O vento forte soprava no alto dos penhascos enquanto Daniel olhava para o mar abaixo. As ondas colidiam contra as rochas com força, criando um som quase ensurdecedor, mas ele mal registrava isso. A mensagem que encontrara na torre ainda ecoava em sua mente: “O oceano encontra a verdade”. Era uma pista, clara o suficiente para deixá-lo intrigado, mas vaga demais para lhe dar qualquer certeza.
Ele olhou para o pedaço de papel mais uma vez, tentando decifrar algum detalhe que pudesse ter passado despercebido. A caligrafia parecia escrita às pressas, como se a pessoa que a fizera não tivesse muito tempo. Mas havia algo estranho: no canto inferior direito do papel, quase invisível, estava um pequeno desenho – um triângulo com um círculo no centro.
Ele já havia visto aquele símbolo antes. Não era no livro, nem na cabana, mas… onde? Daniel fechou os olhos, tentando puxar pela memória. Então, como uma rajada de ar frio, veio a lembrança: o símbolo estava estampado em um dos mosaicos da velha igreja abandonada da ilha, um lugar que os moradores evitavam há décadas.
O pensamento o fez hesitar. A igreja era envolta em histórias de maldições e superstições. Poucos ousavam entrar ali, e aqueles que entravam sempre saíam com um olhar vazio, como se tivessem visto algo que não poderiam explicar. Daniel não acreditava em lendas, mas depois de tudo que havia vivido, não podia mais ignorar as conexões. O símbolo tinha que significar alguma coisa.
Com um último olhar para o horizonte, ele desceu dos penhascos e começou a caminhar em direção ao centro da ilha, onde as ruínas da igreja o esperavam.
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A trilha até a igreja era estreita e coberta de vegetação. O sol já estava baixo no céu, e a escuridão começava a engolir o caminho à sua frente. O vento que antes o acompanhava agora parecia mais um sussurro, como se carregasse vozes antigas. Daniel tentou afastar o desconforto, mas era difícil ignorar a sensação de que estava sendo observado.
Quando finalmente chegou, a visão da igreja o fez parar. As paredes de pedra estavam cobertas de musgo, e a torre, que um dia devia ter sido imponente, agora era um monte de escombros. Portas de madeira podres pendiam de suas dobradiças, rangendo levemente ao vento. No entanto, mesmo em sua decrepitude, o lugar emanava uma aura de algo maior – algo que o fez questionar se deveria mesmo estar ali.
Ele respirou fundo e entrou.
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O interior era ainda mais sombrio do que ele imaginava. Os bancos estavam destruídos, espalhados pelo chão coberto de poeira e destroços. Os vitrais estavam quebrados, deixando entrar apenas pequenos feixes de luz que dançavam pelo espaço. Mas no fundo do salão principal, Daniel viu o que estava procurando: o mosaico.
Ele se aproximou, limpando a poeira que cobria as pedras com as mãos. Ali estava o símbolo: o triângulo com o círculo, exatamente como no papel. Mas havia mais. Ao redor do símbolo, inscrições em uma língua que ele não conhecia formavam um padrão intrincado. Daniel passou os dedos pelas letras, sentindo-se atraído por elas de uma maneira inexplicável.
“Você está mais perto do que imagina.”
A voz fez Daniel congelar. Ele girou rapidamente, mas não havia ninguém. A igreja estava vazia – ou pelo menos parecia estar. Ele tentou acalmar sua respiração enquanto analisava o espaço ao redor. Talvez fosse sua mente pregando peças. Ou talvez…
Antes que pudesse terminar o pensamento, algo chamou sua atenção no mosaico. Uma das pedras no centro, logo abaixo do símbolo, estava ligeiramente fora do lugar. Ele pressionou com cuidado, e a pedra afundou com um leve click. Um som de engrenagens ecoou pelo salão, seguido por um estrondo surdo.
Do lado esquerdo da igreja, uma abertura se revelou, onde antes havia apenas uma parede de pedra. Daniel hesitou. Tudo em seu corpo dizia para sair dali, para não continuar. Mas algo mais forte – talvez curiosidade, talvez o mesmo impulso que o levara até ali – o empurrou em direção ao túnel recém-revelado.
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O corredor era estreito e mal iluminado, mas ele conseguiu seguir com a lanterna que pegara na cabana. O cheiro de mofo era intenso, e as paredes estavam cobertas de marcas de mãos, como se alguém tivesse passado por ali tentando encontrar o caminho no escuro. Cada passo parecia ecoar, aumentando a sensação de que ele não estava sozinho.
Depois de caminhar por cerca de cinco minutos, o corredor se abriu em uma sala maior. No centro, havia uma mesa de pedra, e sobre ela, um objeto coberto por um pano envelhecido. Daniel se aproximou com cautela e puxou o pano, revelando algo que o deixou sem palavras: um espelho.
Mas não era um espelho comum. A moldura era intricadamente trabalhada, com símbolos semelhantes aos do mosaico. A superfície refletia, mas não mostrava Daniel. Em vez disso, ele viu uma cena: uma praia deserta, com o mar calmo e o sol se pondo no horizonte. Ao longe, um pequeno barco flutuava, quase invisível contra a vastidão do oceano.
Ele estendeu a mão para tocar o espelho, mas uma dor aguda atravessou sua cabeça no momento em que seus dedos encostaram na superfície. Ele caiu de joelhos, segurando a cabeça, enquanto flashes de imagens invadiam sua mente. Ele viu o livro, o farol, a cabana, o mapa… e viu um rosto que nunca tinha visto antes: uma mulher com olhos penetrantes e um sorriso enigmático.
“Daniel…” A voz dela parecia distante, mas ao mesmo tempo próxima, como se sussurrasse diretamente em seu ouvido. “O que você busca não é o que parece. Cuidado com quem confia.”
Ele abriu os olhos e olhou ao redor, mas a sala estava vazia. Quando voltou a olhar para o espelho, a imagem da praia desaparecera. Agora, ele via apenas o próprio reflexo – e atrás dele, algo que não deveria estar lá.
Um homem de terno escuro estava parado no corredor. Seu rosto estava parcialmente obscurecido pelas sombras, mas seus olhos brilhavam com uma intensidade assustadora. Daniel se virou rapidamente, mas não havia ninguém ali.
Seu coração disparou. Ele precisava sair dali.
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Correndo pelo corredor, Daniel mal conseguia pensar. Cada passo parecia levar uma eternidade, e o som de algo – ou alguém – o seguindo tornou impossível ignorar o pânico. Quando finalmente saiu da igreja, respirou fundo, tentando acalmar a mente.
Mas a sensação de ser observado ainda estava ali.
Ele olhou para o céu. As estrelas começavam a aparecer, mas sua atenção foi atraída para outra coisa: ao longe, no horizonte, a mesma praia que vira no espelho. Ela parecia diferente agora, como se estivesse esperando por ele.
Daniel sabia que aquilo não era uma coincidência. O próximo passo estava claro.
Mas ele também sabia que, a cada pista que encontrava, mais perguntas surgiam. E agora, mais do que nunca, ele sentia que estava sendo puxado para algo muito maior – algo que ele talvez não pudesse controlar.
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Atualizado até capítulo 33
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