro se não sairmos vivos daqui?
— Eu prefiro pensar que vamos sair vivos. Dá menos dor de cabeça.
Ela não respondeu. O problema de Lyria é que levava tudo a sério demais. Sempre em alerta, sempre pronta para atirar. Isso era bom. Até certo ponto.
O problema era quando se esquecia de respirar.
Nós somos sombras, Lyria. Mas até sombras dançam de vez em quando.
O trovão que rugiu naquela noite me tirou do devaneio, e foi então que eu os vi.
Grifos.
Malditas criaturas de asas largas e bicos afiados. O tipo de monstro que só existe quando um homem brinca de deus e se acha mais esperto que a natureza.
Eles planavam sobre as árvores, como predadores esperando o momento certo para mergulhar.
— Lyria… — Arlen sussurrou.
— Eu vi.
Ela já tinha o arco em mãos. A flecha deslizou com facilidade sobre a corda.
Levantei devagar, tomando cuidado para não chamar atenção antes da hora. Não que isso importasse. Eles nos viam. Eles sempre viam.
— Não atirem primeiro — murmurei. — Se provocarmos, não vai sobrar nada além de cinzas nossas nessa montanha.
Lyria estreitou os olhos.
— Eles estão patrulhando. Isso significa que os cavaleiros da Ordem não estão longe.
— Ótimo — falei, batendo de leve na adaga na minha cintura. — Sempre quis reencontrar velhos amigos.
— Fique quieto, Karl.
— O quê? Não posso nem tentar aliviar o clima?
Ela me lançou um olhar afiado, mas foi Arlen quem falou.
— Ele não está errado. Se reagirmos agora, atrairemos a Ordem.
— E o que sugere? Que fiquemos sentados esperando?
Ele fechou o mapa e guardou no manto.
— Sugiro que corram.
E foi o que fizemos.
O cavalo disparou primeiro, guiado por Lyria, que se movia com a precisão de quem nasceu para aquilo. Arlen correu atrás dela, com o manto esvoaçando, e eu fechei a retaguarda, sempre com uma adaga na mão.
Os grifos não demoraram a nos seguir.
Ouvi o som de asas cortando o ar, próximo o suficiente para sentir o deslocamento do vento.
— Direita! — gritei.
Lyria puxou as rédeas, e o cavalo desviou na hora certa. Um dos grifos mergulhou onde estávamos segundos antes, as garras rasgando a terra.
— Malditos!
— Continue correndo, Karl!
Eu ri, mesmo quando outro grifo quase arrancou minha cabeça.
O problema de fugir de grifos é que eles não se cansam. Nós sim.
— Não vamos aguentar por muito tempo! — gritei.
Arlen olhou por cima do ombro.
— Precisamos nos esconder.
— Aonde? Não tem nada aqui além de pedra e mato!
E então, como se as montanhas tivessem ouvido meu desespero, uma entrada surgiu à nossa frente. Uma caverna, meio escondida por raízes e vegetação.
Lyria não hesitou. Entrou de uma vez, e o cavalo desapareceu na escuridão.
Eu e Arlen seguimos logo atrás, e assim que entramos, senti a umidade fria das paredes nos engolir.
Respiramos em silêncio, ouvindo as asas dos grifos lá fora.
— Eles vão esperar — Lyria sussurrou, passando a mão no arco.
— Eles podem esperar o quanto quiserem. Não podem entrar aqui.
Arlen assentiu.
— Essa caverna tem proteção.
— Como sabe?
Ele não respondeu, apenas tocou uma das paredes. Símbolos antigos, quase apagados, cobriam a pedra.
Eu ri baixinho.
— É sorte demais para ser verdade.
Lyria olhou para mim, mas dessa vez, não havia irritação. Apenas cansaço.
— Não é sorte, Karl. É o vento nos guiando.
Cruzei os braços, me recostando na parede fria.
— Espero que esse vento saiba para onde está indo.
Naquele momento, enquanto a tempestade rugia lá fora e os grifos giravam no céu, não me importei se o vento guiava ou não.
Eu só queria sair dali vivo.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 35
Comments