Eu sabia que o que fizera não tinha retorno. A tempestade dentro de mim, o Coração da Tempestade, o poder das correntes do céu que agora me possuíam... tudo aquilo era irrevogável. O que começava a me consumir também era o que me dava força, uma força incontrolável, mas ao mesmo tempo, libertadora. Eu não tinha mais controle sobre o que acontecia ao meu redor. Estava no centro, mas, ao mesmo tempo, fora dele. A tempestade era eu. Eu era a tempestade.
Mas o que isso significava? O que significava ser um com a tempestade?
Olhei para Lyria e Karl, que estavam agora mais atrás, seus olhos fixos em mim, mas sem saberem realmente o que eu havia me tornado. Ambos pareciam tensos, mas também cautelosos, como se não soubessem se deveriam se aproximar mais ou se afastar. Eles sabiam que algo havia mudado, mas não sabiam o quão profundo era esse câmbio.
Lyria estava imóvel, como uma rocha na beira de um abismo, seus olhos tentando me entender, como sempre. Ela não podia compreender por completo, e eu não poderia explicar. Eu também não compreendia.
Respirei fundo, mas o ar parecia mais espesso, como se o vento tivesse se tornado parte do meu próprio ser. Sentia a energia das correntes que circulavam ao meu redor, pulsando através de minhas veias, eletrificando cada célula do meu corpo. O Coração da Tempestade, no fundo da fenda que se abrira diante de mim, ainda brilhava, mas agora não era uma força distante. Ele era a própria extensão da minha alma. Uma extensão de mim que eu estava começando a aceitar.
Mas, ao mesmo tempo, havia uma angústia, um peso que não desaparecia. Algo dentro de mim dizia que não podia ficar ali para sempre. Que minha presença no centro da tempestade não era apenas um estado de aceitação, mas uma prisão.
Andei lentamente em direção ao Coração. Não era mais o mesmo caminho que tomara antes. Agora, o vento parecia me acompanhar, respeitar meus movimentos. Ele não me empurrava. Ele dançava ao meu redor, uma coreografia que só eu poderia entender. A tempestade não estava mais tentando me destruir. Ela estava me moldando.
Estendi a mão, e, dessa vez, não havia resistência. Quando meus dedos tocaram a luz pulsante, não senti dor, nem um choque de energia. Eu me fundi a ela. A conexão foi imediata. A tempestade não era mais algo fora de mim. Ela era eu. A verdade que eu havia ignorado durante toda a minha vida. Eu sempre fui parte dela, e ela sempre foi parte de mim. Tudo o que eu tinha feito até então, todas as escolhas que havia tomado, estavam me conduzindo para esse momento.
Mas isso significava que o destino estava, de alguma forma, me condenando a isso? Eu não sabia. Eu não sabia mais quem eu era fora dessa tempestade. O que seria de mim quando tudo isso acabasse? Se algum dia acabasse?
Fechei os olhos por um momento, tentando clarear a mente, tentando compreender o que realmente estava acontecendo. Era impossível. O poder era intenso demais, e eu me sentia cada vez mais pequeno diante dele. Eu não sabia se era capaz de controlar, ou se já havia sido consumido.
— Arlen… — A voz de Lyria interrompeu meus pensamentos. Ela soava distante, como se estivesse lutando contra o próprio vento para alcançar meu ouvido. — O que você está fazendo?
Eu me virei lentamente, encarando-a. Lyria estava de pé, seus pés firmemente plantados no chão, mas ela parecia hesitante, como se quisesse me alcançar, mas ao mesmo tempo, temesse o que pudesse acontecer se o fizesse. Ela não entendia. E eu não sabia como explicar.
— Eu não sei, Lyria. — Minha voz soou grave e distante. Eu sabia o que ela queria ouvir, mas não tinha as palavras. Não poderia dar as respostas que ela precisava. A tempestade dentro de mim estava se tornando mais forte, mais agressiva. Eu estava perdendo a noção de quem eu era. — Eu não sei o que estou fazendo. Só sei que não há mais como voltar.
