Capítulo 4 – O Silêncio Dentro de Mim

Daniel não voltou para casa naquela noite. Ele ficou sentado no banco de uma praça próxima, segurando a fotografia entre os dedos sujos de poeira e sangue seco. A mente girava como uma roda descontrolada, fragmentos de memória e paranoia se misturando. Quem era aquela mulher? Por que ele não se lembrava dela?

A fotografia parecia quente ao toque, como se tivesse vida própria. Ele a virou e viu algo escrito no verso, em uma caligrafia irregular:

"Onde tudo começou. Você sabe onde me encontrar."

O local na foto não era difícil de reconhecer: o antigo parque de diversões no subúrbio da cidade. Ele estivera abandonado por anos, mas as lembranças de risadas infantis e luzes brilhantes o atormentavam desde a infância. Algo horrível tinha acontecido ali, mas Daniel nunca conseguira lembrar o quê.

Ele não queria ir, mas sabia que não tinha escolha.

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O parque estava ainda mais assustador à noite. Os portões enferrujados rangiam ao toque, e o vento fazia os balanços vazios rangerem como lamentos. Daniel entrou com passos lentos, segurando a lanterna do celular. Cada sombra parecia maior, cada som mais ameaçador.

No centro do parque, ele encontrou o carrossel, uma estrutura desbotada e coberta de poeira. Os cavalos tinham olhos rachados, e a tinta descascada os fazia parecer criaturas mutiladas. O carrossel parecia morto, mas ao se aproximar, Daniel ouviu um som baixo e repetitivo: uma música de caixinha.

Seu coração disparou.

No meio do carrossel, havia algo que não pertencia ao lugar: o livro azul. Ele estava aberto, e suas páginas pareciam frescas, como se tivessem acabado de ser escritas. Daniel se aproximou com cautela, a música aumentando a cada passo.

Quando chegou perto o suficiente para ler, percebeu que o texto estava mudando diante de seus olhos:

"Bem-vindo de volta, Daniel. Está pronto para lembrar?"

Antes que pudesse reagir, as luzes do parque se acenderam de repente, lançando sombras violentas sobre o carrossel e as atrações ao redor. Ele girou em todas as direções, mas não viu ninguém.

“Quem está aí?” ele gritou, sua voz ecoando pelo vazio.

Um riso baixo e feminino respondeu, vindo de algum lugar atrás dele. Ele se virou e viu a mulher da cafeteria sentada em um dos cavalos do carrossel. Ela o olhava com um sorriso calmo, quase carinhoso.

“Você demorou, Daniel. Eu estava começando a achar que você nunca lembraria.”

“Quem é você?” ele perguntou, a voz falhando.

“Eu sou a resposta que você está procurando. Mas, para isso, você precisa fazer sua parte.”

“Minha parte?”

Ela se levantou lentamente, o carrossel girando em movimentos lentos, apesar de não haver energia. “Sim. Você precisa lembrar a verdade. A verdade sobre o espelho.”

Ele balançou a cabeça. “Eu não sei do que você está falando!”

“Não sabe?” O sorriso dela desapareceu, e seus olhos se estreitaram. “Ou prefere não saber?”

De repente, Daniel sentiu uma dor aguda na cabeça, como se sua mente estivesse sendo invadida. Imagens começaram a surgir em flashes: ele, ainda criança, segurando a mão de alguém em frente a um espelho grande; um grito; vidro quebrando; sangue escorrendo.

Ele caiu de joelhos, segurando a cabeça, enquanto a mulher o observava com calma. “Você está tão perto, Daniel. Só mais um empurrão.”

A dor se intensificou, e então ele se lembrou.

A noite do espelho.

Ele era apenas um menino, brincando no parque com sua irmã mais velha. Eles estavam no salão dos espelhos quando começaram a brincar de esconde-esconde. Ele correu para se esconder atrás de um dos espelhos, mas escorregou e empurrou o vidro sem querer. A estrutura frágil caiu sobre a irmã, e o som do vidro se quebrando foi seguido pelo grito dela.

Daniel voltou ao presente, arfando e coberto de suor. Ele olhou para a mulher, que agora parecia mais familiar do que nunca.

“Você é...”

Ela sorriu. “Sim, Daniel. Sou eu.”

Era sua irmã.

“Mas... você está morta.”

Ela se aproximou, o rosto suavizando em algo próximo à tristeza. “Estou. Mas você precisa entender que isso não foi sua culpa.”

Daniel balançou a cabeça, lágrimas escorrendo. “Eu... eu a matei.”

“Não, Daniel. Você me salvou. A culpa é uma sombra que você criou. Agora, você precisa deixá-la ir.”

Antes que ele pudesse responder, a luz começou a desaparecer, e o parque voltou a mergulhar na escuridão. Ele ouviu a voz dela pela última vez, suave como o vento.

“Lembre-se, Daniel: o espelho não mostra o passado. Ele mostra o que você precisa ver.”

Quando a luz da lanterna voltou, o carrossel estava vazio, e o livro azul desaparecera. Daniel ficou ali por um longo tempo, sozinho, enquanto a verdade finalmente se assentava.

Ele não sabia se conseguiria se perdoar, mas pela primeira vez em anos, sentiu que podia tentar.

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Atualizado até capítulo 33

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