Capítulo 08 • Antonella Rossi

Através da janela do meu quarto, observo a tarde se alongar vagarosamente no horizonte, o sol derramando seus últimos raios de dourado sobre a casa, enquanto me perco em minhas próprias reflexões.

Já se passaram dois dias desde que cheguei aqui e, desde então, tenho passado a maior parte do meu tempo trancada no quarto. Passei tanto tempo naquela prisão maldita que me adaptar à liberdade de ir e vir não tem sido simples.

É fascinante como atividades simples como passear pelo jardim ou até mesmo ler um livro se tornaram tão incompreensíveis para mim.

Além das enfermeiras que me visitam todos os dias para refazer os meus curativos, da psicóloga e do psiquiatra, tenho apenas a Rosa, a governanta da casa, como minha única interlocutora. É ela quem me informa sobre os horários das refeições, ou até mesmo trazê-las para o meu quarto, já que frequentemente não desço para me alimentar.

Desde que Diego me levou para sua casa, não o vi mais. Sempre reconheço sua chegada ao ver seu carro, o mesmo que me conduziu, passar pelos portões de ferro da propriedade. No entanto, evito cruzar seu trajeto, pois não quero ser um obstáculo além do necessário para ele.

Na noite passada, percebi quando ele entrou no meu quarto, provavelmente para verificar como eu estava. Mantive-me deitada na cama na mesma posição habitual, sem permitir que minha respiração mudasse, um reflexo do autocontrole que adquiri nos últimos anos. Suponho que ele não tenha percebido que eu estava acordada, pois, após alguns minutos, ele deixou o quarto e voltei a ficar sozinha.

Por um momento, ponderei a ideia de conversar com ele, já que desde que me retirou daquele local, criei uma relação de quase confiança. Digo quase, pois não consigo depositar total confiança em alguém que não seja eu mesma.

Após o que experimentei em minha própria casa, aprendi que no jogo da vida, a única regra é confiar somente em mim mesmo. Independentemente de ser familiar ou não, a traição pode surgir de onde menos se espera.

Por essa razão, preservo uma parte de mim longe de tudo e de todos.

Embora eu agora me considere uma pessoa "liberta", a sensação de solidão parece se intensificar. É como se a liberdade que obtive fosse uma prisão dourada, bela externamente, mas sufocante internamente.

As batidas suaves na madeira são interrompidas pelos meus pensamentos, seguidos pelo ruído da porta se abrindo.

– Filha, com licença – Rosa comunica ao entrar no quarto – Você tem uma visita – informa e meu coração dispara, o temor de que alguém possa estar à minha procura inunda cada parte do meu corpo.

Ao olhar pela janela do meu quarto, percebi um carro distinto, seguido por outros dois entrando na propriedade. Eu tinha certeza de que não era Diego, mas suspeitei que fossem guardas para a mudança de turno.

Com a possibilidade que começa a se formar em minha mente, meu coração acelera ainda mais.

Não, Diego não deveria ter permitido a vinda de Mário até aqui para me buscar, meu Deus, não quero mais viver naquela desgraça, ele prometeu que nunca mais permitiria que o mal se aproximasse.

– Visita? Quem é? – questiono, minha voz treme ao tentar ocultar a ansiedade que me consome internamente. No entanto, pelo semblante de Rosa, percebo que falho miseravelmente.

Rosa sorri com delicadeza, parece perceber minha inquietação e se aproxima, estendendo as mãos em minha direção. Instintivamente, retiro as minhas, escondendo-as atrás do meu corpo. Ela observa o meu gesto e o afeto que percebo em seu rosto, fazendo-me recuar. Assim, volto as mãos para a frente do meu corpo e permito que ela as segure. Só agora percebo o quão trêmula estava.

– Sim, querida, visitas. Não há necessidade de preocupação, trata-se de uma pessoa confiável.

Inspiro profundamente, tentando dominar as ideias confusas que ameaçavam me dominar.

– Quem é? – questiono, esforçando-me para conter o tremor na voz.

Rosa responde: – É a senhora Vittoria, esposa do Boss, e uma amiga. – Um suspiro de surpresa escapa dos meus lábios.

Recordo que Vittoria era a jovem que Mário pretendia assassinar quando eu o escutei e ele me deteve. Pensei que ele tivesse concluído seu plano e agora vejo que, se de alguma forma contribuí para sua sobrevivência, todo o meu sofrimento durante esses anos foi recompensado.

Embora a situação trágica que de alguma forma ligou nossas vidas no passado, sua presença me proporciona um misto de alívio e desconforto.

– Tudo bem, já estou descendo – respondo, esforçando-me para aparentar serenidade enquanto me arrumo para encontrá-la. Rosa deixa o quarto e, alguns segundos depois, com a respiração mais tranquila e as mãos menos tensas, desce as escadas. Meu coração ainda palpita, pois não sei o que esperar dessa visita imprevista.

Meus movimentos são devagar, sei que é para atrasar o instante do encontro. Quando chego ao final da escadaria, noto duas mulheres se levantando simultaneamente do sofá, seus olhos fixam-se em mim.

