O amanhecer ainda no hospital surgiu com uma tranquilidade enganosa. Eu previ a dificuldade que Antonella enfrentaria para se adaptar à nova situação, mas não estava preparado para observar seu olhar inseguro e perdido a todo momento.
Por favor, eu resisti a todos os meus instintos, permitindo que uma aparente tranquilidade se manifestasse, apesar da tempestade que se agitava em mim sempre que olhava para o rosto desolado da menina.
Depois do café da manhã com Antonella, me vi dividido entre a sensação de segurança e a necessidade de prosseguir com meus planos.
Desejei permanecer, ao menos neste primeiro dia de adaptação na minha casa, mas estava ciente de que precisava agir, correr contra o tempo para eliminar o verme, pois, de alguma forma, sei que é o elemento chave para que Antonella consiga prosseguir.
A garota teme o pai como se fosse o próprio demônio.
Logo após deixá-la minimamente confortável, ando rapidamente para fora de casa, com a mente repleta de pensamentos agitados.
A necessidade de capturar Mário se intensificou dentro de mim, agora não é apenas para o bem do clã ou para fazer justiça pelos atos de traição e violência que infligiu à família do nosso Boss. Foi por Antonella, a menina que assumi o compromisso de proteger e zelar.
Sempre que a vejo, percebo a sombra do seu passado tão violento quanto recente pairando em sua mente e em sua pele repleta de cicatrizes.
Caramba, os lábios da moça são um tormento para mim. Mesmo que as mínimas marcas dos furos realizados pela agulha sejam quase imperceptíveis à distância, não consigo desvincular minha mente da imagem de seus lábios costurados.
Por favor, aquela imagem me perturba demais. Eu, um homem habituado a assistir e participar das mais brutais sessões de tortura, sinto-me perturbado pela lembrança de Antonella quando a vi naquele local.
Possivelmente é por isso que me sinto encarregado de protegê-la, proporcionando-lhe um futuro sem o medo e a dor que a atormentaram durante os anos em que esteve subjugada ao verme.
No entanto, estou ciente de que Antonella só conseguirá se libertar totalmente do que a aprisiona quando Mário estiver sob nosso controle, algo que já deveria ter ocorrido há muito tempo.
O meu veículo avança velozmente pelas ruas de San Luca, enquanto me perco em minhas próprias reflexões. A cidade, com suas ruas de pedra que sempre dominei e percorria, repentinamente parece envolver-se numa atmosfera obscura e distinta, como se eu não conseguisse identificar nada além da ira que sinto e do desejo de vingança.
Estou tentando dominar meus impulsos, não posso me deixar levar pelos fantasmas que desconhecia e que agora me atormentam. Possuo um propósito: capturar e eliminar Mário. Nada me impedirá de chegar até ele.
Conforme me aproximo do centro da cidade, a tensão aumenta ao saber que Mário está por aí, escondido em algum lugar tão sombrio e fedido quanto ele. No entanto, tenho consciência de que isso não durará muito. Eu o localizarei, independentemente do preço que tenha que desembolsar.
Posteriormente, chego à companhia de Alessandro, onde temos um encontro agendado para resolvermos algumas questões pendentes.
Sem precisar me apresentar, já que Alessandro me aguarda, adentro o escritório dele e cumprimento-o com um aceno de cabeça. Ele me olha com atenção, seus olhos profundos parecem querer decifrar a minha alma.
Eu entendo a razão desse seu olhar, mas permaneço inabalável na minha escolha. Entendo que, assim como outros, ele acredita que manter Antonella ao meu lado só vai intensificar o odor da sujeira que nos cerca, mas não me importo, ela é minha para zelar e proteger.
– Fale! – Sou direto porque tenho certeza de que ele vai me encher o balde com asneira.
– Como se encontra a jovem? Como ela está se ajustando? – Conforme eu previa, ele é direto, confirmando que eu estava correto ao presumir quais eram seus pensamentos.
A questão de Alessandro não me surpreende, porém tento esconder minha ansiedade ao responder, pois tudo que envolve Antonella me tira da minha zona de conforto.
– Ela está se ajustando aos poucos, levará algum tempo até estar totalmente recuperada, ainda está em processo de recuperação do trauma. – afirmo, selecionando minuciosamente minhas palavras.
Alessandro concorda, demonstrando contentamento com a minha resposta.
