A escuridão é mais cruel do que qualquer inimigo que eu já enfrentei.
Sempre soube disso, mesmo quando meu pai, o velho cartógrafo, me ensinava sobre mapas e estrelas. Ele dizia que a escuridão não era o fim, mas um começo — uma página em branco pronta para ser preenchida com o que escolhemos escrever. Mas a verdade? A verdade é que a escuridão nunca deixa de ser vazia. Ela engole tudo, te faz sentir o peso do desconhecido, te obriga a confiar nos instintos quando a razão falha.
Eu preferiria estar em qualquer outro lugar agora. Em uma taverna, afundado em hidromel barato. Em uma biblioteca, entre velhos pergaminhos cheios de promessas. Até mesmo nas ruas abafadas de uma cidade estrangeira, onde o barulho e o cheiro de ferrugem são quase familiares. Mas não... estou aqui. No silêncio úmido de uma caverna esquecida, ouvindo apenas o som do vento e o latejar do meu próprio coração.
Lyria estava à frente, junto à entrada. Silenciosa, atenta. Sempre à espreita. Eu podia ouvir seus passos leves sobre a rocha, quase como um sussurro. Ela se movia como se fosse parte do ambiente, diferente de mim — uma presença pesada, um intruso que perturba o equilíbrio. Lyria vivia para as sombras. Eu apenas dançava nelas, achando que podia controlá-las.
Mas até ela parecia tensa agora.
O vento sibilava lá fora, e eu sabia o que ele dizia. Algo nos esperava. Algo que se escondia entre as árvores retorcidas e as nuvens pesadas que rastejavam pelo céu.
— Você está quieto demais.
A voz dela rompeu o silêncio como uma lâmina fria. Lyria me encarava, os olhos dourados brilhando na penumbra, capturando a luz da fogueira que ainda tremulava fracamente entre nós. A pouca luz iluminava seu rosto de maneira suave, mas não apagava a sombra da tensão que se acumulava em suas feições.
— Só estou tentando entender o que o vento está me dizendo.
Ela franziu o cenho, rindo baixo.
— Você e esse vento... Acha mesmo que ele vai nos levar até o Coração?
— Eu sei que vai.
A resposta escapou antes que eu pudesse pensar. Firme demais. Quase como uma promessa que eu não tinha certeza se podia cumprir.
Karl apareceu então, emergindo da escuridão como uma piada ruim em um momento errado. Sempre sorrindo, sempre irreverente. Ele caminhava com a confiança de quem acredita que a sorte jamais o abandonaria — ou talvez com a teimosia de quem nunca considerou o contrário.
— Então, Arlen, o que estamos esperando? — A voz dele ecoou pela caverna, alta demais para o meu gosto. — Esse vento vai abrir uma porta mágica ou vamos ficar sentados até apodrecer?
Não respondi de imediato. Karl nunca entendia o que estava em jogo. Para ele, isso era aventura. Para mim, era destino. O Coração da Tempestade não era apenas uma relíquia ou uma lenda esquecida. Era um farol, uma promessa antiga que ecoava nos cantos do mundo.
— Acalme-se, Karl . — Lyria pousou uma mão firme no ombro dele, fazendo-o recuar um passo.
— Estamos em uma caverna. — Ela continuou. — E por enquanto, vamos esperar.
A fogueira estalou baixinho, quase se apagando, enquanto eu me levantava. Meus olhos se voltaram para as paredes da caverna. Algo... me atraía ali. Os símbolos antigos estavam gravados fundo na pedra, apagados pelo tempo, mas de alguma forma vivos. Quando meus dedos tocaram a rocha fria, eu senti.
A vibração.
Era quase imperceptível, mas crescia. Primeiro no chão, depois no ar, até que eu soubesse, sem sombra de dúvida, que algo estava se movendo. O vento circulava ao nosso redor, sussurrando mais alto agora, correndo pelas paredes como um rio invisível.
— Arlen... — Lyria sussurrou, mas eu ergui a mão, pedindo silêncio.
O som cresceu. Um estalo, como o de uma corda esticada prestes a arrebentar, ecoou pelo espaço. E então, diante de nós, a rocha se abriu.
Uma fenda.
A luz vazava por ela — uma luz azulada, fria como o próprio céu em noite de tempestade.
Eu recuei, incapaz de acreditar. O vento rugia, se contorcendo ao nosso redor, e naquele instante eu soube. A caverna nos conduzia. Ela respondia ao que buscávamos.
— O que... — Lyria mal conseguiu falar.
Karl avançou um passo, arregalando os olhos.
— O Coração... — Ele sussurrou, quase reverente, como se o próprio ar tivesse drenado sua coragem.
A luz na fenda se intensificou. Os símbolos na pedra pulsavam, vivos, respirando no mesmo ritmo que nós.
— Isso é sorte demais... — Karl murmurou, desconfiado.
— Não é sorte. — Lyria apertou o arco, sem tirar os olhos da entrada. — É o vento.
O vento.
— Vamos. — Minha voz saiu firme, mais do que eu sentia.
Karl hesitou, mas seu sorriso retornou — aquela expressão irritante que dizia "por que não?". Ele caminhou à frente, como sempre, sem medir as consequências.
Lyria me lançou um último olhar antes de segui-lo.
E eu?
Eu fui o último a entrar, atravessando a fenda enquanto as paredes da caverna se fechavam atrás de nós.
O vento rugia mais alto, e eu sabia...
A tempestade estava apenas começando.
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Atualizado até capítulo 35
Comments
xxaruspice
esperando o próximo capítulo
2024-12-31
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