Eu não sabia mais o que era real.
A linha entre a tempestade e minha mente estava borrada, desfocada. Cada rajada de vento parecia cortar minha pele como lâminas afiadas, e, ainda assim, eu não sentia dor. Meu corpo estava tomado por uma sensação de vazio, um vazio que se expandia a cada segundo, como se o mundo estivesse se desintegrando ao meu redor. O Coração da Tempestade, aquele poder primal, pulsava diante de mim, e eu estava mais uma vez diante da escolha mais difícil que já fiz.
Lyria e Karl estavam atrás de mim, mas nem eu sabia se ainda podiam me ver. A luz que emanava do centro da tempestade era forte demais, cegante. Como uma estrela prestes a explodir. Mas não havia estrelas ali. Só o vórtice. E o medo. O medo de que, ao dar o próximo passo, eu estivesse indo direto para minha própria destruição.
— Arlen, pare! — A voz de Lyria soou distante, como se viesse de algum lugar muito longe. Mas eu não podia parar. Não agora. A tempestade estava me chamando, e eu não tinha mais controle. Eu era parte dela. Ela era parte de mim.
O ar estava espesso, pesado, e a eletricidade que vibrava no ambiente parecia entrar em meus ossos, arrastando cada pensamento para longe. O vento uivava como uma besta selvagem, cada grito uma ameaça de que eu não conseguiria sobreviver ao que estava à frente. Mas a verdade era que, mesmo com a tempestade rugindo, eu não conseguia mais distinguir se aquilo era real ou uma alucinação. Estava perdido dentro de mim mesmo.
Eu já não sabia se havia algum caminho de volta. Cada passo que dava me empurrava para mais perto do centro da tempestade, onde o Coração pulsava. Eu sentia o poder vindo de lá, como um peso que estava sobre meus ombros, tentando me esmagar. Eu estava sendo puxado para dentro daquele vórtice, como se fosse o centro de tudo. Uma força que desafiava a lógica, uma força que me sugava para sua essência.
“Respire, Arlen. Respire. Controle-se.”
Mas o que eu poderia controlar agora? A tempestade dentro de mim estava crescendo, um turbilhão que não me dava espaço para respirar. A energia do vento, a eletricidade, tudo parecia estar em constante expansão, e eu não sabia mais como lidar com isso. Era como se cada célula do meu corpo estivesse sendo absorvida pelo poder do Coração.
Tentei, ainda assim, respirar profundamente. Tentei lembrar de quem eu era antes de tudo isso. O cartógrafo que uma vez desenhou mapas, que estudava os ventos, que acreditava que poderia controlar o que não podia ver. Mas agora, eu não era nada além de uma extensão da tempestade. Eu não era mais Arlen, o cartógrafo. Eu era Arlen, o catalisador.
— Arlen! — Lyria gritou novamente, mais forte dessa vez. Ela estava mais perto, seus pés arrastando na terra, mas seus olhos estavam fixos em mim, como se tentasse alcançar minha essência, minha alma. — Volte para nós!
Eu virei ligeiramente a cabeça, mas o que vi não era Lyria. Era a tempestade tomando forma, uma nuvem densa que se estendia até onde os olhos podiam ver. Eu queria falar, mas minha voz estava presa, engolida pelo vento que soprava com tanta força que me parecia impossível de conter.
— Não... — Sussurrei, minha voz soando abafada, como se estivesse falando de dentro de um sonho. — Não podemos voltar agora, Lyria. Isso é... isso é o destino. O Coração está aqui. Ele nos espera.
A verdade me atingiu com a força de um raio. O que quer que eu estivesse buscando, não era uma resposta simples. Não era uma luta entre nós e o poder da tempestade. Era uma fusão entre o que eu era e o que a tempestade representava. O Coração da Tempestade não estava lá para ser derrotado. Ele estava lá para ser entendido. E para ser aceito.
