A tempestade não cessava. Pelo contrário, ela aumentava, intensificando-se a cada segundo, a cada respiração que tomávamos. Eu não sabia como havia chegado até ali, naquele vórtice de energia pura e primitiva, onde o mundo parecia se dissolver e reformar a cada batida do coração. Era como se tudo ao meu redor fosse uma extensão de mim mesmo, de minha própria mente, e ainda assim, eu não conseguia controlar a força que crescia dentro de mim.
Eu não sabia como explicar o que estava acontecendo. As imagens que se formavam diante dos meus olhos eram fragmentos de um passado que não havia vivido, de um futuro que talvez nunca acontecesse. Tudo estava conectado, de alguma forma, mas eu não conseguia entender. Eu podia sentir a tempestade em minha pele, na ponta dos dedos, no peito, pulsando, me arrastando para o centro de um abismo sem fim. Mas, ao mesmo tempo, havia algo ali, algo dentro de mim, algo que me chamava, que me guiava.
Lyria estava ao meu lado, sua figura quase apagada pela intensidade da luz que emanava do centro da tempestade. Seus olhos estavam fechados, como se estivesse em transe, mas havia uma paz inquietante em sua expressão. Era como se ela soubesse o que estava acontecendo. Como se ela já tivesse estado ali antes, em algum outro momento, em algum outro tempo.
Karl estava um pouco afastado de nós, seus olhos atentos, mas seu corpo tenso, como se estivesse à espera de algo. Ele olhava para a tempestade com uma mistura de fascínio e apreensão. Eu podia sentir sua desconfortável inquietação, como se algo em sua natureza não fosse compatível com aquilo que estávamos enfrentando. Mas, ainda assim, ele estava ali, permanecendo firme, como sempre fazia.
O centro da tempestade, a esfera de energia que havia se formado à nossa frente, agora se estendia mais, como se estivesse nos absorvendo. O espaço ao nosso redor parecia distorcido, como se o tempo estivesse desacelerando, esticando, enrolando-se sobre si mesmo. Eu podia ouvir um som, um sussurro baixo, vindo de algum lugar distante, mas ao mesmo tempo, parecia estar dentro de mim. Era como se a própria tempestade tivesse uma voz, uma consciência que nos falava em um idioma que meu corpo reconhecia, mas minha mente não conseguia compreender.
De repente, a sensação de desorientação aumentou, como se eu estivesse sendo puxado para dentro da tempestade, para o próprio coração dela. A pressão nas minhas têmporas aumentou, e eu quase caí de joelhos, minha respiração se tornando mais difícil. Cada vez mais eu sentia a tempestade se aproximando, se tornando parte de mim, e eu não sabia como resistir. A verdade que estava diante de nós era muito maior do que qualquer coisa que pudéssemos ter imaginado.
— Arlen, você está bem? — A voz de Lyria cortou o silêncio, baixa, mas com um tom de preocupação. Eu não consegui responder de imediato. Ela estava mais próxima agora, seu rosto visível à medida que ela se aproximava.
Eu olhei para ela, meus olhos tentando focar em sua figura. Ela parecia distante, mas seus olhos estavam brilhando com uma intensidade que eu não podia ignorar.
— Eu... — Eu tentei falar, mas a sensação de pressão era tão forte que as palavras pareciam escapulir dos meus lábios. Eu não sabia o que estava acontecendo. Estava perdido, mas ao mesmo tempo, eu sabia que tudo o que precisávamos estava aqui, dentro dessa tempestade, dentro de mim.
Lyria estendeu a mão, tocando meu braço com força, como se tentasse me ancorar de volta à realidade.
— Concentre-se, Arlen. Você precisa se concentrar. Não podemos perder o controle agora. A tempestade quer nos levar, mas nós temos que seguir nosso caminho.
Eu tentei focar no que ela disse, mas era difícil. O som ao meu redor, o zumbido constante e a pressão crescente, faziam meu corpo querer se dispersar, se dissolver, como se fosse absorvido pela própria energia que nos envolvia. O vento parecia não mais ser vento, mas um oceano de força pura, tentando nos afogar. Eu podia sentir cada fio de cabelo em meu corpo sendo esticado, cada músculo tenso, como se a tempestade estivesse me desafiando a me quebrar.
Karl se aproximou de nós então, e seus olhos estavam sérios, mas havia algo em sua expressão que eu não conseguia entender. Ele estava observando a tempestade, mas parecia ver algo além dela. Ele estava mais calmo, mas sua calma era a de alguém que sabia que não havia mais retorno. Ele sabia, como eu sabia, que este momento era inevitável. Ele já tinha visto o que eu estava vendo, mas de uma forma diferente. Ele tinha conhecimento que eu ainda não possuía.
— Arlen, não estamos aqui apenas para observar, — Karl disse, sua voz firme, cortando o ruído da tempestade. — Não estamos aqui para nos perder. Estamos aqui para entender. Você sabe o que precisa fazer, não sabe?
Eu o encarei, tentando processar suas palavras. O que ele queria dizer? O que precisava ser feito? Eu sentia que algo dentro de mim estava começando a despertar, uma verdade que estava dormindo em minha alma, mas que agora estava se tornando impossível de ignorar. Eu não sabia se estava pronto para enfrentar isso, mas sabia que não havia escolha. A tempestade não nos daria escolha.
Lyria colocou a mão sobre meu ombro, sua presença firme ao meu lado.
— O que está acontecendo, Arlen? O que você sente? O que a tempestade está pedindo de você?
A pergunta parecia simples, mas eu sabia que não era. A tempestade estava pedindo algo de mim, algo que eu ainda não compreendia completamente. Eu podia sentir a energia dela, como se ela estivesse se infiltrando em cada fibra do meu ser. Mas, ao mesmo tempo, havia algo dentro de mim resistindo. Algo que não queria se render.
Eu fechei os olhos, tentando me concentrar. O que a tempestade queria? O que ela estava me pedindo? Eu estendi as mãos, sentindo o ar ao meu redor, tentando entender o movimento das correntes. E, então, como uma faísca, algo dentro de mim se acendeu. Eu senti, de repente, como se o vento não fosse apenas uma força externa. Ele estava dentro de mim, me guiando, me empurrando, me levando para algo maior.
Eu olhei para Karl e Lyria. Ambos estavam em silêncio agora, aguardando, esperando. Eu sabia que o momento havia chegado. O que quer que fosse, eu estava pronto para enfrentar. Não mais como um espectador. Mas como parte da tempestade.
Eu estendi as mãos, concentrando minha energia nas correntes de vento ao meu redor, tentando ouvir a voz que me chamava. Algo se mexeu dentro de mim, como se os próprios ventos tivessem me reconhecido, como se eu fosse mais do que apenas um cartógrafo, mais do que apenas um homem perdido em um mar de incertezas.
Eu não sei quanto tempo passei ali, com os olhos fechados, concentrado apenas nas correntes do céu, tentando entender o que elas queriam me ensinar. Mas quando abri os olhos novamente, o mundo parecia ter mudado.
Eu estava mais forte. Mais ciente de meu lugar na tempestade. Eu sabia o que precisava fazer.
A tempestade não era nossa inimiga. Ela era nossa guia, nossa aliada. E agora, juntos, nós a enfrentaríamos.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 35
Comments