A manhã chegou com um brilho incomum. O céu estava limpo, de um azul intenso, e o sol aquecia os telhados e ruas da cidade. Era como se, por um momento, o peso que Daniel carregava tivesse sido suspenso. Ele se sentia leve, algo que não acontecia há muito tempo.
Decidiu que precisava sair novamente, mas desta vez, sem o medo constante que parecia persegui-lo. Caminhou até o centro da cidade, onde uma feira de rua acontecia. O som de risadas e conversas animadas enchia o ar, acompanhado pelo aroma doce de churros e café fresco. Daniel sentiu algo quase esquecido: uma centelha de normalidade.
Enquanto passeava pelos estandes, sentiu-se atraído por uma banca de livros usados. Os volumes eram antigos, com capas desbotadas e bordas amareladas pelo tempo. Ele pegou um exemplar de capa dura que parecia ter sido manuseado por inúmeras mãos. O título, "O Outro Lado do Espelho", o fez hesitar por um momento. Mas, em vez de se sentir alarmado, ele sorriu. "Coincidência", pensou.
“Você gosta de histórias misteriosas?” perguntou o vendedor, um homem idoso com um chapéu gasto. Ele tinha olhos brilhantes, cheios de uma curiosidade juvenil. “Esse livro é fascinante. Fala sobre como nossos reflexos podem nos enganar.”
Daniel riu, balançando a cabeça. “Parece que todos os caminhos me levam a espelhos ultimamente.”
O vendedor apenas o observou com um sorriso enigmático. Daniel agradeceu e decidiu comprar o livro, pensando que, pelo menos, seria uma distração interessante.
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Mais tarde, Daniel encontrou Ana no café que ambos costumavam frequentar. Ela parecia radiante, com um sorriso caloroso que iluminava o ambiente. Depois de semanas de interações tensas e silêncios cheios de significado, a conversa entre eles fluiu com facilidade.
“Parece que você está melhor hoje,” ela comentou, enquanto mexia o café com a colher. “Finalmente decidiu dar um tempo para si mesmo?”
“Algo assim,” respondeu Daniel, com um pequeno sorriso. “Hoje o mundo parece... mais leve.”
Eles passaram horas conversando sobre coisas banais: filmes, música, viagens que nunca fizeram. Pela primeira vez, Daniel sentiu-se desconectado de tudo o que o vinha assombrando. Foi como se, por um instante, ele pudesse ser apenas ele mesmo, sem o peso do passado ou os mistérios que pareciam envolvê-lo.
Quando a tarde começou a cair, Ana sugeriu uma caminhada até o parque. O lugar estava vivo com famílias fazendo piqueniques, crianças correndo atrás de pipas, e casais sentados em bancos sob as árvores. Daniel absorvia a cena, sentindo-se parte de algo maior, algo simples e bonito.
“Você já pensou em como seria se tudo fosse só... normal?” Ana perguntou, enquanto chutava levemente algumas folhas caídas no caminho.
Daniel olhou para ela e riu. “Todo dia. Mas acho que nunca fui muito bom em ter uma vida comum.”
Ana parou, virando-se para ele com um olhar sério, mas carinhoso. “Você merece isso, sabia? Um pouco de paz. Não precisa carregar o mundo nas costas o tempo todo.”
As palavras dela o tocaram profundamente. Talvez ela estivesse certa. Talvez ele precisasse deixar algumas coisas para trás e se concentrar no presente.
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Quando o sol começou a se pôr, eles se despediram. Daniel voltou para casa com uma sensação boa, quase feliz. Ele colocou o livro que comprara na mesa, sem sequer abri-lo, e foi tomar um banho. A água quente o relaxou, e ele se sentiu grato por aquele dia diferente.
Enquanto se preparava para dormir, seus olhos caíram sobre o livro novamente. Algo nele parecia chamá-lo, uma inquietação que ele não conseguia ignorar. Decidiu abri-lo, mais por curiosidade do que qualquer outra coisa.
Ao virar as primeiras páginas, encontrou uma dedicatória escrita à mão, em letras pequenas e inclinadas:
"Para Daniel. O que você procura está mais próximo do que imagina. Mas cuidado: nem tudo que reflete a verdade é confiável."
Daniel congelou. Seu coração começou a bater mais rápido, e ele leu a frase novamente, como se tentar interpretá-la pudesse mudar o significado.
“Como...?” murmurou, sentindo uma onda de náusea. Ele fechou o livro com um estalo e olhou ao redor da sala, como se esperasse que alguém surgisse das sombras.
A sensação de normalidade que havia dominado seu dia desapareceu em um instante. O que aquilo significava? Como o vendedor sabia seu nome? E quem havia escrito aquela dedicatória?
De repente, ele percebeu algo no espelho da sala. Não havia nada incomum à primeira vista, mas quando se aproximou, notou que seu reflexo parecia... diferente. Uma leve distorção, quase imperceptível, mas lá. Sua respiração ficou pesada, e ele começou a suar.
“É impossível,” sussurrou, tentando afastar a ideia absurda de que o reflexo o observava com uma intensidade que ele não conseguia compreender.
No silêncio absoluto da casa, ele ouviu algo que parecia um sussurro, vindo de algum lugar muito próximo.
"Daniel... volte ao começo."
E então, o espelho trincou.
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Atualizado até capítulo 33
Comments
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Super envolvente! 🤩
2024-12-15
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