O vento mudou de repente, como uma ondulação inesperada que afasta os grãos de areia, deixando a terra nua e vulnerável. Eu podia sentir o peso do ar ao meu redor, espesso, denso, como se a própria atmosfera estivesse se comprimindo antes de uma explosão. Lyria, Karl e eu, os três parados no limiar do que parecia ser o fim do mundo, olhávamos para o horizonte com o mesmo tipo de tensão. Sabíamos que a tempestade se aproximava, mas o que nos aguardava além da escuridão era impossível de prever. O céu, antes limpo, agora se tornava um vasto manto de nuvens negras, que se estendia até o infinito.
Cada passo que dávamos parecia um desafio, como se o chão embaixo dos nossos pés se recusasse a nos permitir avançar. Eu sentia a força da tempestade não só no vento, mas dentro de mim, uma pressão crescente no peito. Uma sensação de claustrofobia sem paredes. A tempestade estava mais do que perto. Ela estava dentro de mim, me empurrando, me moldando. Era uma presença que eu não conseguia mais ignorar. E, de alguma forma, eu sabia que essa tempestade não estava apenas se aproximando da terra — ela estava se aproximando de mim, do meu próprio ser.
A presença do Coração da Tempestade estava mais forte a cada dia. Mesmo que eu tentasse ignorar, a voz, o chamado, a energia do vento se entrelaçava com meu corpo. Eu começava a entender que talvez nunca tivéssemos controle sobre isso. Talvez nunca fôssemos feitos para controlar os ventos. Mas algo em mim estava começando a mudar. Eu não sabia como descrever isso, mas sentia o poder crescendo dentro de mim, como se minha alma estivesse se expandindo, absorvendo toda a força da tempestade. E no centro dessa tormenta havia uma verdade crua: eu não estava mais separado dela. Eu era parte dela. E não havia como voltar atrás.
Lyria, que sempre se mostrava tão controlada, agora caminhava ao meu lado com uma tensão visível em seus ombros. O olhar que ela lançava para a tempestade era uma mistura de medo e determinação. Eu sabia o que ela pensava. Ela temia que eu me perdesse nessa força. Ela temia que eu cedesse à tempestade de tal maneira que nunca mais conseguiria encontrar meu caminho de volta.
Karl, por outro lado, não parecia mostrar qualquer tipo de apreensão, mas havia algo em seus olhos que me fazia acreditar que ele sabia mais do que estava disposto a admitir. Ele estava observando, calculando, esperando. Sempre calculando. Talvez ele tivesse uma estratégia em mente, talvez ele tivesse algum plano para o que vinha pela frente. Mas, em sua postura, também havia um toque de exaustão. Ele sabia que a tempestade não seria algo que poderíamos derrotar com espadas e flechas. Ele sabia, assim como eu, que este era um desafio que transcenderia tudo o que conhecíamos.
O céu parecia que estava se desintegrando à nossa frente, as nuvens se desfazendo e reformando em formas indistintas, como se a própria realidade estivesse sendo distorcida. Cada trovão que ressoava no horizonte fazia o chão tremer sob nossos pés, como se o mundo estivesse tentando nos alertar, tentando nos dizer que não havia mais volta.
— Está chegando, Arlen — Lyria disse, sua voz carregada de um tipo de força que eu não sabia de onde vinha. Ela sabia que isso era muito maior do que qualquer um de nós. Ela sabia, assim como eu, que a tempestade não estava vindo para destruir. Ela estava vindo para revelar. E a pergunta era: o que seria revelado?
Olhei para ela, tentando reunir forças para explicar o que eu sentia, o que estava acontecendo dentro de mim, mas as palavras falhavam. Era como tentar descrever o vento com as mãos amarradas. Não havia palavras que pudessem traduzir o que estava acontecendo. Só havia essa pressão crescente em minha mente, e essa sensação de que, a cada momento, eu estava mais perto do centro da tempestade.
— Eu sei — respondi, minha voz quase inaudível, carregada com a tensão que eu sentia em todo o meu ser. — Eu posso sentir. Está aqui.
