Os meses que se seguiram à revelação da gravidez de Clara foram um verdadeiro teste para todos na casa dos Cunha. A tensão inicial ainda pairava sobre a família, como se cada um estivesse tentando encontrar seu lugar em meio à nova realidade. O ar pesado do início deu lugar a pequenos momentos de adaptação, mas o caminho foi tudo menos fácil.
Cleonice, a mais resistente a aceitar a situação, lutou consigo mesma. Por semanas, ela mantinha um comportamento distante, às vezes frio, enquanto tentava processar tudo o que havia acontecido. Porém, algo na visão constante da filha – vulnerável, mas também determinada a seguir em frente – começou a derreter a armadura que Cleonice erguera. A gravidez, que inicialmente parecia um escândalo, agora se apresentava como uma realidade inescapável, e ela percebeu que lutar contra isso não levaria a lugar nenhum.
Foi uma manhã tranquila quando Cleonice deu o primeiro passo em direção à reconciliação. Clara estava sentada à mesa da cozinha, descascando frutas para o café da manhã. Seus movimentos eram lentos, e ela estava absorta em pensamentos. A barriga, agora visivelmente arredondada, parecia um lembrete constante do novo membro que estava por vir.
Cleonice entrou na cozinha, carregando um pano de prato e com a expressão indecifrável que Clara já conhecia bem. Por um momento, as duas permaneceram em silêncio. Cleonice observava a filha com um misto de preocupação e curiosidade.
— Está comendo direito? — perguntou, finalmente, quebrando o silêncio.
Clara ergueu os olhos, surpresa pela pergunta, mas respondeu calmamente.
— Sim, mãe. Tenho seguido o que o médico recomendou.
Cleonice assentiu, aproximando-se um pouco mais. Seus olhos caíram sobre a barriga de Clara, e por um instante, um lampejo de ternura passou por seu rosto.
— Você... já sente ele ou ela se mexer?
Clara sorriu levemente, colocando a mão sobre a barriga.
— Às vezes. É estranho, mas bom ao mesmo tempo.
Cleonice ficou quieta por um momento antes de, hesitante, estender a mão.
— Posso... sentir?
Clara, surpresa, assentiu e guiou a mão da mãe até sua barriga. Por alguns segundos, Cleonice ficou ali, esperando, até que sentiu um leve movimento. Seus olhos se arregalaram, e algo mudou em sua expressão.
— É incrível. — murmurou, quase para si mesma.
Clara viu, pela primeira vez em meses, um brilho de aceitação nos olhos da mãe. Foi um momento pequeno, mas que representou um passo gigantesco para as duas.
Com o passar das semanas, Cleonice começou a se envolver mais ativamente na gravidez da filha. No início, eram perguntas pontuais sobre consultas médicas ou sobre a alimentação. Depois, passou a sugerir ideias sobre o enxoval, comentando sobre roupinhas e acessórios.
Uma tarde, enquanto Clara descansava no sofá da sala, Cleonice entrou com uma sacola nas mãos.
— Comprei algumas coisas. — Disse, um pouco hesitante, enquanto colocava a sacola sobre a mesa de centro.
Clara sentou-se, curiosa, e começou a tirar os itens da sacola. Pequenos macacões, sapatinhos e uma manta branca bordada apareceram diante de seus olhos.
— Mãe... — Clara começou, a voz embargada. — São lindos.
Cleonice desviou o olhar, como se estivesse envergonhada.
— Bem, eu achei que o bebê iria precisar.
Clara sorriu, segurando os sapatinhos em suas mãos.
— Obrigada, mãe. Isso significa muito para mim.
Cleonice não respondeu, mas ficou ali, observando a filha. No fundo, começava a sentir algo que não esperava: uma animação tímida pela ideia de se tornar avó.
Enquanto Cleonice lentamente se adaptava à nova realidade, Clara continuava contando com o apoio constante de Elisa, Renan e Cíntia. Elisa permanecia como a amiga fiel e confidente, ajudando Clara a lidar com os altos e baixos emocionais da gravidez. Ela frequentemente a acompanhava às consultas médicas, fazia companhia nos dias difíceis e trazia pequenos presentes para o futuro bebê.
— Não importa o que aconteça, eu estarei com você. — Elisa disse, em uma tarde, enquanto ajudava Clara a dobrar as roupinhas do bebê.
Renan também se manteve presente, oferecendo sua perspectiva pragmática, mas sempre carinhosa. Ele frequentemente aparecia na casa dos Cunha para conversar com Clara e garantir que ela não se sentisse sozinha.
— Você é mais forte do que imagina, Clara. — Disse ele, durante uma visita. — E não importa quem seja o pai, esse bebê vai ter todo o amor que precisa.
