Era uma manhã tranquila na espaçosa casa dos Arezzo. O sol iluminava suavemente a sala de estar, onde Maria arrumava a mesa com um café da manhã reforçado, e Arlindo lia o jornal, como fazia religiosamente todos os dias. Leonardo havia decidido passar o final de semana com os pais, algo raro desde que assumira responsabilidades cada vez maiores na empresa.
Enquanto Maria colocava a última bandeja de frutas na mesa, ela olhou para Leonardo, que parecia distraído, sentado no sofá, olhando para o jardim.
— Você está muito quieto, Leo. Alguma coisa te preocupa? — perguntou ela, com aquele tom maternal que nunca deixava de carregá-lo de culpa e conforto ao mesmo tempo.
Leonardo levantou os olhos e forçou um sorriso.
— Só pensando em tudo o que aconteceu na empresa recentemente.
Arlindo dobrou o jornal e tirou os óculos de leitura, colocando-os cuidadosamente sobre a mesa lateral.
— Ainda sobre o Roberto? — ele perguntou, a voz grave e direta.
Leonardo assentiu, cruzando os braços.
— Sim. Não foi fácil lidar com isso, mas conseguimos. Ele está oficialmente fora da sociedade.
Maria colocou uma mão no peito, preocupada.
— Eu sabia que havia algo errado com aquele homem. Sempre me pareceu... dissimulado. Mas como vocês conseguiram resolver isso? Ele era um dos sócios mais antigos, não era?
Arlindo interveio, explicando com clareza.
— Sim, Maria. Roberto era sócio desde o início, mas há meses venho notando discrepâncias nos relatórios financeiros. Quando trouxe isso à atenção do Leonardo, decidimos contratar uma auditoria discreta para confirmar nossas suspeitas. As evidências que encontramos foram suficientes para garantir que ele fosse afastado sem causar maiores danos à reputação da empresa.
Leonardo complementou:
— Tivemos que agir rápido e envolver advogados de confiança. Se algo disso chegasse à mídia antes de estarmos preparados, seria desastroso para a empresa. Mas conseguimos contornar tudo. Agora, estamos focados em estabilizar os investidores e recuperar a confiança que foi abalada.
Maria sentou-se ao lado de Arlindo, aliviada, mas ainda preocupada.
— Foi uma grande vitória, mas sei que isso deve ter sido um peso enorme para vocês dois.
— Foi. — Disse Arlindo, olhando para Leonardo com orgulho. — Mas o Leo lidou muito bem. Ele provou que está mais do que preparado para liderar.
Leonardo olhou para o pai, sentindo-se grato pelo reconhecimento, mas ainda carregava o cansaço da batalha recente.
Enquanto o café da manhã prosseguia, Maria olhou para o filho, como se estivesse avaliando o momento certo para falar algo mais pessoal.
— E como está Sofia em meio a tudo isso? Ela te apoiou?
Leonardo franziu o cenho e olhou para a xícara de café, claramente desconfortável com a pergunta.
— Mãe... Sofia não tem muito a ver com a empresa. Essas coisas não são o forte dela.
Maria trocou um olhar significativo com Arlindo antes de continuar.
— Não precisa entender de negócios para apoiar alguém, Leonardo.
— Ela me apoia. — Leonardo disse, mas o tom defensivo na sua voz era evidente.
Arlindo, sempre direto, entrou na conversa.
— Leo, sua mãe e eu já falamos sobre isso. Não temos nada contra a Sofia, mas...
— Mas o quê? — Leonardo perguntou, levantando o olhar.
Maria hesitou por um momento, mas decidiu ser honesta.
— Não sei. Algo nela simplesmente não me inspira confiança. Ela parece mais preocupada com status, com o que você pode oferecer, do que com quem você realmente é.
Leonardo ficou em silêncio por um momento, sentindo-se dividido entre defender Sofia e admitir que parte do que a mãe dizia fazia sentido.
— Ela tem as qualidades dela, mãe. Estamos juntos há três anos. Se não desse certo, já teria terminado antes.
Maria balançou a cabeça, colocando uma mão no braço dele.
— Relacionamentos não se medem pelo tempo, filho. Se você não sente que ela é a pessoa com quem pode compartilhar tudo, então talvez ela não seja a pessoa certa.
Leonardo desviou o olhar, mas Arlindo reforçou o ponto.
