Capítulo 10 – Onde um Reflete, o Outro Observa

A brisa noturna era fria e cortante quando Daniel voltou ao farol. O espelho que encontrara na igreja estava em suas mãos, embrulhado cuidadosamente no pano que o cobria antes. Ele mal percebia as ondas batendo contra as pedras lá embaixo; sua mente estava presa na visão daquele homem desconhecido, refletido no espelho.

Era impossível ignorar a sensação de que tudo estava prestes a mudar novamente. Ele acreditava estar chegando ao fim da sua busca, mas agora entendia que aquilo era apenas uma parte de algo maior.

Quando entrou no farol, iluminado apenas pela luz trêmula de sua lanterna, Daniel espalhou as pistas sobre a mesa, organizando-as com pressa. O diário, as anotações, os mapas, os desenhos do triângulo com o círculo – tudo parecia fazer parte de um enigma ainda não resolvido. Ele pegou o espelho e o colocou sobre a mesa, encarando a superfície reluzente.

Por um momento, não aconteceu nada. Ele se viu refletido, a expressão cansada e confusa em seu rosto. Mas então, lentamente, a superfície do espelho começou a mudar. A imagem tremeluziu, como uma televisão sintonizando um canal.

O espelho revelou uma sala – uma diferente da que vira antes. Era menor, com paredes cobertas por papéis e fotos pendurados em desordem. No centro da sala, uma mesa improvisada sustentava um caderno aberto, iluminado por uma única lâmpada pendurada no teto.

E lá estava ele novamente: o homem desconhecido.

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Daniel sentiu o estômago revirar ao vê-lo. O homem estava debruçado sobre o caderno, escrevendo algo com pressa. Atrás dele, um quadro de avisos estava coberto de anotações, mapas, e... fotos de Daniel.

“Não pode ser…” sussurrou Daniel, sentindo um calafrio percorrer sua espinha.

No espelho, o homem ergueu a cabeça como se tivesse ouvido algo, mas não parecia enxergar Daniel. Ele se levantou, segurando o caderno, e começou a falar, embora Daniel não conseguisse ouvir as palavras. O reflexo começou a tremular novamente, como se estivesse prestes a desaparecer.

“Espere!” Daniel gritou, sem pensar, estendendo a mão para o espelho.

Assim que seus dedos tocaram a superfície, a visão desapareceu, deixando apenas seu reflexo encarando-o de volta.

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Daniel passou as mãos pelo rosto, tentando organizar os pensamentos. Ele precisava encontrar aquela sala, mas por onde começar? Pegou o diário mais uma vez, folheando as páginas rapidamente. Não havia menção direta àquela sala ou àquele homem, mas uma frase destacada em letras maiúsculas chamou sua atenção:

"ONDE UM REFLETE, O OUTRO OBSERVA."

Ele repetiu a frase em voz alta, tentando extrair algum sentido. Refletir e observar… O espelho refletia, mas o que significava “observar”? E se aquilo fosse literal?

Daniel olhou para a superfície do espelho mais uma vez, dessa vez buscando detalhes na moldura intricada. Foi então que notou algo que não havia visto antes: no canto inferior esquerdo, gravado na madeira, estavam coordenadas.

Sem perder tempo, ele pegou o mapa da ilha que encontrara na cabana. Usando a lanterna para iluminar o papel, ele traçou as coordenadas até um ponto na parte leste da ilha, próximo à enseada.

“É lá,” murmurou, sentindo uma mistura de excitação e apreensão.

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A caminhada até a enseada foi longa e silenciosa. O som das ondas, antes reconfortante, parecia ameaçador no escuro. Daniel usava a lanterna para iluminar o caminho estreito, os pés afundando na areia a cada passo.

Quando chegou, encontrou uma pequena entrada de caverna escondida entre as rochas. O cheiro de sal e umidade era forte, e o som do mar parecia amplificado ali dentro.

Com cuidado, ele entrou. O interior era apertado, mas a luz de sua lanterna revelou marcas nas paredes – símbolos semelhantes aos que ele já havia encontrado antes. Seguindo o caminho sinuoso, Daniel chegou a uma sala aberta, onde algo familiar o esperava.

No centro, uma mesa improvisada segurava um caderno aberto. E nas paredes ao redor, fotos suas estavam coladas, algumas datadas de semanas atrás.

Seu coração disparou.

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Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, um barulho atrás dele o fez congelar. Daniel girou rapidamente, mas não viu nada além da escuridão.

“Quem está aí?” sua voz ecoou, misturando-se com o som das ondas.

Do outro lado da sala, uma figura saiu das sombras.

Era o homem do espelho.

Ele segurava um espelho semelhante ao de Daniel e parecia tão surpreso quanto ele. Por um momento, os dois ficaram em silêncio, estudando um ao outro.

“Você é real…” disse o homem, finalmente.

“Quem é você? Por que tem fotos minhas?” Daniel exigiu, apontando para as paredes.

“Eu… não sei exatamente como te explicar,” o homem começou, hesitante. Ele parecia tão confuso quanto Daniel, mas havia algo em seu olhar – uma mistura de exaustão e determinação. “Mas você e eu estamos presos na mesma coisa. Nós dois fomos escolhidos por esses espelhos.”

“Escolhidos? Por quem?”

“Eu não sei. Ainda estou tentando descobrir.” O homem deu um passo para frente, erguendo o espelho que segurava. “Mas o que eu sei é que isso não é só sobre nós dois. É muito maior.”

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Os dois começaram a conversar, trocando informações. O homem, que se apresentou como Ethan, estava investigando o mesmo símbolo e os mesmos artefatos há meses. Ele havia encontrado o primeiro espelho em uma cidade distante, levado até lá por uma série de pistas.

“Esses espelhos são como chaves,” explicou Ethan. “Mas cada um leva para um lugar diferente. Eu pensei que o meu era único… até que vi você.”

“E o que há no final disso tudo?” Daniel perguntou, frustrado.

“Eu ainda não sei,” Ethan admitiu. “Mas não acho que estamos nem perto do fim.”

Ele pegou um mapa e mostrou a Daniel algo que o fez prender a respiração: havia mais locais marcados ao redor do mundo.

“Se os espelhos estão conectados,” continuou Ethan, “então não somos os únicos. Há mais pessoas por aí, como nós.”

Daniel sentiu um nó na garganta. Tudo o que ele achava que sabia estava desmoronando. A ideia de que ele não era o único era ao mesmo tempo um alívio e uma ameaça.

“E agora?” perguntou Daniel.

Ethan o encarou com um olhar sombrio. “Agora, nós precisamos decidir até onde estamos dispostos a ir. Porque, seja lá o que for, isso não vai parar aqui.”

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Enquanto a conversa continuava, um som estranho ecoou pela caverna – como um rangido metálico vindo do fundo da sala. Ambos ficaram em silêncio, olhando na direção do barulho.

“Tem mais alguém aqui,” disse Ethan, com a voz baixa.

Daniel sentiu o sangue gelar. Seja lá o que estava acontecendo, ele sabia que a história não ia acabar assim...

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Atualizado até capítulo 33

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