Eu já não sabia mais o que era real. O mundo ao meu redor estava se desintegrando, mas não de uma maneira física. Era como se as fronteiras entre o que eu conhecia e o que começava a entender estivessem se desfazendo. A tempestade havia me tomado, mas agora ela existia em um equilíbrio que eu jamais imaginei ser possível. Eu me tornara uma extensão dela, e, ao mesmo tempo, ela era uma extensão de mim.
Ainda assim, algo dentro de mim sussurrava que isso não era o fim, nem o começo de algo tranquilo. A tempestade não era algo que eu pudesse controlar; ela era uma força que, assim como o vento, não podia ser ignorada. Eu estava no centro de algo muito maior do que eu, mas, paradoxalmente, sabia que não era apenas um espectador. Eu fazia parte disso. E, ao mesmo tempo, era uma ameaça.
Olhei para Lyria. Ela estava a alguns metros de mim, a mão sobre a flecha que descansava em seu arco. Seus olhos estavam fixos em mim, mas havia algo neles que eu não conseguia decifrar. Era uma mistura de cautela, preocupação e algo mais que ela tentava esconder. Era como se soubesse que havia algo em mim que não poderia ser controlado.
Karl estava mais distante, mas seu olhar também estava fixo em mim, como sempre. Mas dessa vez, não era apenas a curiosidade impessoal de um pirata em busca de tesouros. Ele estava alerta, observando com mais atenção do que nunca. Como se soubesse que eu era algo que poderia mudar tudo.
— Arlen… — Lyria finalmente falou, quebrando o silêncio que havia se instaurado entre nós. Sua voz estava mais suave do que eu esperava, mas havia uma firmeza que não deixava dúvidas sobre o que ela estava prestes a dizer. — Você precisa entender que o que está acontecendo agora não é apenas sobre você. Não é só sobre o que você quer ou o que você acha que pode fazer. Nós precisamos saber o que você vai fazer com todo esse poder.
Eu a encarei, sem saber o que dizer. Não sabia o que responder, nem a mim mesmo. Como explicar algo tão vasto e incompreensível? Como traduzir para palavras a experiência que eu estava vivendo, a conexão profunda e imersiva com a tempestade, que agora parecia não ser mais apenas uma força natural, mas algo consciente, algo que estava me moldando?
— Eu não sei o que você quer dizer, Lyria — respondi, e a frustração em minha voz era evidente. — Eu não sou o centro de tudo isso. Eu não escolhi isso. Eu sou… eu sou apenas uma parte dessa força. E agora, não posso mais ignorá-la.
O peso das minhas palavras era inegável. Sentia o vento que agora parecia dançar ao meu redor, não mais em um furor, mas em uma sincronia estranha e quase gentil. Ele estava em harmonia com meu corpo, como se estivéssemos respirando ao mesmo tempo. Mas, mesmo assim, não havia nada fácil nisso. Cada respiração era um lembrete do que eu havia me tornado.
Lyria fez um movimento com a mão, como se tentasse expressar que eu não estava sendo claro o suficiente. Ela deu um passo em minha direção, mas a hesitação em seu olhar indicava que ela sabia que não deveria se aproximar demais. Talvez temesse que, ao fazer isso, ela fosse tragada pela força que agora residia em mim.
— Não é isso, Arlen — ela disse, com uma intensidade suave, mas firme. — O que estou tentando dizer é que esse poder… essa tempestade… não é só sua. Ele afeta todos nós. E não importa o quanto você a entenda ou se sinta em controle dela, você não está sozinho nisso.
Eu franzi a testa, tentando processar suas palavras. Pela primeira vez, comecei a questionar se ela estava certa. A tempestade que se manifestava em mim não era apenas uma força dentro de meu corpo, mas algo que se estendia para além de mim, afetando tudo ao meu redor. Ela não poderia ser controlada por um único indivíduo, não importa o quanto fosse poderoso.
E, naquele instante, algo se iluminou dentro de mim. Não era uma simples realização. Era uma epifania que veio acompanhada da dor de uma verdade que eu jamais quis aceitar. A tempestade não podia ser controlada por ninguém. Não podia ser dominada. Só poderia ser entendida e coexistida com ela. Eu tinha o poder, mas esse poder não era apenas meu. Ele estava conectando todos nós. Não éramos espectadores dessa tempestade. Estávamos sendo forjados por ela.
Olhei para Karl. Ele estava mais próximo agora, com seu olhar calculista, mas com uma vulnerabilidade que eu não costumava ver em piratas. Ele não sabia como lidar com o que estava acontecendo, assim como eu. Ele não entendia completamente, mas sabia o suficiente para sentir a ameaça do poder que agora habitava em mim.
— Karl — falei, minha voz mais calma agora, mas carregada de um peso que só eu poderia sentir. — O que estou sentindo não é apenas sobre mim. Isso não é algo que eu possa segurar sozinho. Não posso ignorar o fato de que estamos todos ligados a essa força, de que ela está mudando tudo.
Ele levantou uma sobrancelha, a expressão desconfiada, mas, ao mesmo tempo, havia algo em seu olhar que sugeria que ele começava a entender a magnitude da situação.
— Você está dizendo que não podemos escapar disso? Que estamos todos condenados a ser parte dessa tempestade? — Ele falou com uma suavidade que me surpreendeu, considerando o tom impetuoso de sua personalidade habitual.
Eu não sabia como responder, não sabia como garantir a ele que não estava falando de condenação. Não estávamos sendo arrastados para o abismo, mas para um novo começo, algo que ainda não compreendíamos, algo que poderia nos libertar, mas também nos destruir. A tempestade não era um fim. Ela era uma transição. Ela exigia que nos adaptássemos ou fôssemos consumidos.
— Não sei — disse, sentindo o peso de minhas palavras. — Mas sei que precisamos aprender a viver com ela. Isso não é mais uma escolha. A tempestade está dentro de nós, e não podemos fugir.
O silêncio pairou novamente. O vento ao nosso redor parecia ter acalmado, mas ainda havia um zumbido nos meus ouvidos, um eco da tempestade que se refletia em minha alma. Eu sentia a dor de todos ao meu redor, mas também a promessa de algo novo. Algo desconhecido, mas necessário.
Foi então que, no horizonte, algo chamou minha atenção. Uma sombra escura, algo que não estava ali antes. A tempestade não se restringia mais ao lugar onde estávamos. Ela estava se expandindo, se estendendo para o mundo além de nós. E, ao olhar para aquilo, uma sensação estranha de inevitabilidade me tomou. O que quer que fosse aquilo, estava nos observando.
— O que é isso? — Lyria perguntou, a mão já sobre o arco, pronta para agir.
Eu não sabia a resposta, mas o que eu sentia era claro. A tempestade não era algo que apenas afetava aqueles próximos a ela. Ela estava mudando tudo. E, se não aprendêssemos a viver com ela, todos nós seríamos arrastados, um por um, até o centro.
Eu dei um passo à frente, sentindo o peso da responsabilidade agora, mais do que nunca. Não era mais sobre controlar a tempestade. Era sobre entender como coexistir com ela. Não havia retorno. Eu não podia voltar ao que eu era antes. Mas, talvez, fosse possível encontrar uma maneira de viver com a tempestade sem ser consumido por ela.
Olhei para os dois, sentindo o peso das expectativas deles e da minha própria carga.
— Vamos descobrir o que está lá fora — disse com firmeza. — Mas saibam que o que encontramos pode mudar tudo.
E assim seguimos em frente, sem saber o que nos aguardava, mas com a certeza de que não tínhamos escolha. A tempestade era nossa agora.
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Atualizado até capítulo 35
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