O sol ainda estava baixo no horizonte quando Daniel acordou, com a sensação de que não havia dormido. Seu corpo estava exausto, mas a mente, implacável, não lhe dava descanso. O livro azul estava aberto sobre a mesa, como se estivesse aguardando que ele o tocasse novamente, mas Daniel não conseguia se convencer de que queria saber mais. Ele se sentia arrastado para uma espiral de mistério e medo que ele não sabia como controlar.
Lá fora, o mundo parecia continuar sua marcha indiferente. As ruas ainda estavam vazias, os carros ainda passavam com a mesma rotina mecânica, mas no interior de Daniel, algo estava quebrado, como se ele tivesse tocado um ponto sensível, algo que há muito tempo estava enterrado. Ele não sabia se era o livro ou a sensação crescente de que algo de seu passado estava prestes a ser revelado, mas sentia que não podia mais fugir.
Enquanto tomava um café, seus olhos vagaram pela sala, parando nas fotografias emolduradas que haviam ficado no canto da estante, ocultas pela poeira e pela falta de atenção. Daniel se levantou, sentindo o peso de cada passo, e pegou uma delas. A imagem mostrava um menino sorridente, de cabelo escuro e bagunçado, com uma expressão travessa. Ele estava com uma menina, uma garota de longos cabelos castanhos, com um sorriso iluminando seu rosto. Estavam em frente ao que parecia ser o parque de diversões da cidade.
Daniel reconheceu a foto imediatamente: ele mesmo. E a menina ao seu lado era Clara, sua irmã mais velha.
Havia algo incomum naquelas memórias. Ele sabia que tinha sido uma criança feliz, cheia de energia e curiosidade. Clara sempre cuidava dele, protegia-o com um carinho que ele não entendia na época. Eles eram inseparáveis, quase como se sua conexão fosse algo que transcendesse o simples vínculo familiar. Mas agora, ao olhar para a foto, ele não conseguia se lembrar do que aconteceu depois. Algo havia se perdido. Algo muito importante.
A imagem da foto se distorceu em sua mente, como se ele estivesse olhando para um reflexo turvo, onde as memórias se emaranhavam. De repente, ele se viu voltando para o parque de diversões. O cheiro de pipoca no ar, os sons distantes das risadas das crianças, o farfalhar das bandeirinhas coloridas ao vento. Era um lugar de diversão, mas também de alguma coisa que ele não conseguia entender.
Aos 10 anos, Daniel e Clara passaram uma tarde naquele parque. Era um lugar que sempre tinha sido especial para eles. Mas, naquela visita, algo deu errado.
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Era uma tarde quente de verão, o sol batia forte e o parque estava cheio. Eles haviam corrido por todo o lugar, brincado nas montanhas-russas e nos carrosséis, mas, no fim, acabaram se perdendo no labirinto de espelhos. Daniel adorava esse lugar. Cada espelho parecia distorcer a realidade de uma maneira nova, fazendo-o se sentir como se estivesse em um mundo paralelo.
Ele e Clara estavam se divertindo, rindo enquanto tentavam se encontrar em meio aos reflexos infinitos. No entanto, a diversão deles foi interrompida quando Clara desapareceu. Daniel correu pelo labirinto, chamando por ela, mas não a encontrou. O pânico começou a se instalar quando ele percebeu que estava perdido também. A sensação de estar cercado por espelhos, mas sem poder se ver, o fez sentir uma ansiedade crescente. Os reflexos estavam distorcendo suas emoções, amplificando o medo. Ele sentia que alguma coisa estava errada, mas não conseguia entender o quê.
De repente, ele ouviu um grito. Era Clara. Ele correu em direção ao som, passando por mais e mais espelhos, até que chegou à área onde o chão estava coberto por cacos de vidro. No centro, Clara estava caída, seu rosto pálido e seus olhos abertos em um estado de choque. Aquele grito... Aquela cena ficou gravada na mente de Daniel como uma ferida, algo que ele nunca conseguiu apagar.
Ele se aproximou dela com a mente atordoada, mas não conseguia entender o que havia acontecido. O vidro estava quebrado, e a mão dela estava sangrando. Ele não se lembra de ter tocado o vidro, mas sabia que algo terrível havia ocorrido ali. A figura de Clara, ensanguentada e inerte no chão, foi a última coisa que ele viu antes de tudo escurecer.
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Quando Daniel acordou, ele estava em casa, com os pais desesperados ao seu redor. Eles disseram que Clara tinha sido levada para o hospital e que o acidente tinha sido apenas uma tragédia sem explicação. Mas para Daniel, algo não fazia sentido. A lembrança do espelho quebrado, a dor no peito, a sensação de que ele tinha algo a ver com o que aconteceu, era como um peso constante sobre ele.
E então, algo ainda mais estranho aconteceu. Nos dias seguintes ao acidente, Clara se afastou dele. Ela não queria mais falar sobre o parque, não queria mais brincar com ele. E, por mais que Daniel tentasse, ela nunca mais foi a mesma. Como se uma parede invisível tivesse se levantado entre eles.
Ele tentava se convencer de que o acidente não era sua culpa. Mas, à medida que o tempo passou, algo o corroía por dentro. O que ele não conseguia entender era por que ele nunca havia conseguido lembrar exatamente do que aconteceu naquele dia. E por que, sempre que pensava em Clara, um sentimento de culpa e perda o tomava, como se ele tivesse falhado em protegê-la.
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Daniel fechou os olhos e deixou a lembrança consumir seu ser. Aquelas imagens estavam voltando, claras e dolorosas. Ele nunca havia falado sobre aquilo com ninguém, e o peso dessa culpa o havia acompanhado até a idade adulta.
Mas agora, com o livro e o sussurro constante em sua mente, ele sabia que havia algo mais. Algo que ele estava prestes a descobrir. E, à medida que o passado e o presente se entrelaçavam, Daniel começava a perceber que o espelho não mostrava apenas o que ele queria ver, mas o que ele precisava enfrentar.
E a verdade, por mais amarga que fosse, finalmente se aproximava.
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Atualizado até capítulo 33
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