Clara abriu os olhos lentamente, sentindo o peso de uma dor de cabeça pulsante. O quarto onde estava era estranho, não era o seu, e a luz do sol atravessava a janela parcialmente aberta, iluminando o ambiente de forma suave, mas incômoda. O cheiro de lençóis limpos e álcool ainda pairava no ar, e ela tentou se lembrar do que havia acontecido, mas tudo era nebuloso.
Ela olhou ao redor, tentando reconhecer o lugar. Quando virou o rosto, viu um bilhete dobrado cuidadosamente sobre o travesseiro ao seu lado. Confusa, estendeu a mão para pegá-lo, mas, ao se mexer, sentiu um desconforto entre as pernas. Parou por um momento, franzindo o cenho, e puxou o lençol para se cobrir melhor. Foi então que percebeu que estava completamente sem roupas.
Seu coração acelerou, e ela ficou imóvel por alguns segundos. Segurando o lençol contra o corpo, sentiu o desconforto mais claramente. Era uma sensação diferente, como se algo tivesse mudado. Clara respirou fundo, tentando ignorar o pânico crescente. Lentamente, uma compreensão dolorosa tomou conta de sua mente: aquela tinha sido sua primeira vez.
Ela fechou os olhos com força, sentindo as lágrimas se acumularem, mas se recusando a deixá-las cair.
— O que eu fiz? — murmurou para si mesma, a voz embargada.
Pegou o bilhete com dedos trêmulos e leu as palavras cuidadosamente escritas:
"Desculpe sair antes de você acordar. Foi uma noite incrível, mas preciso resolver assuntos urgentes. Espero que nos encontremos novamente um dia. Leonardo."
Clara fixou o olhar naquele nome por alguns instantes. Leonardo. O rosto dele começou a surgir em sua mente: cabelos escuros, olhos penetrantes, um sorriso que parecia sedutor. Ela lembrou vagamente de tê-lo visto na pista de dança, de como ele a envolveu, de um beijo que parecia ardente. Mas depois disso, tudo se tornava borrado.
Ela respirou fundo, tentando processar os sentimentos conflitantes que a dominavam. Havia uma mistura de vergonha, arrependimento e até um pouco de raiva por não se lembrar completamente. Aquela não era a forma como ela imaginava sua primeira vez.
Depois de vestir suas roupas apressadamente e pagar o táxi até sua casa, Clara chegou à porta pouco depois do meio-dia. Assim que entrou, a voz de sua mãe ecoou pela sala.
— Clara Cunha! Você perdeu o juízo de vez? — Cleonice estava parada no meio da sala, com os braços cruzados e uma expressão de fúria. — Que horas são essas para chegar em casa? E sem dar notícias?
Clara fechou a porta atrás de si, respirando fundo antes de responder.
— Mãe, por favor... Eu não estou no clima para isso agora.
— Não está no clima? — Cleonice deu um passo à frente, a voz ficando mais alta. — Sabe o que eu passei essa noite inteira? Sem saber onde você estava, se estava viva ou morta? Clara, isso é irresponsável!
— Eu já disse que não quero falar sobre isso agora! — Clara respondeu, subindo as escadas rapidamente.
— Não vai fugir de mim, Clara! — Cleonice continuou, seguindo-a até o pé da escada. — Você acha que já sabe tudo da vida? Que pode sair por aí e fazer o que quiser sem pensar nas consequências?
Clara parou no meio da escada, segurando o corrimão com força. Ela sentiu as lágrimas ameaçarem cair, mas ainda assim virou-se para a mãe.
— Eu já estou lidando com as consequências, mãe. Você não faz ideia.
Cleonice franziu o cenho, percebendo o tom de dor na voz da filha, mas antes que pudesse responder, Clara subiu correndo até o quarto, fechando a porta atrás de si.
Poucos minutos depois, Cíntia bateu levemente na porta antes de entrar.
— Clara? O que aconteceu? Você não está bem.
