A terra parecia tremeluzir sob meus pés, como se o próprio chão estivesse lutando contra o peso da tempestade que se aproximava. O vento, mais forte do que nunca, rasgava o ar, uivando em um som que não parecia humano. Era como um grito distante, vindo de um lugar que eu não conseguia compreender. O céu, antes uma tela de nuvens densas, agora se abria em uma fenda escura, concentrando toda a tempestade no centro de um vórtice que se formava diante de nós. O que quer que estivesse esperando por nós ali, não era algo que eu pudesse compreender. O Coração da Tempestade parecia mais próximo agora, como se o próprio ar se curvasse em torno dele, formando um túnel de pura energia.
“Vamos continuar”, murmurei para mim mesmo, embora soubesse que minhas palavras não eram para Lyria ou Karl, mas para mim. Eu precisava acreditar que ainda havia controle, que ainda havia algo que eu pudesse fazer para entender o que estava acontecendo.
A cada passo que dávamos, a tempestade se intensificava, mas, ao mesmo tempo, eu sentia uma estranha calma se instalando dentro de mim. Não era a calma de quem teme o que está por vir, mas a calma de alguém que começa a compreender seu próprio destino. Estava começando a perceber que a tempestade não era apenas um fenômeno natural. Era algo dentro de mim, algo que eu não podia mais negar.
Lyria, à minha direita, ainda caminhava com a mesma tensão, mas algo em seu olhar havia mudado. Ela já não parecia tão apreensiva quanto antes. Talvez ela também estivesse começando a entender, assim como eu, que a tempestade não era nossa inimiga. Não mais. O inimigo, talvez, fosse a nossa própria resistência a ela.
Karl, por sua vez, estava mais quieto do que o normal. Seu olhar, sempre afiado, estava fixo no horizonte, observando o movimento da tempestade. Eu sabia o que ele pensava. Ele não confiava totalmente nisso. Ele não acreditava que a tempestade poderia ser algo que pudesse ser controlado ou usado a nosso favor. Mas ele também sabia, assim como eu, que não havia mais tempo para estratégias ou questionamentos. A tempestade estava nos alcançando, e agora só restava seguir.
Eu parei por um momento, sentindo o vento bater contra meu rosto, arranhando minha pele com a força da tempestade. Meu peito estava apertado, o ar parecia espesso e quase irrespirável. Mas, ainda assim, algo em mim se expandia. Eu podia sentir o vento como se fosse uma extensão de mim mesmo. Ele não me empurrava mais. Agora, ele me conduzia, me guiava, como se fosse uma força natural que sempre esteve dentro de mim, esperando para ser despertada.
“Estamos quase lá”, disse Lyria, sua voz uma mistura de cansaço e esperança.
Ela tinha razão. A tempestade não estava mais distante. O vórtice que se formava à nossa frente parecia nos atrair, como se fôssemos as peças finais de um quebra-cabeça sendo encaixadas em seu devido lugar. Eu sabia que não podíamos parar agora. Não havia mais escolha. Nós três estávamos irremediavelmente ligados a essa tempestade, e só ao atravessá-la seria possível entender o que realmente estava acontecendo.
Cada passo parecia mais pesado do que o anterior, como se o próprio peso do ar nos puxasse para o centro da tormenta. O som do vento aumentava, tornando-se quase ensurdecedor, e eu sabia que estávamos no limite de algo muito maior do que eu havia imaginado. Algo que se aproximava com uma força avassaladora.
Eu olhei para Karl, cujos olhos estavam fixos na fenda escura à nossa frente. Sua expressão estava tensa, mas, por algum motivo, ele parecia aceitar o que estava acontecendo. Talvez ele não tivesse uma escolha. Talvez, como eu, ele soubesse que, uma vez que a tempestade começasse, não haveria como voltar atrás.