Cíntia, por sua vez, estava mais próxima do que nunca. Sempre atenta ao humor da irmã, fazia questão de arrancar sorrisos de Clara mesmo nos dias mais difíceis.
— Acredite, Clara, você vai ser uma mãe incrível. — Disse ela, certa vez, enquanto acariciava a barriga da irmã.
Certa noite, enquanto Cleonice e Roberto conversavam no quarto, ela finalmente admitiu algo que vinha sentindo há algum tempo.
— Sabe, no começo, achei que nunca fosse conseguir lidar com isso. — Disse Cleonice, sentando-se na beira da cama.
Roberto olhou para ela com atenção.
— E agora?
Cleonice suspirou, um leve sorriso aparecendo em seu rosto.
— Agora, estou começando a gostar da ideia de ser avó.
Roberto segurou a mão dela, sorrindo de volta.
— Isso é bom, Cleo. Clara precisa de você agora mais do que nunca.
Cleonice assentiu, sabendo que ele estava certo. Embora ainda houvesse muito a superar, ela sabia que daria o melhor de si para apoiar Clara e o bebê que estava por vir.
Enquanto Elisa, Renan e Cíntia permaneciam próximos de Clara, Sofia começou a se afastar. Ela mantinha uma cordialidade superficial, mas suas visitas se tornaram menos frequentes, e seus comentários mais distantes.
Renan foi o único a notar as pequenas faíscas de inveja que ainda habitavam em Sofia. Às vezes, um olhar mais demorado ou uma palavra mal colocada revelavam o que ela tentava esconder.
Mas Clara, envolvida em sua nova realidade, mal percebia o afastamento da amiga. Para ela, o que importava agora era o apoio que recebia das pessoas que realmente estavam ao seu lado.
Os meses haviam passado com sua dose de desafios e alegrias, e agora Clara estava na 20ª semana de gravidez. O momento de saber o sexo do bebê havia finalmente chegado, mas, em vez de descobrir ali mesmo na consulta, ela e Cíntia decidiram fazer algo especial: um chá-revelação. Para manter o mistério e tornar o momento ainda mais emocionante, Cleonice foi escolhida para guardar o segredo até o dia da festa.
Naquela manhã, a casa dos Cunha estava agitada. Clara e Cíntia se preparavam para a consulta, enquanto Cleonice parecia mais ansiosa do que o normal, embora tentasse disfarçar.
— Está pronta, filha? — Perguntou Cleonice, ajustando a bolsa no ombro e observando Clara, que colocava os sapatos.
— Mais ou menos. — Respondeu Clara com um sorriso nervoso. — Acho que nunca estive tão curiosa na minha vida.
Cíntia, sempre animada, entrou na sala com um ar brincalhão.
— Você não está sozinha nessa. Estou quase morrendo de curiosidade!
Cleonice riu, mas manteve o tom firme.
— Bom, vocês vão ter que esperar até o dia da festa. Não adianta tentar arrancar nada de mim.
Ao chegarem à clínica, Clara foi imediatamente chamada para o ultrassom. A médica, Dra. Lúcia, já havia sido informada sobre o plano e sorriu ao cumprimentá-las.
— Prontas para esse momento especial?
Clara deitou-se na maca enquanto Cleonice e Cíntia se acomodavam nas cadeiras ao lado. O gel frio foi aplicado sobre a barriga de Clara, e, em poucos instantes, a imagem do bebê apareceu na tela.
— Olha só quem está aqui! — Disse Dra. Lúcia, ajustando o aparelho para mostrar o perfil do bebê.
Clara observava a tela com os olhos brilhando, sentindo uma mistura de amor e emoção crescer dentro de si.
— Ele ou ela está tão grande... — Murmurou Clara, encantada.
— Está crescendo muito bem. — Confirmou a médica. — E agora, com licença, vou pedir um momento a sós com a avó para revelar o grande segredo.
Cíntia bufou em tom brincalhão.
— Isso é tortura, Dra. Lúcia!
Todas riram, e Clara e Cíntia saíram da sala, deixando Cleonice e a médica sozinhas.
Dra. Lúcia virou-se para Cleonice com um sorriso conspiratório.
— Então, está pronta para saber o sexo do seu neto ou neta?
Cleonice assentiu, o coração acelerado. Quando a médica revelou a resposta, os olhos de Cleonice se encheram de lágrimas.
— É maravilhoso... — Disse ela, colocando a mão no peito.
— Agora é só guardar esse segredo até a festa. — Brincou Dra. Lúcia.
Cleonice riu e enxugou os olhos.
— Eu prometo que vou guardar.
