Capítulo 12 – Lembranças do Passado

Os dias que se seguiram à fuga da caverna foram marcados por um silêncio estranho. Daniel e Ethan se mantiveram em constante movimento, mudando de cidade em cidade, passando por vilarejos distantes e locais quase esquecidos. O objetivo era simples: evitar serem encontrados pela figura encapuzada, mas também continuar a busca pelos espelhos. Não havia sinais dela, mas Daniel sabia, assim como Ethan, que eles não estavam livres. A sombra daquela presença misteriosa sempre parecia os observar de longe, esperando o momento certo para aparecer.

Apesar de estarem fisicamente seguros, o peso das descobertas fazia a tensão entre eles aumentar. Daniel se sentia ansioso, imerso em uma confusão de pensamentos e dúvidas. Ele sabia que estavam perto de descobrir algo grande, mas o que? E por que ele, Ethan e até sua mãe estavam sendo puxados para essa teia de mistérios? Algo mais se escondia por trás dos espelhos, e ele sentia que a verdade os chamava como uma força invisível, conduzindo-os para onde quer que fosse.

Ethan, por outro lado, estava mais quieto do que nunca. Sempre que Daniel tentava puxar conversa, ele respondia com monossílabos ou mudava de assunto rapidamente. A cada novo local que visitavam, Ethan parecia mais distante, como se uma parte dele estivesse sempre em outro lugar, imersa em algo do qual Daniel não fazia ideia. Por mais que tentasse, Daniel não conseguia entender o que se passava com ele. Algo estava claramente errado, mas ele sentia que Ethan não confiava nele o suficiente para abrir seu coração.

Era tarde da noite, o acampamento estava montado perto de um rio, e as estrelas se refletiam na água com uma calma quase surreal. O fogo queimava suavemente, iluminando as sombras ao redor, mas havia algo no ar que não estava certo. Daniel, inquieto, olhou para Ethan, que estava deitado na lona com os olhos fixos no céu, mas claramente perdido em seus próprios pensamentos.

“Você está diferente, Ethan,” disse Daniel finalmente, sua voz quebrando o silêncio da noite. “Desde que saímos da caverna. Está tudo bem?”

Ethan não se mexeu de imediato. Por um momento, parecia que ele não iria responder. O silêncio se arrastou, carregado de tensão, até que, finalmente, ele suspirou profundamente.

“Eu nunca contei como me envolvi com tudo isso, não é?” Ethan disse, sua voz baixa e arrastada, como se o peso das palavras fosse demais para ele carregar.

Daniel balançou a cabeça, sentando-se mais perto dele. “Não. E acho que está na hora.”

E então, Ethan começou a falar, cada palavra carregada de dor, como se ele estivesse finalmente se desfazendo de algo que havia sido guardado dentro dele por anos.

 

A Confissão

“Quando eu era adolescente, tinha uma irmã mais nova. O nome dela era Alice. Ela era tudo para mim. Inteligente, curiosa, cheia de vida. Mas ela também era... diferente.”

“Diferente como?” Daniel perguntou, curioso e atento.

Ethan virou a cabeça para encará-lo, mas rapidamente desviou o olhar para o fogo, como se procurando coragem para continuar.

“Alice começou a ver coisas. Coisas nos espelhos. Primeiro, eram só sombras, como se estivesse vendo algo do outro lado, algo que não deveria estar ali. Então, começaram a aparecer imagens de lugares que ela nunca havia visitado, de pessoas que ela nunca tinha conhecido. Eu achei que fosse só imaginação de criança, algo passageiro. Mas não era. Eu vi com meus próprios olhos. E, a partir daí, as coisas nunca mais foram as mesmas.”

Daniel sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele sabia exatamente do que Ethan estava falando. Ele também vira coisas refletidas nos espelhos. Mas Alice... A irmã de Ethan parecia ser a chave para algo muito maior.

“Eu não acreditava nela no começo,” continuou Ethan. “Achava que era só coisa de criança. Mas um dia, quando ela tinha uns doze anos, tudo mudou. Nós estávamos brincando no sótão, onde ficava um espelho grande, um espelho antigo que tinha pertencido à nossa avó. Ela sempre ficava parada na frente dele, olhando fixamente. E um dia, ela me chamou. Eu estava rindo dela, querendo provocá-la, dizendo que ela estava inventando tudo aquilo, mas quando olhei para o espelho... Eu vi um lugar. Não era a nossa casa, nem um lugar que eu reconhecesse. Era uma sala enorme, vazia, com paredes cinzentas e símbolos estranhos no chão. Não parecia real, mas eu sabia que era. Eu sabia que era.”

Ethan fechou os olhos por um momento, como se tentando esquecer o que sentira naquela noite.

“Depois disso, comecei a acreditar nela. E nós passávamos horas no sótão, olhando para o espelho, tentando entender o que estava acontecendo. Mas Alice começou a mudar. Ela ficava cada vez mais obcecada com os reflexos, desenhava os símbolos que apareciam no espelho. Dizia que eles eram um mapa, que ela precisava decifrá-los. E, cada vez mais, ela ficava distante. Começou a falar sozinha, a murmurar palavras incompreensíveis, como se estivesse em um transe. Eu a tentei chamar de volta, mas parecia que ela já não estava mais ali. Ela estava em algum outro lugar, com algum outro propósito. Eu me assustava com ela, mas não sabia o que fazer.”

Daniel ouvia em silêncio, seus pensamentos girando. A conexão entre Alice e o que estava acontecendo com ele e com Ethan parecia óbvia, mas a história de Alice estava mais complexa do que ele imaginava.

“Uma noite, ela desapareceu. Ninguém sabia onde ela foi. Eu a procurei por toda a casa, mas não encontrei nada. Até que eu a encontrei no sótão, diante do espelho, mais uma vez. Ela estava em transe, como se estivesse conversando com alguém, mas não com a gente, com uma outra presença. Eu a tirei de lá à força, mas ela já não era a mesma. Dizia que algo a estava chamando. Algo do outro lado.”

Ethan respirou fundo, como se estivesse tentando aliviar um peso que nunca conseguiu carregar completamente.

“Depois disso, meus pais trancaram o espelho no porão. Mas eu sabia, Daniel... sabia que Alice estava perdida para sempre. Ela não estava mais no nosso mundo. Os médicos disseram que ela estava doente, que era apenas um transtorno psicológico. Mas eu sabia que havia algo muito maior por trás disso. E eu precisava entender.”

Daniel sentiu um nó na garganta. Ele sabia que Ethan estava contando uma história que parecia ter sido guardada há muito tempo. E, agora, ele compreendia melhor as motivações de Ethan, sua obsessão com os espelhos, sua busca incansável por respostas.

“E, agora, estou aqui,” Ethan disse, sua voz tremendo. “Tudo isso... começou com Alice. E eu não posso deixar que o mesmo aconteça com você, Daniel. Não posso perder você também.”

Daniel ficou em silêncio por um longo momento, processando as palavras de Ethan. Ele sabia que essa história estava longe de terminar. Eles ainda tinham muito o que descobrir, mas uma coisa era certa: o que quer que estivesse acontecendo com os espelhos estava profundamente ligado ao passado de Ethan. E, agora, a busca deles se tornava ainda mais urgente.

“Eu não vou a lugar nenhum, Ethan. Estamos nisso juntos,” Daniel disse, com mais firmeza do que se sentia...

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Atualizado até capítulo 33

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