A luz dentro da caverna era estranha. Não se parecia com nada que eu já tivesse visto. Não era quente, nem fria. Não forte o suficiente para cegar, mas lá estava ela — envolvente, como se o próprio tempo se dobrasse ao seu redor. A cada passo que eu dava, o ar ficava mais espesso, pesado, como se correntes invisíveis se entrelaçar à nossa respiração.
Lyria seguia à frente, firme como sempre. Ela nunca hesitava. Mas eu? Eu sentia a tensão que se arrastava em minhas costas, um presságio que não conseguia decifrar. Detestava essa sensação. O vento sempre foi meu aliado, mas agora ele parecia distante, oculto, como se suas intenções estivessem veladas.
"Isso não pode ser só magia. Não pode." O pensamento se repetia em minha mente. Eu nunca fui fã do inexplicável. Preferia o tangível, o lógico. O vento, eu compreendia. Ele guiava as marés, ditava os rumos das viagens. Mas aqui... aqui parecia que algo além do que eu conhecia nos puxava, sutil e inevitável.
Lyria parou de súbito. Seus olhos dourados brilharam na penumbra, e soube que ela sentiu. Não foi uma intuição comum, mas um alerta primal, como se algo antigo sussurrasse apenas a ela. Seus dedos tocaram os lábios, em um gesto silencioso, e apontaram adiante.
Karl se aproximou, com a calma irritante de quem não leva nada a sério. Ele olhou ao redor, impassível. Para Karl , tudo era diversão. Um jogo. Mas eu não compartilhava dessa leveza. Sabia o peso do momento. O que buscávamos não era uma relíquia qualquer.
"Vamos." A voz de Karl rompeu o silêncio, sem esperar por respostas. Ele sabia que estávamos além do ponto de retorno.
Lyria seguiu, deslizando como uma sombra. Caminhei atrás dela, Karl logo em seguida. O túnel se estreitava, a pedra sob nossos pés tornava-se traiçoeira, mas a luz que preenchia a caverna parecia nos guiar.
Então o som começou.
Não um ruído comum, mas um eco. Um sussurro. O vento não mais passava por nós. Ele falava.
Parei. Algo invisível me puxava, me ancorava ao chão. O ar, denso como água, estava carregado de uma energia antiga. Familiar, mas diferente.
"O Coração." A palavra soou em minha mente, tão clara quanto a presença de Lyria à frente.
Ela parou também. Sentiu o mesmo. Karl , no entanto, seguiu como se não percebesse. Olhava ao redor, à espera de algo tangível.
"Então?" Ele resmungou, impaciente, a mão sobre a espada. "Nada? Esse lugar vai nos levar ao tal Coração ou só estamos passeando?"
Lyria ignorou, e eu respondi.
"Não é um tesouro, Karl . É um destino."
Ele riu. Mas não de desdém. Riu nervoso, como quem ri para espantar o medo.
Continuamos. As paredes agora estavam gravadas com runas que brilhavam fracamente. A magia delas vibrava, viva. Sabia que o vento corria por aquelas marcas, guiando o caminho.
O túnel se abriu em um salão vasto, que parecia não ter fim. O teto desaparecia na escuridão. No centro, um altar.
Feito de pedra negra, absorvia a luz ao redor. Era simples, mas pulsava com algo vivo. Sobre ele, uma gema.
A pedra irradiava a mesma luz da caverna, mas mais intensa. Vibrante. Eu soube no instante em que a vi.
Era o Coração da Tempestade.
Lyria avançou, a mão estendida, mas hesitou antes de tocar. Seus olhos encontraram os meus.
"Você sente isso, Arlen?" Sua voz era um sussurro.
Eu não precisava responder. Sentia. O vento se aglomerava ali, como se estivéssemos no olho de uma tormenta.
"Isso não é um tesouro," Lyria murmurou, os olhos fixos na gema. "Não podemos simplesmente pegar e sair. Há algo mais aqui."
Eu ia responder, mas o chão tremeu. Um rugido profundo ecoou, e o altar moveu-se.
A gema brilhou intensamente. A luz pulsava, um batimento de coração. O vento aumentava.
Lyria recuou. Karl observava, tenso. Não havia saída.
"Arlen..." A voz dela tremia, mas seu olhar permanecia firme. "O que faremos?"
Eu encarei o altar. O Coração brilhava. Não era uma pedra. Era vivo. Respirava com o vento.
"Não sei." As palavras escaparam. "Mas não vamos parar agora."
E então, o rugido final preencheu a caverna. O vento nos envolveu.
Ali, no coração da tempestade, entendemos.
O Coração não era um destino.
Ele era o caminho.
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Atualizado até capítulo 35
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