Lyria deu um passo à frente, como se quisesse me alcançar, mas então parou. Ela olhou para o horizonte, onde as nuvens ainda giravam em espirais violentas, e uma expressão de compreensão cruzou seu rosto, mas também de sofrimento. Ela sabia o que isso significava. Ela sabia que eu não poderia simplesmente voltar ao que era antes.
— Então, o que vai acontecer? — Karl perguntou de trás, sua voz mais calma do que eu esperava, dado o caos ao nosso redor.
Olhei para ele, mas não sabia o que responder. O que poderia responder a alguém que sabia tanto, mas ao mesmo tempo nada sabia sobre o que eu estava passando? Ele não compreendia o que a tempestade representava. Ele via o Coração da Tempestade como uma relíquia, algo que ele desejava obter, que queria controlar. Mas ele não sabia que a verdadeira essência da tempestade não podia ser controlada. Ela só podia ser aceita.
Respirei fundo e olhei de volta para o Coração. Ele estava mais perto agora, a luz brilhando de forma intensa, como se estivesse se preparando para me engolir. E, por um momento, eu desejei que fosse assim. Que eu fosse consumido. Que o fim da minha jornada fosse a dissolução desse poder que agora me preenchia. Mas eu não sabia se isso seria suficiente. Eu não sabia o que significava viver com algo tão grande dentro de mim.
Mas então, uma sensação estranha tomou conta de mim. Como se a tempestade estivesse me pedindo para fazer algo. Algo que não envolvia me entregar completamente ao seu poder. Algo mais profundo, mais sutil. Era como se eu tivesse que encontrar um equilíbrio entre a força do vento e a calma do olhar, entre o caos e a clareza.
Era isso o que o Coração da Tempestade queria de mim. Não era destruição. Não era poder absoluto. Era equilíbrio. Ele queria que eu fosse o mediador, o guardião entre o caos do mundo e a necessidade de ordem. E isso… isso me assustava.
— O que você vai fazer? — Lyria perguntou novamente, agora com mais urgência em sua voz. Ela estava me olhando de uma maneira que eu nunca tinha visto antes, como se estivesse tentando me entender de verdade.
Eu sabia o que precisava fazer, mas não tinha certeza se era capaz. Olhei para Karl, que ainda observava de longe, seus olhos calculando cada movimento. Ele não se aproximava, mas também não recuava. Ele sabia que, de alguma forma, ele não tinha mais controle sobre o que estava acontecendo.
Fechei os olhos e, pela primeira vez desde que tudo isso começara, procurei a resposta dentro de mim, não no mundo ao redor, mas dentro da tempestade que agora era minha. O que eu estava me tornando? O que eu queria ser? A tempestade não era apenas caos. Ela também era renovação. Ela também era vida.
Estendi a mão mais uma vez, não para tocar o Coração da Tempestade, mas para tocar a mim mesmo. Eu não precisava ser consumido por ela. Eu precisava aprender a ser um com ela. Eu precisava ser o equilíbrio que esse mundo tão instável precisava.
E, quando fiz isso, a tempestade ao meu redor não se acalmou, mas se ajustou, como se estivesse aguardando minha decisão. Como se, pela primeira vez, eu tivesse tomado o controle de meu próprio destino.
Abri os olhos, e Lyria estava lá, seus olhos fixos em mim, e Karl também. Eles estavam esperando. Esperando que eu dissesse algo. Mas eu não precisava dizer nada. Tudo o que eu precisava fazer era ser. Ser a tempestade, ser o equilíbrio. E, assim, o mundo ao meu redor começaria a mudar.
— Está tudo bem — disse, finalmente, minha voz firme, sem dúvida. O Coração da Tempestade já não era um inimigo. Ele era a chave para a nossa redenção.
E, assim, a tempestade não era mais apenas um cataclismo. Ela era o começo de algo novo. E agora, eu sabia que poderia sobreviver a isso.
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Atualizado até capítulo 35
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