Daniel não voltou para casa naquela noite. Ele ficou sentado no banco de uma praça próxima, segurando a fotografia entre os dedos sujos de poeira e sangue seco. A mente girava como uma roda descontrolada, fragmentos de memória e paranoia se misturando. Quem era aquela mulher? Por que ele não se lembrava dela?
A fotografia parecia quente ao toque, como se tivesse vida própria. Ele a virou e viu algo escrito no verso, em uma caligrafia irregular:
"Onde tudo começou. Você sabe onde me encontrar."
O local na foto não era difícil de reconhecer: o antigo parque de diversões no subúrbio da cidade. Ele estivera abandonado por anos, mas as lembranças de risadas infantis e luzes brilhantes o atormentavam desde a infância. Algo horrível tinha acontecido ali, mas Daniel nunca conseguira lembrar o quê.
Ele não queria ir, mas sabia que não tinha escolha.
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O parque estava ainda mais assustador à noite. Os portões enferrujados rangiam ao toque, e o vento fazia os balanços vazios rangerem como lamentos. Daniel entrou com passos lentos, segurando a lanterna do celular. Cada sombra parecia maior, cada som mais ameaçador.
No centro do parque, ele encontrou o carrossel, uma estrutura desbotada e coberta de poeira. Os cavalos tinham olhos rachados, e a tinta descascada os fazia parecer criaturas mutiladas. O carrossel parecia morto, mas ao se aproximar, Daniel ouviu um som baixo e repetitivo: uma música de caixinha.
Seu coração disparou.
No meio do carrossel, havia algo que não pertencia ao lugar: o livro azul. Ele estava aberto, e suas páginas pareciam frescas, como se tivessem acabado de ser escritas. Daniel se aproximou com cautela, a música aumentando a cada passo.
Quando chegou perto o suficiente para ler, percebeu que o texto estava mudando diante de seus olhos:
"Bem-vindo de volta, Daniel. Está pronto para lembrar?"
Antes que pudesse reagir, as luzes do parque se acenderam de repente, lançando sombras violentas sobre o carrossel e as atrações ao redor. Ele girou em todas as direções, mas não viu ninguém.
“Quem está aí?” ele gritou, sua voz ecoando pelo vazio.
Um riso baixo e feminino respondeu, vindo de algum lugar atrás dele. Ele se virou e viu a mulher da cafeteria sentada em um dos cavalos do carrossel. Ela o olhava com um sorriso calmo, quase carinhoso.
“Você demorou, Daniel. Eu estava começando a achar que você nunca lembraria.”
“Quem é você?” ele perguntou, a voz falhando.
“Eu sou a resposta que você está procurando. Mas, para isso, você precisa fazer sua parte.”
“Minha parte?”
Ela se levantou lentamente, o carrossel girando em movimentos lentos, apesar de não haver energia. “Sim. Você precisa lembrar a verdade. A verdade sobre o espelho.”
Ele balançou a cabeça. “Eu não sei do que você está falando!”
“Não sabe?” O sorriso dela desapareceu, e seus olhos se estreitaram. “Ou prefere não saber?”
De repente, Daniel sentiu uma dor aguda na cabeça, como se sua mente estivesse sendo invadida. Imagens começaram a surgir em flashes: ele, ainda criança, segurando a mão de alguém em frente a um espelho grande; um grito; vidro quebrando; sangue escorrendo.
Ele caiu de joelhos, segurando a cabeça, enquanto a mulher o observava com calma. “Você está tão perto, Daniel. Só mais um empurrão.”
A dor se intensificou, e então ele se lembrou.
A noite do espelho.
Ele era apenas um menino, brincando no parque com sua irmã mais velha. Eles estavam no salão dos espelhos quando começaram a brincar de esconde-esconde. Ele correu para se esconder atrás de um dos espelhos, mas escorregou e empurrou o vidro sem querer. A estrutura frágil caiu sobre a irmã, e o som do vidro se quebrando foi seguido pelo grito dela.
Daniel voltou ao presente, arfando e coberto de suor. Ele olhou para a mulher, que agora parecia mais familiar do que nunca.
“Você é...”
Ela sorriu. “Sim, Daniel. Sou eu.”
Era sua irmã.
“Mas... você está morta.”
Ela se aproximou, o rosto suavizando em algo próximo à tristeza. “Estou. Mas você precisa entender que isso não foi sua culpa.”
Daniel balançou a cabeça, lágrimas escorrendo. “Eu... eu a matei.”
“Não, Daniel. Você me salvou. A culpa é uma sombra que você criou. Agora, você precisa deixá-la ir.”
Antes que ele pudesse responder, a luz começou a desaparecer, e o parque voltou a mergulhar na escuridão. Ele ouviu a voz dela pela última vez, suave como o vento.
“Lembre-se, Daniel: o espelho não mostra o passado. Ele mostra o que você precisa ver.”
Quando a luz da lanterna voltou, o carrossel estava vazio, e o livro azul desaparecera. Daniel ficou ali por um longo tempo, sozinho, enquanto a verdade finalmente se assentava.
Ele não sabia se conseguiria se perdoar, mas pela primeira vez em anos, sentiu que podia tentar.
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Atualizado até capítulo 33
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