Há algo de traiçoeiro no vento quando ele se cala.
Aprendi isso cedo, ainda criança, correndo pelos corredores do palácio e acreditando que as muralhas de pedra me protegeriam de qualquer coisa. Mas o vento não respeita fronteiras. Ele se infiltra pelas frestas, sussurra nos ouvidos e carrega segredos para aqueles que sabem ouvir.
Foi assim que descobri que meu pai planejava me casar com um senhor de terras ao sul. Na noite anterior ao anúncio, o vento deslizou por entre as cortinas do meu quarto e trouxe consigo palavras que escaparam do salão. Não havia como impedir. Eu não tinha voz. Apenas ouvidos atentos.
Mas o vento não sussurra apenas advertências. Às vezes, ele traz promessas.
Hoje, enquanto caminhávamos pela encosta da montanha, senti o mesmo sussurro antigo, carregando mais do que o cheiro de chuva distante.
Perigo.
— Lyria. — A voz de Arlen cortou o silêncio. Ele estava um passo atrás de mim, mas parecia ouvir o mesmo chamado invisível.
Não me virei de imediato. Meus olhos estavam fixos no horizonte, onde o céu se fundia em um cinza arroxeado. A tempestade se formava mais rápido do que esperávamos.
— Está mais perto do que deveria. — Minha voz saiu tensa. Arlen parou ao meu lado, analisando as nuvens distantes.
— Tempestades sempre vêm mais rápido quando estamos perto do Coração.
Ele dizia isso com a tranquilidade de quem lê um livro antigo pela milésima vez. Para Arlen, as correntes do céu eram familiares, quase como velhos amigos. Para mim, eram sombras rastejando atrás das colinas, espreitando.
— Se ela nos alcançar aqui, não teremos para onde correr.
Arlen tocou o medalhão em seu pescoço, distraído. Eu sabia que ele fazia isso sempre que estava nervoso.
— A tempestade não está atrás de nós — ele disse, após um momento. — Está nos guiando.
Aquilo deveria me confortar, mas apenas apertou o nó que crescia em meu estômago desde que saímos do último vilarejo.
Karlestava mais abaixo, amarrando o que restava de nossas provisões na sela do cavalo. Ele não parecia preocupado com a aproximação do céu em fúria. Nem mesmo quando uma rajada de vento derrubou o barril de água que tentava prender.
— Não confio no jeito que ele encara isso — murmurei, cruzando os braços.
— Ele é um pirata, Lyria. — Arlen lançou um olhar de soslaio para Kael. — Tempestades fazem parte da rotina.
— Talvez para ele, mas não para mim.
Virei-me, encarando Arlen de frente.
— Você não entende. Uma tempestade dessas não é como as outras. Ela carrega algo… maior.
Arlen me estudou. Não houve zombaria em seu olhar. Ele sabia que eu tinha razão, mas não diria isso em voz alta.
— Entendo mais do que você imagina.
Não respondi. O vento começava a ganhar força, e mesmo que Karlmantivesse os pés firmes, ele olhou para cima, franzindo a testa.
— Se vamos continuar, precisa ser agora. — Karlpuxou as rédeas do cavalo. — Não quero passar a noite exposto.
Ninguém discordou.
Caminhamos em silêncio por horas.
A montanha nos engolia pouco a pouco, e cada passo era uma lembrança de que não havia retorno. Eu sentia o peso do arco nas costas — um conforto familiar em meio ao desconhecido.
Costumava atirar em alvos de madeira nos jardins do palácio. Meu pai assistia de longe, orgulhoso da destreza da filha. Mas há uma diferença entre flechas que cortam o ar por esporte e aquelas disparadas quando sua vida depende disso.
Aprendi isso na primeira vez que encarei um soldado da Ordem dos Ventos Negros.
A lembrança fez meus dedos apertarem o cabo do arco.
— Estamos sendo seguidos.
Arlen parou. Ele não olhou para trás, mas vi sua mão deslizar até o punhal na cintura.
Karlsoltou um suspiro curto.
— Como você sabe?
— O vento está quieto.
Não sabia explicar melhor. Era um instinto, algo que vinha com anos de medo.
Karlolhou para o caminho deixado para trás.
— Não vejo nada.
— Não é algo que você possa ver. — Arlen falou baixo. — Lyria tem razão.
A floresta ao nosso redor parecia respirar conosco. Cada folha, galho, pedra… Tudo observava.
Karlbufou, mas manteve a mão na espada curta.
— Continuamos andando. Se alguém aparecer, resolvemos do nosso jeito.
Ele estava confiante, mas vi o suor escorrendo por sua testa.
— Lyria.
Arlen sussurrou meu nome e apontou discretamente para o topo das árvores. Meu olhar seguiu o dele.
E então eu vi.
Sombras aladas, deslizando entre as nuvens.
— Malditos… — murmurei.
— Grifos. — Arlen assentiu. — Eles patrulham as regiões próximas ao Coração.
Os grifos da Ordem não eram criaturas comuns. Criados em cativeiro, treinados para caçar e obedecer apenas aos ventos mais sombrios, seguiam seus mestres com lealdade cega.
— Estão nos procurando — disse Kael, estreitando os olhos. — Devemos nos esconder?
— Não adianta. — Arlen continuou andando. — Se pararmos, nos alcançarão mais rápido.
— Ótimo. — Karlsorriu, forçando despreocupação. — Nada como uma boa caçada antes de dormir.
Eu não sorri.
Seguimos em frente, mas o silêncio era diferente. Não era apenas o vento que se calava. Era a sensação de que cada passo nos aproximava de algo que talvez não estivéssemos prontos para enfrentar.
Quando paramos para descansar, a noite já havia se derramado sobre nós. As primeiras gotas de chuva começaram a cair.
Karlpreparou uma fogueira pequena. Arlen analisava o mapa encontrado na montanha.
Sentei-me perto do fogo, secando as pontas do cabelo.
— Acha que esse mapa realmente nos levará ao Coração?
Arlen ergueu os olhos.
— Se não acreditar, não há razão para estar aqui.
Karljogou um pedaço de pão seco para mim.
— Quando isso acabar, vamos rir em uma taverna.
Eu queria responder, mas o trovão engoliu as palavras.
O vento voltou, uivando como um animal libertado.
E no horizonte, os grifos nos encontraram.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 35
Comments