— Nós só queremos que você seja feliz, Leo. Mas tenha certeza de que está se casando pelos motivos certos. Não faça isso por pressão, conveniência ou porque acha que é o próximo passo lógico.
Leonardo bufou levemente, sentindo-se encurralado.
— Vocês estão sendo muito duros com ela.
Maria sorriu levemente, mas havia uma tristeza em seus olhos.
— Só estamos sendo honestos. E não queremos que você tome uma decisão precipitada. Casamento é para a vida toda, Leonardo. É uma parceria, e não vejo essa parceria entre vocês dois.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Leonardo sabia que eles estavam certos em algum nível, mas era difícil admitir isso até para si mesmo. Ele se levantou e começou a caminhar até a janela, olhando para o jardim com um suspiro profundo.
— Sei que vocês só querem o melhor para mim, mas esse é o meu relacionamento. Vocês precisam confiar que eu sei o que estou fazendo.
Maria e Arlindo trocaram olhares, mas não insistiram.
— Certo, filho. — Arlindo disse finalmente. — Só queremos que você seja feliz.
Enquanto a conversa terminava, Leonardo não podia ignorar as palavras dos pais. No fundo, sabia que também tinha dúvidas sobre Sofia, mas enterrá-las parecia mais fácil do que enfrentá-las.
A manhã avançava na casa dos Arezzo. Depois da conversa tensa sobre Sofia, o clima parecia ter se suavizado um pouco. Maria havia se retirado para o jardim, cuidando de suas flores, enquanto Arlindo voltou a ler o jornal na sala de estar. Leonardo permanecia pensativo, olhando para o horizonte através da janela ampla que dava para o quintal.
De repente, o celular de Leonardo vibrou em seu bolso. Ele o pegou e viu o nome de Sofia na tela. Respirou fundo antes de atender.
— Olá, Sofia.
A voz dela soou animada do outro lado da linha.
— Oi, meu amor! Como você está?
— Estou bem. Passando um tempo com meus pais. E você?
— Ah, que ótimo! Então, eu liguei para avisar que vou viajar por alguns dias.
Leonardo ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Viajar? Para onde?
— Vou para Paris com algumas amigas. Precisamos atualizar nosso guarda-roupa e aproveitar um pouco. Você sabe como eu amo a cidade.
Ele ficou em silêncio por um momento, processando a informação. Não era incomum Sofia fazer viagens repentinas, mas geralmente ela o informava com mais antecedência.
— Entendo. Quando você vai?
— Amanhã de manhã. Já está tudo planejado. Eu ia te contar antes, mas com toda a correria, acabei esquecendo. Você não se importa, não é?
Leonardo sentiu uma estranha sensação de alívio percorrer seu corpo. Uma parte dele estava feliz por ter algum tempo distante dela, mas ao mesmo tempo, sentia-se culpado por isso.
— Não, tudo bem. Aproveite a viagem.
Sofia pareceu não notar o tom distante.
— Ótimo! Quando eu voltar, podemos organizar algo especial para nós dois. Talvez um jantar ou uma pequena festa. O que acha?
— Claro, podemos pensar em algo.
— Perfeito! Preciso ir agora, mas nos falamos depois. Beijos!
— Até mais, Sofia.
Ele desligou o telefone e ficou olhando para a tela por alguns segundos. A indiferença que sentia o incomodava. Deveria estar chateado por ela partir tão repentinamente, mas ao contrário, sentia-se aliviado. Guardou o celular no bolso e suspirou profundamente.
Arlindo, que observava o filho à distância, percebeu a expressão em seu rosto.
— Tudo bem, Leonardo?
Leonardo virou-se, tentando disfarçar.
— Sim, tudo bem. Era a Sofia. Ela vai viajar por alguns dias.
Arlindo assentiu lentamente.
— Entendo. E você está confortável com isso?
Leonardo deu de ombros.
— Ela tem a vida dela. Não vejo problema.
Arlindo esboçou um leve sorriso.
— Se você diz.
Leonardo decidiu mudar de assunto.
— Estava pensando em ligar para o Gustavo. Não o vejo há algum tempo. Talvez possamos jogar golfe mais tarde.
— Boa ideia. É sempre bom passar um tempo com os amigos.
Leonardo pegou o telefone novamente e enviou uma mensagem para Gustavo, convidando-o para uma partida de golfe naquele dia. Quase imediatamente, recebeu uma resposta positiva.