Como se fosse possível, meu coração bate mais rápido, a dúvida, a incerteza e o medo permeiam meu sangue. Não sei como proceder, desta vez, não apenas por receio ou insegurança, mas também por ter passado tanto tempo confinada em uma bolha que já não consigo me comportar de maneira natural na presença de outras pessoas.

Possivelmente todo esse período em que estive presa tenha me levado a encontrar na solidão um refúgio, onde apenas a minha presença é suficiente para encontrar tranquilidade.

Diego.

A imagem dele surge imediatamente na minha mente, pois ao seu lado também sinto segurança e tranquilidade.

– Olá! – exclamo com uma voz mais baixa do que esperava ao me aproximar do local onde elas se encontram.

Vittoria e a outra mulher me oferecem um sorriso caloroso, no entanto, consigo notar que seus olhos escondem um traço de preocupação.

Sinto segurança, atenção e sinceridade em seus olhos, o que me obriga a relaxar, mesmo que por um instante. Vittoria se aproxima de mim, estendendo as mãos num gesto de receptividade. Fico imóvel, observando suas ações, e, sem que eu consiga me mover, ela me agarra contra o seu peito, me envolvendo em seus braços.

– Antonella, querida, é um prazer finalmente conhecê-la. – Sua voz ao meu ouvido é suave, afetuosa, quase reconfortante. No entanto, não consigo não sentir um leve arrepio percorrer minha espinha devido à sua proximidade. – Eu queria ter vindo antes, mas Alessandro pediu que eu lhe desse um tempo para se adaptar. – Eu queria ter vindo antes, mas Alessandro pediu que eu lhe desse um tempo para se ajustar.

Engulo em seco e aceno com a cabeça sem saber o que dizer, tentando constantemente ocultar a ansiedade e o temor que ameaçam invadir cada parte de mim.

Não estou habituada a esse tipo de amabilidade, especialmente vinda de alguém envolvido com o mundo da máfia. Desde cedo, aprendemos que carinho e atenção são coisas que não devemos nos habituar.

– Compreendo que tudo isso deve ser extremamente desafiador para você, querida. Contudo, desejo que entenda que estamos aqui para auxiliá-la. Você já não se encontra mais só.

As suas palavras me afetam intensamente, e por um instante, consigo sentir um breve vislumbre de esperança. Possivelmente, estão sendo honestos, talvez, com o suporte dessas pessoas, eu consiga realmente iniciar a minha recuperação.

O pensamento desaparece na mesma proporção que surge. Como poderia me reestruturar ou começar novamente após tudo o que experimentei?

Não é possível!

Mário deixou uma marca indelével em mim, irreparável. O mal que ele me causou jamais poderá ser esquecido ou apagado. Mesmo que eu aprenda a gerir tudo o que experimentei, nunca serei capaz de esquecer ou me transformar em outra pessoa.

O que experimentei faz parte de quem eu me tornei.

– Agradeço, senhora – retorqui, tentando ocultar minha ansiedade enquanto mostrava respeito pela sua posição na família.

Assim como eu previ, a presença das duas mulheres me causa desconforto, não sei como me comportar perante elas.

– Por favor, me chame apenas de Vittoria, devemos ter aproximadamente a mesma idade - ela insiste, sorrindo e se distanciando um pouco. – Esta é Elena, uma amiga muito querida e protegida por Enrico - ela sussurra no final, como se fosse um segredo.

– Vittoria – Elena a repreende e se aproxima com um sorriso tímido, seus olhos castanhos refletindo uma certa curiosidade.

Sinto-me ainda mais ansiosa em frente a elas, elas aparentam uma relação de amizade e cumplicidade que me deixa confusa e ainda mais difícil é não saber o que elas esperam de mim.

– É um prazer conhecê-la pessoalmente, Antonella – Elena declara, com um tom de voz mais delicado que o de Vittoria. – Estava ansiosa para vir desde que Vittoria me convidou.

– Também é um prazer, obrigada – murmuro, sentindo-me deslocada na presença das duas mulheres.

Elas retornam ao sofá, eu me acomodo na poltrona e formamos um círculo quase perfeito, é quase como se estivéssemos à beira de organizar uma reunião.

Sinto-me como um peixe fora d'água, sem saber o que dizer ou como agir diante delas. Ambas não parecem ser pessoas más, porém, é impossível não me sentir intimidada na presença de outras pessoas, quando me habituei a viver sempre sozinha.

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Comments

goretti silva

goretti silva

ela desafiava o pai e agora não fala nada

2025-03-20

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1 Introdução
2 Prólogo • Antonella Rossi
3 Capítulo 01 • Antonella Rossi
4 Capítulo 02 • Diego Marchese
5 Capítulo 03 • Diego Marchese
6 Capítulo 04 • Antonella Rossi
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Atualizado até capítulo 49

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2
Prólogo • Antonella Rossi
3
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4
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5
Capítulo 03 • Diego Marchese
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Capítulo 04 • Antonella Rossi
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