Eu não sabia como, mas estava começando a perceber. O Coração da Tempestade não era apenas uma força de destruição. Era também uma força de criação, de renovação. Algo muito mais antigo do que qualquer um de nós poderia compreender.
Dei mais um passo à frente, meus pés movendo-se sem qualquer hesitação, como se o próprio solo estivesse me guiando. O vento agora era uma extensão de minha vontade, embora eu não soubesse mais onde terminava o que eu era e começava a tempestade. Eu me tornei o olho do furacão, a calma no centro do caos.
Karl, mais atrás, observava tudo com atenção. Ele havia parado a certa distância, mas não parecia assustado. Ele estava esperando, esperando por algo. E eu sabia que ele sabia o que estava acontecendo. Karl sempre soubera mais do que eu. Eu me perguntei se ele entendia o que eu estava prestes a fazer, mas, por mais que quisesse perguntar, não tinha palavras para explicar.
As nuvens se abriram ainda mais à minha frente, e eu estava quase lá. O Coração da Tempestade pulsava como um coração real, como se tivesse vida própria. A energia que emanava dele era densa, como se o próprio céu estivesse sendo comprimido em um ponto único. Eu sabia que, ao chegar ali, tudo mudaria.
A dúvida que eu tinha desapareceu quando dei o último passo, atravessando a barreira invisível que me separava da verdadeira essência da tempestade. Agora, eu estava dentro dela. E o vento, a luz, a eletricidade, tudo parecia estar em perfeita harmonia. Era como se as correntes de ar, agora parte de mim, estivessem finalmente sendo guiadas por algo maior.
Senti uma onda de calor e eletricidade percorrendo meu corpo, e, pela primeira vez, o medo foi substituído por uma estranha sensação de paz. Eu não estava mais lutando. Não estava mais tentando controlar a tempestade. Eu era a tempestade.
— O que você está fazendo? — Lyria gritou, sua voz quebrando o silêncio. Ela estava ao meu lado, seus olhos fixos em mim, mas ela não compreendia.
Olhei para ela, tentando explicar com os olhos. Não era mais uma escolha. Era uma necessidade. A tempestade não era minha inimiga. Ela era parte de mim, e eu precisava entender seu poder para salvá-la — e, ao fazer isso, salvar a mim mesmo.
Estendi a mão em direção ao Coração da Tempestade. Ele estava agora ao alcance dos meus dedos, a energia que emanava dele fazendo meu corpo vibrar como uma corda esticada prestes a se romper. Mas, ao tocar o ar ao redor, eu não senti dor. Eu senti conexão. Eu senti força. O vento, que antes era um inimigo, agora se curvava à minha vontade.
Karl se aproximou então, finalmente rompendo o silêncio que nos rodeava. Ele parecia entender o que eu estava fazendo, e sua expressão era séria, mas não mais de desespero. Ele viu o que eu estava fazendo. Ele viu que eu havia aceito o Coração. Eu não era mais uma marionete dos ventos. Eu era a própria tempestade.
— Você tem controle sobre isso? — Karl perguntou, sua voz baixa.
Eu não sabia como explicar. Não havia palavras suficientes. Apenas... aceitação. Eu me entreguei ao poder que havia dentro de mim. E, ao fazer isso, percebi que eu era o Coração da Tempestade. Não apenas um ser que controla o vento. Não apenas alguém que busca respostas. Eu era a chave para tudo.
Me voltei para olhar Lyria, e ela, finalmente, parecia entender. Seus olhos, antes cheios de medo, agora estavam tranquilos, como se ela soubesse que, de alguma forma, o que estava acontecendo era necessário. Ela não me pediu para voltar. Ela não me questionou. Ela me viu como eu era. O ser que havia deixado de ser apenas um homem, para se tornar algo muito maior.
E, com isso, o vórtice ao nosso redor se acalmou. Não porque a tempestade tenha sido derrotada, mas porque ela havia encontrado sua verdade. E eu, agora, tinha encontrado a minha.
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Atualizado até capítulo 35
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