Mais tarde, Leonardo dirigiu até o clube onde costumavam jogar. O dia estava claro, com uma brisa suave que tornava o clima perfeito para uma tarde ao ar livre.
Ao chegar, viu Gustavo já esperando perto do carrinho de golfe, vestido de maneira casual e com um sorriso no rosto.
— Leo! Já estava na hora de nos encontrarmos. Achei que tinha esquecido de mim.
Leonardo riu, apertando a mão do amigo.
— Nunca esqueceria de você, Gustavo. Só estive um pouco ocupado com os problemas na empresa.
— Sim, ouvi alguns rumores. Mas sei que você dá conta. Vamos jogar?
Enquanto se dirigiam ao primeiro buraco, Gustavo olhou para Leonardo com curiosidade.
— E então, como estão as coisas com a Sofia?
Leonardo suspirou, ajeitando a luva.
— Complicadas, eu acho. Ela vai viajar para Paris amanhã.
Gustavo levantou as sobrancelhas.
— Paris, é? E você não vai junto?
— Não. Ela decidiu ir com algumas amigas. Foi tudo muito repentino.
Gustavo deu uma risadinha.
— E você está bem com isso?
Leonardo o encarou por um momento antes de responder.
— Para ser honesto, sim. Talvez seja bom termos um tempo separados.
Gustavo balançou a cabeça, dando a tacada inicial.
— Isso não soa muito promissor para um casal prestes a se casar.
Leonardo observou a bola voar pelo campo antes de responder.
— Eu sei. Tenho pensado muito sobre isso.
— Sobre o casamento?
— Sobre tudo. — Leonardo admitiu. — Meus pais também expressaram preocupações sobre Sofia. Começo a pensar se estou tomando a decisão certa.
Gustavo apoiou-se no taco, olhando seriamente para o amigo.
— Leo, eu já te disse antes. Não faça isso por obrigação ou conveniência. Você merece alguém que te faça feliz de verdade.
Leonardo suspirou.
— Talvez você esteja certo. Mas como posso voltar atrás agora? Já estamos noivos, as famílias envolvidas...
Gustavo colocou a mão no ombro dele.
— A vida é curta demais para viver tentando agradar os outros. Pense no que é melhor para você.
Leonardo ficou em silêncio, refletindo sobre as palavras do amigo. A tarde continuou com eles jogando e conversando sobre assuntos diversos, mas aquela conversa permaneceu na mente de Leonardo.
Após o jogo, Leonardo despediu-se de Gustavo e dirigiu de volta para a casa dos pais. Ao chegar, encontrou Maria na cozinha, preparando o jantar.
— Como foi o jogo? — ela perguntou, sorrindo.
— Foi bom. Sempre é bom colocar a conversa em dia com Gustavo.
Maria percebeu a expressão pensativa do filho.
— Algo mais aconteceu?
Leonardo hesitou antes de responder.
— Só estou refletindo sobre algumas coisas, mãe. Nada com que se preocupar.
Ela se aproximou, colocando a mão no rosto dele.
— Sabe que pode conversar comigo sobre qualquer coisa, não sabe?
Ele sorriu levemente.
— Eu sei. Obrigado.
Enquanto subia para o quarto de hóspedes onde estava hospedado, Leonardo sentiu-se mais confuso do que nunca. A viagem repentina de Sofia, a conversa com Gustavo, as preocupações dos pais — tudo isso pesava em sua mente.
Deitado na cama, olhou para o teto, perguntando-se como chegara àquele ponto. Sabia que precisava tomar uma decisão, mas o medo das consequências o paralisava.
Talvez seja hora de repensar minhas escolhas, pensou, fechando os olhos e deixando-se levar pelo cansaço do dia.
...
A casa estava em completo silêncio. Leonardo estava deitado na cama de hóspedes, os olhos fixos no teto enquanto o som distante de um relógio marcava cada segundo que passava. Apesar do cansaço acumulado do dia, o sono parecia impossível. Ele se virava para um lado, depois para o outro, mas sua mente não parava.
Por que ainda penso nela? Ele se perguntou pela milésima vez.
A garota misteriosa que havia conhecido na boate continuava a rondar seus pensamentos. Ele não conseguia se lembrar claramente de seu rosto, mas tudo o mais estava gravado em sua memória. O sabor do beijo dela, o jeito que seus corpos se movimentaram juntos, a intensidade de uma conexão que ele nunca havia sentido antes. Era como se ela tivesse deixado uma marca indelével em sua mente, mesmo sendo uma estranha.