Clara estava sentada na beira da cama, segurando o bilhete de Leonardo entre os dedos. Ela olhou para a irmã mais nova, seus olhos vermelhos de tanto segurar o choro.
— Eu... Eu acho que fiz algo terrível.
Cíntia sentou-se ao lado dela, segurando sua mão.
— Me conta.
Clara respirou fundo, sentindo a necessidade de desabafar.
— Eu fui para a boate com os amigos, bebi demais... Conheci um cara. Ele era... bonito. Dançamos, nos beijamos, e depois... tudo ficou confuso. — Ela fez uma pausa, engolindo em seco. — Quando acordei hoje, percebi que estava em um motel. E... aconteceu. Foi a minha primeira vez, Cíntia. E eu nem me lembro direito.
Cíntia ficou em silêncio, segurando a mão da irmã com força.
— Você sabe quem ele é?
Clara mostrou o bilhete.
— Leonardo. É tudo o que eu sei.
Cíntia leu o papel, franziu o cenho, mas não disse nada por um momento.
— E como você está se sentindo?
— Eu não sei. Confusa. Assustada. — Clara respondeu, apertando os olhos com as mãos. — Não era assim que eu queria que fosse.
Cíntia suspirou, puxando Clara para um abraço.
— Você não precisa lidar com isso sozinha. Estou aqui.
Clara assentiu, mas mesmo com o apoio da irmã, o peso daquela manhã parecia impossível de ignorar.
Sozinha no quarto novamente, Clara sentou-se na cama, encarando o bilhete mais uma vez. Seu coração estava apertado, cheio de perguntas sem respostas. Quem era Leonardo, afinal? O que ele significava?
Ela sabia que aquela noite ficaria marcada para sempre, mas ainda não entendia como aquilo mudaria sua vida.
Clara olhou para o bilhete de Leonardo uma última vez antes de colocá-lo dentro da gaveta do criado-mudo. Pegou sua bolsa, que estava jogada ao pé da cama, e procurou o celular. Assim que desbloqueou a tela, viu a enxurrada de notificações: dezenas de mensagens de seus amigos.
"Clara, onde você está?"
"Por favor, me diga que está bem!"
"Fiquei preocupada quando você sumiu da boate."
"Você está bem? Me responde logo!"
Clara suspirou, o coração pesado. Ela sabia que eles estavam preocupados, mas naquele momento, não tinha forças para lidar com todos. Depois de hesitar por alguns segundos, decidiu ligar para Elisa, sua melhor amiga e a única pessoa que achava que poderia entender.
— Elisa? — Sua voz saiu baixa, quase um sussurro.
— Clara? Meu Deus, onde você está? Todo mundo está desesperado! — Elisa respondeu, aliviada por finalmente ouvir a voz da amiga.
— Eu... estou em casa. — Clara respondeu, respirando fundo. — Preciso falar com você. Pode vir até aqui?
Elisa hesitou por um momento.
— Claro, mas só posso ir depois do expediente. Vou sair assim que terminar e corro para aí, tá?
— Obrigada, Elisa. — Clara disse, antes de desligar.
Ela colocou o celular ao lado e deitou-se novamente na cama, sentindo as lágrimas ameaçarem cair mais uma vez.
Pouco tempo depois, Clara ouviu uma batida suave na porta.
— Posso entrar? — Era a voz de sua mãe, Cleonice.
Clara hesitou por um momento, mas respondeu:
— Pode.
Cleonice entrou com uma bandeja nas mãos. Havia um prato com arroz, feijão, frango grelhado e uma salada simples. Ao lado, um copo d’água e um comprimido. Ela colocou a bandeja na mesa de cabeceira e sentou-se ao lado da filha.
— Você precisa comer alguma coisa. E esse remédio vai ajudar com a ressaca.
Clara olhou para a comida, mas não se moveu. Cleonice observou o semblante abatido da filha, e sua expressão endurecida de mais cedo suavizou-se.
— Querida, eu só quero entender. O que aconteceu ontem?
