A chuva não deu trégua durante o caminho para casa. Daniel apertava o livro azul contra o peito enquanto suas botas espirravam água suja pelas calçadas encharcadas. Cada passo ecoava em sua mente, misturado às palavras gravadas na contracapa do livro: "Ela está observando."
Ao chegar em seu apartamento, fechou a porta rapidamente, trancando-a e apoiando as costas contra a madeira como se quisesse barrar algo do lado de fora. Sua respiração estava acelerada, e ele sentia o coração batendo forte, mas não sabia se era pelo esforço da caminhada ou pelo medo crescente que o consumia.
Daniel colocou o livro sobre a mesa da sala e encarou-o por alguns segundos. Era apenas um livro, ele repetia para si mesmo. Não havia nada sobrenatural nele. Mesmo assim, algo parecia vivo naquele objeto, como se ele pulsasse em silêncio, chamando-o.
Após trocar as roupas molhadas por algo seco, ele pegou uma xícara de café para acalmar os nervos e voltou para o livro. Sentado no sofá, começou a folheá-lo com mais atenção.
As primeiras páginas não pareciam tão incomuns: um texto introdutório em tom filosófico sobre a fragilidade da memória e a complexidade dos sonhos. Era um livro que facilmente poderia estar em uma seção de autoajuda ou psicologia em qualquer livraria.
Mas, conforme virava as páginas, Daniel começou a notar algo estranho. Havia notas manuscritas nas margens, frases sublinhadas e símbolos desenhados que ele não conseguia decifrar.
"A memória é um espelho embaçado, mas o reflexo sempre revela algo importante."
Ele parou, sentindo um arrepio ao ler a frase. Era a mesma ideia que o bilhete encontrado na cafeteria havia sugerido.
As próximas páginas começaram a falar sobre lugares específicos: um parque de diversões abandonado, uma escadaria em espiral, um lago com águas escuras. As descrições eram detalhadas, quase obsessivas. Daniel sentiu um nó no estômago ao reconhecer algumas dessas referências. Ele já estivera nesses lugares.
Ao virar mais uma página, um pedaço de papel solto caiu de dentro do livro. Daniel o pegou com cuidado. Era um desenho feito a lápis, de traços finos e precisos. Mostrava a entrada de um parque de diversões com um portão enferrujado.
No canto inferior do papel, havia algo escrito:
"Você nunca deveria ter esquecido."
O coração de Daniel acelerou novamente. Ele tinha memórias vagas daquele lugar. Quando criança, costumava visitar o parque com a família. Mas por que isso estava no livro?
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A ansiedade o dominava enquanto continuava lendo. Cada página parecia descrever não apenas lugares, mas também eventos que ele sentia que deveria lembrar, mas que escapavam como fumaça. Os desenhos nas margens mostravam rostos familiares, detalhes que o faziam sentir que alguém o estava observando enquanto lia.
Em determinado momento, algo o fez parar abruptamente.
Uma página estava inteiramente preenchida por uma palavra escrita repetidamente:
"Espelho."
O termo aparecia dezenas de vezes, em caligrafias diferentes, como se várias pessoas tivessem contribuído para aquilo. No centro da página, no entanto, havia algo desenhado: um grande espelho com a moldura rachada, e, no reflexo, uma figura indefinida que parecia prestes a sair de dentro do vidro.
Daniel afastou o livro por instinto, respirando fundo. Ele tentou se convencer de que aquilo era apenas uma coincidência, uma brincadeira estranha de quem quer que tivesse possuído o livro antes. Mas a sensação de ser observado retornou com força.
Ele olhou ao redor do apartamento, cada sombra parecendo maior do que deveria. E então viu.
Na janela, em meio ao vidro embaçado pela chuva, um reflexo se formou. Era o rosto de uma mulher.
Daniel virou-se de imediato, mas não havia ninguém ali. Apenas sua sala vazia, iluminada pela luz fraca do abajur. Ele se aproximou da janela com passos cautelosos e tocou o vidro. Lá fora, a rua estava escura e deserta.
Ainda assim, a sensação de estar sendo observado não o deixava.
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Quando retornou ao sofá, algo no livro havia mudado. Ele tinha certeza de que o havia deixado aberto em uma página específica, mas agora estava fechado. Sua mão hesitou antes de abri-lo novamente.
A página em que caiu o fez congelar. Era uma ilustração detalhada de um homem sentado à mesa, lendo um livro. A semelhança era inegável: o homem no desenho era ele.
Abaixo da ilustração, uma frase estava escrita em tinta vermelha:
"Não olhe para trás."
Daniel sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Contra todos os seus instintos, virou lentamente a cabeça.
A sala estava vazia, mas ele ouviu algo. Um som baixo, quase imperceptível, como um sussurro vindo de algum canto da casa.
“Daniel...”
O sussurro gelou seu sangue. Ele largou o livro e correu para o quarto, trancando a porta atrás de si. Sentado na cama, tremendo, tentou respirar fundo.
O livro permanecia lá fora, sobre a mesa da sala. Mas Daniel sabia que a coisa mais assustadora naquela noite não era o livro. Era a sensação de que algo, ou alguém, estava ali com ele.
Ele ficou acordado até o amanhecer, esperando que a luz do sol afastasse os fantasmas que pareciam persegui-lo.
Mas, no fundo, ele sabia: aquela era apenas a primeira noite de muitas.
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Atualizado até capítulo 33
Comments
Mochi
Quero mais, quero mais, quero mais! 🤩
2024-12-15
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