Ao voltarem para casa, Cleonice estava visivelmente animada. Clara e Cíntia, por outro lado, estavam explodindo de curiosidade.
— Você sabe, mãe, não sabe? — Perguntou Cíntia, praticamente saltando ao lado da mãe enquanto ela retirava a bolsa.
Cleonice deu um sorriso misterioso.
— Sei.
— E... vai contar? — Insistiu Cíntia, esperançosa.
Cleonice riu, balançando a cabeça.
— Claro que não. Vocês vão descobrir junto com todo mundo na festa.
— Isso é maldade. — Disse Cíntia, cruzando os braços.
Clara, que havia se sentado no sofá, sorriu ao ver a mãe tão animada.
— Obrigada por fazer isso, mãe. É especial para mim.
Cleonice olhou para a filha, o coração apertando com emoção.
— É especial para mim também, Clara. Muito mais do que você imagina.
Nos dias seguintes, Cleonice mergulhou de cabeça nos preparativos para o chá-revelação. Escolheram as cores, os enfeites e o bolo. Ela parecia mais envolvida do que nunca, opinando sobre cada detalhe e até ajudando a confeccionar algumas decorações.
Certa tarde, enquanto ajustava uma fita azul e rosa em um dos arranjos, Cleonice parou por um momento e colocou a mão no coração. O apego que sentia pelo bebê crescia a cada dia.
— Você vai ser tão amado... — Sussurrou para si mesma, enquanto imaginava o futuro com o neto ou neta.
Roberto percebeu a mudança na esposa e comentou durante o jantar.
— Você parece estar se divertindo com isso, Cleo.
Ela sorriu, passando manteiga no pão.
— Não é só diversão, Roberto. É... esperança. É como se essa criança fosse trazer algo novo, algo bom para nossa família.
Roberto assentiu, compreendendo o que ela queria dizer. Cíntia, entretanto, não desistia de provocar a mãe sempre que podia.
— Vai dar uma dica pelo menos? — Perguntou ela enquanto Cleonice mexia em uma receita de biscoitos.
— Nem pensar. — Respondeu Cleonice, sorrindo.
— Você é um cofre, mãe.
— E assim vai continuar até o dia da festa.
Cíntia revirou os olhos, mas, no fundo, estava feliz em ver a mãe tão entusiasmada.
Clara, por sua vez, sentia-se grata pelo apoio crescente da família. Embora a jornada tivesse sido difícil, agora ela via sua mãe não apenas aceitando, mas abraçando completamente a ideia de ser avó.
E enquanto o grande dia se aproximava, o segredo permanecia seguro com Cleonice, que mal podia esperar para compartilhar a notícia com todos.
A noite começou animada na casa dos Cunha. Todos os amigos que acompanharam Clara na fatídica noite da boate haviam combinado de visitá-la. Elisa foi a primeira a chegar, carregando uma caixa de doces caseiros que ela própria havia feito. Logo depois, Renan apareceu com um suco especial que comprou no mercado, dizendo ser "perfeito para comemorar a futura chegada do bebê". Flávia veio por último, com um embrulho simples que escondia um par de meias de bebê amarelas, um presente modesto, mas que arrancou um sorriso sincero de Clara.
Cíntia ajudou a arrumar a sala, puxando cadeiras da cozinha e colocando almofadas extras no sofá. Clara, apesar de um pouco cansada, estava genuinamente feliz em receber os amigos. Era a primeira vez em semanas que ela se sentia à vontade para rir e conversar sem se preocupar com os problemas que a atormentavam.
— Finalmente todos juntos de novo! — Disse Elisa, enquanto colocava os doces na mesa de centro. — Fazia tempo que não tínhamos uma noite dessas.
Renan se sentou no sofá e levantou seu copo de suco como se fosse um brinde.
— Um brinde ao bebê mais sortudo que já conhecemos, porque vai ter a melhor mãe do mundo!
Todos aplaudiram e riram, enquanto Clara balançava a cabeça, um pouco envergonhada.
— Vocês são muito exagerados. — Disse ela, tentando disfarçar o sorriso.
A noite foi preenchida por brincadeiras e histórias. Renan, como sempre, era o mais animado do grupo, provocando todos à sua volta.
— E então, Clara, já decidiu o nome? — Perguntou ele, cruzando os braços como se estivesse pronto para julgar qualquer resposta.
— Ainda não. — Respondeu Clara, rindo. — Estou esperando o chá-revelação para pensar nisso.
Renan fez um gesto dramático de indignação.
— Inaceitável! Um bebê sem nome é um bebê sem identidade. Que tal "Renan Júnior"?
Cíntia gargalhou e apontou para ele.
— Renan, você é impossível.
Elisa entrou na brincadeira.