Karl parou repentinamente à nossa frente, seus olhos fixos em algo distante. Ele havia sentido algo também, ou talvez fosse apenas sua intuição, que sempre o guiava. Sabia que ele não fazia nada sem um motivo. Mas, desta vez, não era um motivo físico, não era uma ameaça ou um inimigo. Era a própria tempestade. Ela se aproximava.
— O que vamos fazer, Arlen? — Karl perguntou, a sua voz mais suave do que o habitual. Ele não era o tipo de homem que fazia perguntas sem esperar respostas, mas dessa vez havia algo diferente. Havia um tipo de vulnerabilidade em sua pergunta. Como se, talvez, ele também não soubesse o que fazer.
A resposta me veio de forma instintiva, como um impulso que vinha de um lugar profundo dentro de mim. Eu sabia que não tínhamos mais tempo. Não havia mais espaço para medo, nem para hesitação. A tempestade estava prestes a nos engolir, e nossa única chance era atravessá-la.
— Vamos em frente — disse com a voz mais firme que consegui. — Não podemos nos esconder dela. Não podemos fugir. Precisamos atravessar o centro da tempestade.
Lyria me lançou um olhar, uma mistura de incredulidade e determinação, mas não disse nada. Ela sabia, assim como eu, que não havia mais escolha. Não havia mais tempo para debates, nem para planos detalhados. A única coisa que tínhamos agora era nossa força de vontade e a coragem de seguir em frente.
Karl balançou a cabeça, seus olhos agora sombrios, mas com uma aceitação relutante.
— Se é isso o que você quer, Arlen, então vamos. Mas se você se perder... Se você deixar a tempestade dominar, não poderei seguir.
Eu não sabia se ele estava se referindo à tempestade que estava se formando à nossa frente ou à tempestade que agora tomava conta de mim, mas uma coisa era certa: Karl tinha razão. Se eu me perdesse no poder da tempestade, não havia mais nada que pudéssemos fazer. Eu seria um aliado perdido para ele e para Lyria. Não podia permitir isso. Não podia deixar que o poder que crescia dentro de mim me consumisse.
Começamos a andar mais rápido, nossos passos sendo abafados pelo som crescente da tempestade. Eu não sabia para onde estávamos indo, mas algo dentro de mim sabia que precisávamos nos mover mais rápido, mais profundamente na tempestade. Eu podia sentir o calor da energia no ar, como se a própria terra estivesse sendo reescrita ao nosso redor. Cada trovão, cada rajada de vento parecia uma ameaça, mas também um convite.
A tempestade não era uma inimiga. Ela era uma parte de mim. E eu sabia que só ao enfrentá-la de frente seria possível entender o que ela significava. O que ela queria de nós. E mais importante, o que ela queria de mim.
À medida que avançávamos, a tempestade se tornava mais intensa, como se a própria natureza estivesse em frenesim. A escuridão ao nosso redor se tornava quase opressiva, mas, ao mesmo tempo, havia uma estranha luz nas bordas da tempestade, uma luminosidade que parecia emanar do próprio centro da tormenta. Eu não sabia o que era, mas sentia como se estivesse sendo atraído por ela, como se fosse esse o caminho que eu deveria seguir.
A tempestade estava ali, à nossa frente. Ela era uma promessa de mudança, uma força inevitável. E nós éramos as últimas pessoas que poderiam ter a chave para sua compreensão. Se conseguíssemos atravessar o centro, se conseguíssemos entender o Coração da Tempestade, talvez pudéssemos salvar o mundo. Ou talvez, como todos os outros que haviam vindo antes de nós, fôssemos consumidos por ela.
O que aconteceria com todos nós? O que aconteceria com o mundo? Eu não sabia. Mas uma coisa eu tinha certeza: eu não podia parar agora.
— Vamos — disse, tomando a liderança. O vento já não era mais um inimigo. Ele era parte de mim. Eu era parte dele.
E, assim, seguimos em frente, em direção ao desconhecido.
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Atualizado até capítulo 35
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