Clara abaixou o olhar, brincando com os dedos.
— Mãe, eu... não sei nem como explicar.
Cleonice tocou a mão da filha, seus olhos cheios de preocupação.
— Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?
As palavras da mãe foram a última barreira que Clara precisava para desmoronar. Ela começou a chorar, lágrimas silenciosas escorrendo por seu rosto. Cleonice rapidamente a puxou para um abraço, segurando-a firme contra o peito.
— Ei, tudo bem. Vai ficar tudo bem. — Cleonice sussurrou, acariciando os cabelos da filha.
Clara soluçou, tentando falar, mas as palavras não saíam.
— Eu só... não sei como consertar isso. — Ela disse entre lágrimas.
Cleonice não pressionou, apenas continuou abraçando-a.
— Você não precisa consertar nada sozinha, Clara. O que quer que seja, vamos superar juntas.
Clara fechou os olhos, permitindo-se ser consolada por aquele gesto maternal. Por mais que não conseguisse contar tudo para a mãe, a presença de Cleonice naquele momento era exatamente o que ela precisava.
Após alguns minutos, Cleonice limpou as lágrimas do rosto da filha com delicadeza.
— Coma um pouco, querida. E tome o remédio. Você precisa se cuidar.
Clara assentiu, ainda em silêncio. Cleonice beijou sua testa antes de sair do quarto, deixando-a sozinha novamente.
Clara olhou para o prato de comida e o remédio, tentando encontrar forças para se recompor. Por mais difícil que fosse, ela sabia que precisava enfrentar o que quer que viesse a seguir.
"Elisa vai saber o que fazer." Pensou, enquanto pegava o garfo e começava a comer lentamente.
Após comer e tomar o remédio que sua mãe havia trazido, Clara sentiu o corpo relaxar um pouco, mas sua mente continuava em um turbilhão. A cada instante, fragmentos da noite passada voltavam como flashes desconexos. Mesmo com o conforto da comida e do remédio, sentia-se esgotada emocionalmente.
Levantou-se devagar, o peso da situação refletindo em seus movimentos, e foi até o banheiro. Precisava de um banho para tentar aliviar o desconforto físico e mental que parecia não dar trégua.
Ao entrar no chuveiro, Clara ligou a água quente e deixou o jato escorrer pelo corpo. A sensação da água sobre sua pele era reconfortante, mas o incômodo físico não desaparecia. Sentia uma leve dor entre as pernas, um desconforto que só aumentava sua confusão.
Quando olhou para baixo, notou um leve vestígio de sangue escorrendo. Por um momento, ela ficou paralisada. Sua respiração ficou mais pesada, e um nó se formou em sua garganta.
"Então foi isso..."
A dor, o sangue e o desconforto deixaram claro o que já suspeitava: sua primeira vez havia acontecido na noite passada.
Encostou as mãos na parede do boxe, sentindo o peso daquela realização. Lágrimas começaram a escorrer misturando-se à água do chuveiro.
"Não era assim que deveria ser..."
Clara sempre imaginou sua primeira vez como algo especial, com alguém que conhecesse, confiasse e amasse. Não um borrão confuso de álcool, música alta e rostos desconhecidos. Sentia-se traída por suas próprias decisões, como se tivesse perdido algo importante sem sequer se lembrar de como aconteceu.
Ficou ali por vários minutos, tentando se recompor. Quando finalmente saiu do chuveiro, vestiu-se com roupas confortáveis e voltou ao quarto. Pegou o bilhete que Leonardo havia deixado e o releu pela décima vez.
"Leonardo. Marcante, confiante... Quem é você?"
Clara sabia que precisava conversar com Elisa. Se havia alguém que poderia ajudá-la a organizar os pensamentos e tomar uma decisão, era sua melhor amiga.
Quando Elisa chegou no início da noite, sua preocupação era evidente. Assim que entrou no quarto, correu para abraçar Clara, segurando-a com força.