Leonardo passou as mãos pelos cabelos, sentando-se na cama. Olhou para o relógio no criado-mudo. Eram quase duas da manhã.
Talvez ela esteja lá de novo... pensou, levantando-se rapidamente.
Sem pensar muito, ele vestiu uma camisa preta e calças escuras, algo casual, mas elegante. Olhou para o espelho, ajeitando os cabelos, e respirou fundo.
— Isso é loucura... — murmurou para si mesmo, mas mesmo assim pegou as chaves do carro e saiu em direção à boate Kiss.
A cidade estava tranquila àquela hora, com poucas luzes e carros nas ruas. Leonardo dirigia com as janelas levemente abertas, o vento fresco da madrugada ajudando a clarear sua mente.
Ao chegar na boate, estacionou o carro e olhou para a fachada iluminada. Havia uma fila menor do que da última vez, mas o movimento ainda era considerável. Ele entrou sem dificuldades, cumprimentado pelos seguranças, e foi direto para o bar.
Pediu uma dose de uísque e se acomodou em uma das mesas próximas à pista de dança, onde tinha uma visão privilegiada do local. A música alta preenchia o ambiente, e as luzes coloridas criavam um efeito hipnotizante nas pessoas que dançavam.
Leonardo observava cada rosto, cada movimento, na esperança de reconhecer a garota que não saía de sua mente.
— Ela pode estar aqui... ou talvez não. — murmurou para si mesmo, tomando um gole do uísque.
O tempo passava lentamente. Ele permanecia ali, alternando entre o bar e a pista, mas ela não aparecia. Algumas mulheres tentaram puxar conversa com ele, mas ele as ignorou educadamente, mantendo o foco em sua busca.
A Frustração de uma Noite Perdida
Quando o relógio marcou quase cinco da manhã, Leonardo finalmente cedeu ao cansaço. Ele se recostou na cadeira, passando a mão pelo rosto, frustrado.
Por que estou fazendo isso comigo mesmo? pensou.
Ele sabia que era irracional. Conheceu aquela garota em uma única noite. Não sabia quem ela era, nem de onde vinha. Talvez ela nem se lembrasse dele, ou talvez não quisesse vê-lo novamente.
Com um último olhar pela boate, Leonardo se levantou e caminhou até a saída. A brisa da manhã o atingiu enquanto ele caminhava até o carro. O céu começava a clarear no horizonte, mas ele se sentia vazio.
Sentado ao volante, ele encostou a cabeça no banco, fechando os olhos por um momento.
— Isso não faz sentido... — murmurou para si mesmo.
Mas, por mais que tentasse convencer-se de que era melhor esquecer, ele sabia que não seria tão simples. Havia algo nela que o puxava, como se aquela única noite tivesse mudado algo dentro dele.
Sem outra escolha, Leonardo ligou o carro e dirigiu de volta para a casa dos pais, frustrado e ainda sem respostas.
Quando chegou em casa, encontrou tudo em silêncio. Estacionou o carro com cuidado e entrou pela porta da frente, tentando não fazer barulho. O relógio marcava seis da manhã, e o aroma suave do café já começava a se espalhar pela casa. Maria, sempre madrugadora, estava na cozinha.
— Leonardo? — Ela perguntou surpresa, ao vê-lo entrar.
Ele forçou um sorriso, tentando parecer normal.
— Não consegui dormir, mãe. Saí para dar uma volta.
Maria o observou com atenção, mas decidiu não pressioná-lo naquele momento.
— Quer um café?
— Por favor.
Enquanto Maria servia uma xícara, Leonardo se sentou à mesa da cozinha, ainda perdido em pensamentos. Ele sabia que precisava seguir em frente, mas algo naquela garota o puxava de volta, como um enigma que ele precisava resolver.
E, no fundo, ele sabia que aquela história estava longe de acabar.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 65
Comments
Déh✨
Oxe entendi foi nada ele não viu ela no outro dia como que não lembra do rosto dele,se ele parou para admirar ela antes de sair do quarto,aí esta história começou boa mais tá tendo algumas pontas soltas.
2025-01-12
0
Nilceia Rodrigues Garcia
o interessante é que ele lembra disso tudo mas não percebeu que ela era virgem?
2025-01-07
10
Neusa Mendes Messias
Será que o pai dela é o ladrão que roubou a Arezzo?🤔
2025-01-12
1