O vento foi a primeira coisa que senti.
Mas não era o vento comum, aquele que deslizava suavemente pela pele ou que impulsiona as velas dos barcos. Este era diferente. Ele não vinha do mar ou do céu — vinha de dentro, como se estivesse preso sob a terra por séculos, esperando por uma chance de se libertar. Era o tipo de vento que carrega em si o presságio de algo inevitável. E enquanto ele crescia, eu percebia que não estava apenas ao meu redor — estava em mim.
Era estranho sentir o vento dentro do peito, como se meus pulmões não se enchessem de ar, mas de algo mais denso, mais antigo. Ele percorria minhas veias, agitava meus pensamentos e despertava partes de mim que eu nem sabia que existiam. Havia algo se mexendo nas sombras do meu ser, algo adormecido, e agora estava acordando.
A luz do altar pulsava como um coração batendo devagar, cada batida enviando uma onda de energia que fazia as paredes da caverna vibrar. O ar parecia vivo. Eu queria olhar para a gema, mas a luz dela era forte demais, e meus olhos não conseguiam se ajustar. Então, eu apenas senti — e o que senti me fez querer fugir.
Lyria estava à frente, imóvel, mas eu sabia que sua mente estava acelerada. Ela era sempre a primeira a reagir, a primeira a disparar uma flecha, mas desta vez não havia inimigos visíveis. O que enfrentávamos não poderia ser derrotado com lâminas ou flechas. Era algo muito mais profundo.
Karl estava próximo, silencioso demais. Ele sempre brincava, sempre encontrava humor até nas situações mais sombrias, mas agora… agora ele estava tão imóvel quanto Lyria. Eu podia ver os músculos tensionados em seus ombros, o olhar rápido e atento como se esperasse um ataque a qualquer momento. Mas não havia nada para lutar.
A sensação dentro de mim crescia, como se o vento estivesse arranhando por dentro, buscando uma forma de escapar. Eu queria gritar, mas não conseguia. Queria correr, mas minhas pernas não se moviam. E então, aconteceu — uma parte de mim queria mais. Queria entender o que estava me consumindo. Queria saber por que o Coração da Tempestade parecia estar me chamando.
— Arlen.
A voz de Lyria foi um ponto de ancoragem no turbilhão. Eu me forcei a olhar para ela. Seus olhos dourados estavam próximos, cheios de preocupação. Ela estendeu a mão e tocou meu ombro, firme, mas gentil, como se tentasse me segurar antes que eu fosse levado por algo invisível.
— O que está acontecendo com você? — ela perguntou, mas eu não tinha resposta.
Minha boca se abriu, mas o que saiu foi apenas um suspiro trêmulo. O vento sussurrava coisas que eu não conseguia entender, como palavras perdidas em uma língua esquecida.
— Eu… não sei.
Lyria estreitou os olhos, tentando me ler. Ela sempre teve essa habilidade — ver além do que eu dizia. Seu olhar dizia que ela sabia que algo estava diferente. Que eu estava diferente.
Karl se afastou, murmurando algo enquanto passava as mãos pelas paredes de pedra, como se buscasse uma passagem secreta. Mas não havia saída. Nós estávamos presos ali, naquela caverna pulsante.
A luz do altar se intensificava. O vento dentro de mim também.
— Lyria… — comecei, mas parei. Eu não sabia o que dizer. Como explicar que o que eu sentia não era medo? Não era ameaça? Era… reconhecimento. Como se o altar e o vento fossem partes de um mesmo quebra-cabeça, e eu estivesse no centro dele.
— Arlen, olhe para mim. — Lyria se colocou na minha frente, forçando-me a encará-la. — Respire.
Eu tentei. Pela primeira vez, senti que o vento cedia. Ele não desaparecia, mas recuava, como uma fera que finalmente reconhece seu mestre.
— O vento… — sussurrei. — Ele está me guiando.
Lyria não respondeu, mas seus olhos brilharam com uma compreensão silenciosa. Ela sabia que eu não estava mentindo.
Karl , por outro lado, bufou, cruzando os braços.
— Ótimo. Primeiro fantasmas, agora o vento está falando com você. Eu disse que isso ia acontecer. Magia antiga, sempre nos metemos nisso.
Eu não o escutei. Meus olhos estavam fixos na gema. O vento dentro de mim ainda soprava, mas agora eu o sentia diferente — não como algo que me puxava, mas como uma corrente de ar que queria que eu seguisse.
— Lyria… Karl …
Eu não sabia explicar. Não sabia se deveria, mas as palavras saíram antes que eu pudesse detê-las.
— Eu preciso tocar a gema.
Karl arqueou uma sobrancelha, mas não disse nada. Ele me observava com a mesma expressão de sempre — uma mistura de ceticismo e lealdade. Lyria, porém, hesitou.
— Tem certeza?
Eu apenas assenti.
Com passos cuidadosos, aproximei-me do altar. A pedra brilhava, e a luz dela parecia chamar meu nome.
Minha mão tremia quando a ergui. Por um momento, temi que o toque desencadeasse algo que eu não pudesse conter, mas quando meus dedos finalmente encontraram a superfície fria da gema, o mundo pareceu se dissolver.
O vento explodiu ao meu redor, mas não me feriu. Ele girava, como uma dança caótica, mas eu estava no centro dela — intocado, em paz.
O altar desapareceu. Lyria e Karl se desvaneceram nas sombras.
Tudo o que restava era o vento.
E, pela primeira vez, eu entendi.
O Coração da Tempestade não era uma arma. Não era uma relíquia perdida.
Era parte de mim.
E naquele momento, soube que a verdadeira tempestade não estava ao meu redor.
Ela sempre esteve dentro de mim.
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Atualizado até capítulo 35
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