— Clara, meu Deus, você está me deixando louca de preocupação! Me conta tudo, agora. O que aconteceu?
Clara hesitou, sentando-se na cama e abraçando um travesseiro. Sua voz saiu baixa, quase um sussurro:
— Eu... Eu não lembro de tudo.
Elisa sentou-se ao lado dela, segurando sua mão.
— Tudo bem, amiga. Conta o que você lembra.
Clara respirou fundo, tentando organizar os pensamentos.
— Eu estava na boate. Estava tudo normal... até ele aparecer. Ele me observava de longe. Era... marcante. Leonardo.
— Marcante como? — Elisa perguntou, inclinando-se um pouco mais, tentando compreender.
— Ele tinha cabelo escuro, olhos profundos, um sorriso confiante. Parecia saber exatamente o que estava fazendo. — Clara pausou, lutando para lembrar mais detalhes. — Ele se aproximou, começamos a dançar... e depois disso, minha memória se perde. A gente nem se apresentou um para o outro, só fomos para a cama como dois desconhecidos.
Elisa olhou para ela com preocupação crescente.
— E como você sabe o nome dele?
Clara pegou o bilhete no criado-mudo e o entregou para Elisa.
— Ele deixou isso antes de ir embora.
Elisa leu o bilhete, franzindo a testa.
— Leonardo... Será que ele é... Leonardo Arezzo?
Clara olhou para a amiga, confusa.
— Quem?
— Leonardo Arezzo. O CEO da construtora Arezzo, a maior do país. Clara, ele é super conhecido. Alto, cabelo escuro, olhar intenso... É ele?
Clara piscou, tentando fazer a conexão.
— Talvez. Não sei... pode ser ele.
Elisa passou as mãos pelo cabelo, claramente preocupada.
— Clara, o que aconteceu foi muito sério. Você estava bêbada, foi a sua primeira vez... E esse cara pode ser alguém muito influente. Isso complica tudo.
Clara abaixou a cabeça, as lágrimas voltando a se acumular em seus olhos.
— Eu me sinto tão estúpida, Elisa. Como eu deixei isso acontecer?
Elisa rapidamente segurou o rosto da amiga, obrigando-a a olhar para ela.
— Ei, para com isso. Você não é estúpida. Isso não foi sua culpa. Você confiou no momento e estava vulnerável.
Clara fungou, tentando se recompor.
— Mas e se ele... E se eu peguei alguma coisa? Ou se isso vazar?
Elisa apertou as mãos de Clara.
— Primeiro, precisamos garantir que você está bem. Você vai fazer exames, Clara. Vamos até uma clínica. É o primeiro passo.
Clara sentiu o nó no estômago apertar, mas sabia que Elisa estava certa.
— E se descobrirem?
— Ninguém vai descobrir nada. — Elisa respondeu com firmeza. — Eu vou com você. Estamos juntas nessa.
Clara respirou fundo, tentando absorver a determinação da amiga.
— Obrigada, Elisa.
Elisa sorriu levemente, mas sua preocupação era evidente.
— Vamos resolver isso, Clara. Um passo de cada vez.
Enquanto as duas se abraçavam, Clara não conseguia afastar a imagem do homem que mudara sua noite. Se ele realmente fosse Leonardo Arezzo, o que isso significaria para sua vida?
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 65
Comments
Meire
Você não ouviu sua mãe, ela sim é sua verdadeira amiga!
Viver e aproveitar a vida não é sair, beber e ficar beijando e se esfregando em desconhecido, agora linda seque com as consequências do seu ato!
2025-03-30
0
Nilceia Rodrigues Garcia
outra coisa que ficou mal explicada. Se foi a primeira vez dela? Não ficou esclarecido pela autora e o Leonardo não percebeu?
2025-01-07
3
Luisa Nascimento
Ah! se você soubesse tão qual essa sua amiga é invejosa e poderá se tornar uma cobra. posso até esta enganada. mas...😨😨
2025-02-12
0