— Não seja modesto, Renan. Acho que ela deveria colocar "Elisa" se for menina. É um nome forte, elegante, e combina com o futuro dessa criança.
Clara riu, balançando a cabeça.
— Vocês estão terríveis hoje.
Flávia, que estava mais quieta, finalmente falou.
— E se for algo neutro? Tipo Alex ou Dani?
Renan virou-se para ela com uma expressão séria fingida.
— Flávia, não vamos arruinar a criatividade da Clara com sugestões tão simples. Essa criança merece um nome épico. Que tal... Astolfo?
Todos caíram na gargalhada, exceto Flávia, que apenas revirou os olhos.
— Você é ridículo, Renan.
— E é por isso que vocês me amam. — Respondeu ele, piscando para o grupo.
Depois das brincadeiras, as conversas ficaram mais profundas. Elisa puxou o assunto sobre os desafios que Clara enfrentaria como mãe solteira, mas não deixou de reforçar que estaria ao lado dela para o que precisasse.
— Clara, sei que não vai ser fácil, mas você tem a gente. Não importa o que aconteça, estamos aqui. — Disse Elisa, segurando a mão da amiga.
Renan concordou, erguendo o copo mais uma vez.
— Isso mesmo. Essa criança vai ter um tio Renan incrível que vai ensinar tudo o que precisa saber sobre a vida.
— Como o que não fazer na vida, você quer dizer. — Provocou Cíntia, rindo.
— Exatamente! — Respondeu Renan, com um sorriso.
Até Flávia, normalmente mais reservada, tentou oferecer algum conforto.
— Acho que, apesar de tudo, você está lidando muito bem com isso, Clara. Você é mais forte do que pensa.
Clara sorriu, sentindo-se genuinamente grata por ter pessoas tão incríveis ao seu lado.
Quando a noite chegou ao fim, os amigos começaram a se despedir. Elisa deu um longo abraço em Clara, prometendo voltar no dia seguinte para ajudar com os preparativos do chá-revelação. Renan deu um beijo na testa dela e saiu brincando com Cíntia sobre como ele era "o melhor apoio emocional do grupo".
Flávia foi a última a sair. Ela entregou um abraço curto, mas sincero, antes de ir embora.
Assim que Clara fechou a porta, o silêncio tomou conta da casa. A sala, antes cheia de risos e vozes, agora parecia vazia demais. Clara sentou-se no sofá, abraçando uma almofada, e sentiu uma onda de angústia invadi-la.
Por mais que tivesse se divertido, a realidade sempre voltava com força. O peso da gravidez, o futuro incerto e o constante pensamento sobre Leonardo preenchiam sua mente.
Clara se inclinou para trás, fechando os olhos, mas os pensamentos não paravam. Ela se perguntou, mais uma vez, se deveria contar a Leonardo sobre o bebê. Sabia quem ele era, o homem que mudou sua vida em uma única noite, mas não sabia como ele reagiria.
E se ele me acusar de estar mentindo?
O medo de ser humilhada publicamente a consumia. Leonardo era uma figura pública, um homem poderoso e respeitado. Ela imaginava os tabloides publicando histórias cruéis, a transformando em alguém que queria dar um "golpe da barriga".
Mas e se ele aceitasse? E se ele quisesse ser parte da vida do bebê?
Essas esperanças eram rapidamente esmagadas por suas dúvidas e inseguranças. No fundo, Clara não queria arriscar o bem-estar do filho em troca de um enfrentamento incerto.
— Não vale a pena. — Murmurou para si mesma.
Ela respirou fundo, levantou-se do sofá e subiu para o quarto.
No quarto, Clara trocou de roupa e deitou-se na cama. Olhou para o teto por alguns minutos, enquanto seus pensamentos finalmente começavam a desacelerar.
— Preciso focar no que posso controlar. — Disse a si mesma, baixinho.
Finalmente, o cansaço tomou conta, e ela adormeceu, ainda com o coração pesado, mas determinada a enfrentar mais um dia.
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Atualizado até capítulo 65
Comments
Nilceia Rodrigues Garcia
Gente honestamente estou achando o enredo bom. Mas está confuso. A autora tá focando muito em uns detalhes e pulando certos esclarecimentos necessários...
2025-01-07
13
Tatiana Mancebo Barros
acho que não é o mesmo Roberto golpista e pai da Clara, pq tem um momento que falaram que o pai do Leo falou que eles se conheciam a anos então certamente os filhos também teriam que se conhecer né?!
bem só uma ideia 💡 kkkkk
2025-01-13
1
Sara Niziato
acho que ela trabalha para a família da shopia como secretaria na empresa deles, e por isso a autora cita uma shopia se afastando dela
2025-01-15
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