“Arlen...” Lyria chamou, sua voz distante, como se a tempestade estivesse se tornando um muro entre nós. “O que você sente? O que está acontecendo dentro de você?”
A pergunta me pegou de surpresa. O que eu sentia? Eu podia sentir a tempestade pulsando dentro de mim, uma força crescente que ameaçava explodir, e ao mesmo tempo, uma sensação de clareza. Como se, finalmente, eu começasse a entender minha verdadeira natureza. A tempestade não era uma força externa. Era algo que eu carregava comigo, algo que eu sempre soubera, mas nunca quis aceitar.
“Eu não sei”, respondi, minha voz quase irreconhecível. “Mas sinto que... estamos chegando perto. Algo vai acontecer. Algo que vai mudar tudo.”
Eu não sabia o que estava dizendo, mas as palavras pareciam certas. A tempestade estava no limite de se revelar, e talvez nós, os três, fôssemos os únicos capazes de compreender sua verdadeira natureza. Ou, talvez, nós fôssemos apenas peças em um jogo muito maior do que nós mesmos.
De repente, uma rajada de vento mais forte nos empurrou para trás, e Karl gritou em um esforço para manter o equilíbrio. A tempestade estava mostrando seu poder, e eu sabia que não podia mais ignorá-la. Ela estava prestes a nos consumir.
“Arlen! Não pare!” Lyria gritou, sua mão firme em meu braço. Ela sabia, assim como eu, que agora era o momento. Não havia mais espaço para hesitação. Não havia mais tempo para pensar.
Com uma força renovada, dei um passo à frente, enfrentando o vento com uma determinação que eu não sabia que possuía. O que quer que estivesse nos esperando no centro da tempestade, eu sabia que não podia mais fugir. E, no fundo, não queria. Algo dentro de mim sabia que era isso que eu sempre estivera destinado a enfrentar.
O ar parecia se comprimir à nossa volta, e eu sentia a tempestade crescendo em intensidade, como se a própria terra estivesse se preparando para nos engolir. A escuridão à nossa frente não era mais apenas uma sombra. Ela estava viva, pulsando com uma energia que eu mal podia compreender. Eu sabia que, à medida que nos aproximávamos do Coração da Tempestade, nossa realidade começava a se distorcer. O que era real e o que não era? O que era uma ilusão e o que era verdade?
Mas não havia tempo para essas perguntas agora. Não havia mais espaço para dúvidas. O que estava diante de nós era a última chance de entender a tempestade. E se falhássemos, se não conseguíssemos atravessar o coração da tormenta, o mundo que conhecíamos poderia ser destruído.
Eu dei outro passo, e desta vez não foi apenas o vento que me empurrou. Foi algo dentro de mim. Algo que, finalmente, se alinhava com o poder da tempestade. Algo que me fazia entender o que estava acontecendo. Eu estava pronto. Ou talvez fosse o momento de ser consumido por aquilo que eu sempre tentei controlar.
O vórtice estava agora sobre nós, um redemoinho escuro que girava com uma força aterradora. Eu podia sentir a pressão em meu peito, como se o ar estivesse se tornando espesso demais para respirar. Mas, ao mesmo tempo, havia uma força interna que me empurrava, me guiava em direção ao centro.
Olhei para Lyria e Karl. Ambos estavam ao meu lado, prontos para o que quer que estivesse por vir. Não havia mais retorno. A tempestade estava diante de nós, e nós éramos as únicas peças capazes de compreender seu verdadeiro poder.
E então, enquanto avançávamos em direção ao coração da tempestade, eu soube. Eu soubera o tempo todo, mesmo antes de todos esses ventos começarem a nos arrastar. A tempestade não era apenas uma força da natureza. Ela era uma parte de nós. E agora, éramos nós que precisávamos decidir o destino de tudo.
“Vamos juntos”, murmurei, e dei o último passo em direção ao desconhecido.
E com isso, a tempestade nos engoliu.
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Atualizado até capítulo 35
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