Capítulo 3 – O Coração do Labirinto

Daniel saiu da cafeteria com passos apressados, o livro azul firmemente apertado contra o peito. O ar noturno estava pesado, como se o mundo inteiro tivesse segurado o fôlego. Ele tentou não olhar para as vitrines das lojas enquanto caminhava pela rua deserta, mas era impossível ignorar o reflexo da mulher que parecia segui-lo. Ela estava sempre ali, à espreita, um vulto borrado que desaparecia assim que ele se virava.

Seus pensamentos giravam em torno do bilhete e da pergunta que martelava em sua mente: O que era a noite do espelho?

Daniel não se lembrava de nada significativo envolvendo um espelho, mas a frase despertava um desconforto profundo, como se algo enterrado em sua mente estivesse tentando emergir. Ele entrou em seu apartamento, trancou a porta e correu para a janela para verificar se alguém o seguira. A rua estava vazia, exceto pela luz intermitente de um poste que lançava sombras alongadas pelo asfalto.

Tentando se acalmar, ele colocou o livro sobre a mesa e respirou fundo. É só coincidência, ele pensou, mas a ideia parecia frágil. O bilhete, o desenho da mulher, o nome dele no livro — tudo parecia conectado por fios invisíveis.

Ele abriu o livro novamente, desta vez com determinação, e continuou a leitura.

"Memórias não confiáveis são como labirintos: cada volta pode te levar para mais longe da saída."

A frase parecia ecoar em sua cabeça. À medida que lia, começou a perceber que o autor descrevia lugares e eventos que lhe eram estranhamente familiares. Havia menções a um prédio abandonado, uma escadaria em espiral e um espelho quebrado.

Na última página lida, havia um desenho: um labirinto intrincado com uma seta apontando para o centro. Abaixo do desenho, uma anotação escrita à mão dizia:

"Você já esteve aqui antes."

Daniel sentiu um arrepio. Ele sabia onde era.

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O prédio abandonado ficava na parte antiga da cidade, um local que ele evitava desde sempre sem motivo aparente. O simples pensamento de voltar lá o enchia de um medo visceral, mas algo dentro dele o empurrava a ir.

Ele pegou um casaco, colocou o livro no bolso e saiu para a noite fria.

A jornada até o prédio foi como entrar em um pesadelo. As ruas eram iluminadas apenas por postes distantes, e o silêncio parecia amplificado. Quando finalmente chegou, a visão do prédio fez seu estômago revirar. Era uma estrutura imponente, com janelas quebradas que lembravam olhos vazios. A entrada principal estava trancada, mas uma janela aberta no térreo parecia convidá-lo a entrar.

Com esforço, ele subiu pela janela e caiu empoeirado no chão de concreto. O interior estava mergulhado em escuridão, exceto por feixes de luz lunar que passavam pelas frestas. A atmosfera era sufocante, e o som de seus passos ecoava como um tambor.

Ao explorar, ele percebeu que o lugar era assustadoramente familiar. Um corredor longo o levou a uma escadaria em espiral, exatamente como descrito no livro. Cada degrau que descia parecia puxá-lo mais fundo em uma sensação de déjà vu.

No final da escadaria, havia uma porta dupla parcialmente aberta. Ele hesitou antes de entrar.

Dentro, encontrou uma sala ampla e desordenada, cheia de móveis velhos e um grande espelho encostado na parede oposta. O espelho estava coberto por um lençol branco sujo. Daniel se aproximou, com as mãos tremendo, e puxou o tecido.

O que viu no reflexo o fez cambalear para trás.

No espelho, havia uma versão distorcida de si mesmo. Seu reflexo tinha olhos fundos e vazios, e sua expressão era de puro ódio. Mas o mais aterrorizante foi perceber que não estava sozinho no reflexo. Atrás dele, a mulher da cafeteria o encarava, sorrindo de um jeito quase predatório.

Ele se virou imediatamente, mas a sala estava vazia.

“Daniel...”

A voz veio de todos os lados, baixa e fria como um sussurro no ouvido. Ele girou desesperadamente, tentando localizar a fonte, mas não havia ninguém ali. Então, o espelho começou a rachar, pequenas fissuras que se espalhavam como teias.

“Você não pode fugir da verdade”, a voz continuou.

O espelho explodiu, espalhando cacos por toda parte. Daniel levantou os braços para se proteger, mas sentiu um corte profundo na mão. Quando olhou novamente, o espelho estava inteiro, como se nada tivesse acontecido.

No chão, entre os cacos que pareciam reais demais, estava uma fotografia. Ele a pegou com cuidado e congelou.

Era uma foto dele, com a mulher ao lado. Ambos sorriam, como velhos amigos. Mas ele não fazia ideia de quem ela era.

Abaixo da foto, havia uma anotação:

"A noite do espelho foi só o começo."

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Comments

Muhamad Ali

Muhamad Ali

Me identifiquei tanto com a personagem principal, me senti acolhida.

2024-12-15

2

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Atualizado até capítulo 33

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