– Bem, sei que você cuidará bem dela, mas por favor, não cometa nenhum erro, Diego. A menina já passou por muito sofrimento. – Seu olhar é sério. – Você acredita que ela pode nos fornecer alguma informação neste instante?
– Talvez. – Pondero. – Posso investigar para saber se ela tem conhecimento de algo relevante para nós.
Os seus olhos se prendem aos meus, transmitindo uma mensagem silenciosa: se eu não conseguir as respostas, ele as fornecerá, independentemente dos métodos que tenha que usar para isso.
– Vittoria deseja visitar a garota. Por favor, me informe quando é o momento mais apropriado. – Fico surpreso com essa informação.
De que maneira Vittoria se relaciona com Antonella?
– Por que motivo?
– Ela acredita que a jovem necessita de uma companhia feminina neste momento - dá de ombros - sabe como é, ela acredita que não somos aptos a lidar com tais situações.
– Compreendo – respondo, mantendo minhas opiniões pessoais sobre a influência de Vittoria na vida de Antonella.
Por algum motivo torto, acredito que sou o bastante para a recuperação de Antonella. No entanto, talvez Vittoria esteja certa e a menina necessite de uma presença feminina para proporcionar um conforto que não posso oferecer.
– Diego. Diego? Você está bem? – A voz de Alessandro me tira dos meus pensamentos, e abro os olhos para vê-lo parado ao meu lado, com olhos vigilantes observando o meu rosto.
Por acaso, estou tão distraído que nem percebi sua presença. Em meu favor, Alessandro pode ser tão inerte quanto um fantasma quando quer.
– Tudo bem, Alessandro – respondi, imprimindo uma neutralidade que não existe. – Estou apenas levando em conta algumas questões.
Alessandro entende o que estou dizendo, ele percebeu que, além das minhas obrigações com o clã, sinto-me devendo a Antonella a captura de Mário.
Atualmente, todos estão cientes de que Mário representa uma ameaça que não deve ser negligenciada. Sinto, mais do que nunca, a necessidade de capturá-lo o quanto antes, evitando assim que ele provoque mais prejuízos.
Quando se sentem ameaçadas, todos tendem a agir com menos prudência e cometer mais erros do que o habitual.
Nas próximas horas, focarei no verdadeiro motivo que me conduziu até este ponto, excluindo Antonella e Mário temporariamente do meu foco mental.
Após a conclusão da reunião, saio do escritório de Alessandro com o coração apertado, com a urgência de tudo o que está ocorrendo em nosso clã sobrecarregando minhas costas.
É necessário resolver rapidamente uma questão, desejo encontrar Mário tanto quanto quero proteger a menina, não só pelo bem do clã, mas também por Antonella.
Todos nós vivemos em ciclos, e para Antonella, esse ciclo só se encerrará quando Mário morrer. Somente então, ela poderá encontrar tranquilidade e prosseguir com sua vida.
Pensar em como ela prosseguirá após a captura do Mário me deixa preocupado, como agirei se ela decidir partir?
Nunca me apeguei a ninguém além do nosso chefe, dos subchefes do clã e de suas protegidas. No entanto, Antonella supera todos eles e não consigo compreender o porquê.
Enquanto conduzo em direção à minha própria empresa, as ruas de San Luca parecem cada vez mais escuras, com a necessidade de capturar Mário aumentando progressivamente, tornando-se um fardo insuportável.
Apesar dos meus esforços para me manter firme, uma sensação de inquietação permanece dentro de mim, como se o destino de Antonella estivesse sob meu controle, como se eu tivesse a responsabilidade de conduzi-la além das sombras onde se encontra.
Ao entrar na empresa, cumprimento os colaboradores que encontro, repasso a agenda diária para a minha secretária, analiso documentos e faço algumas transações financeiras para ocultar as pegadas da nossa organização.
Apesar de ter cumprido todas as minhas obrigações, a imagem do rosto marcado de Antonella permanece em minha memória, sua expressão desolada, ferida além do físico, oscilando como um lembrete constante do que devo fazer.
A tranquilidade de Antonella está atrelada a mim.
No período noturno, chego em casa com passos pesados, a mente ainda confusa com ideias desconexas. Tenho certeza de que Antonella está em algum lugar, provavelmente em seu quarto, talvez imersa em seus próprios pensamentos, talvez lutando contra os fantasmas do passado que a atormentam ou com receio do futuro.
Sinto-me quase um estranho em minha própria casa, incapaz de proporcionar o conforto e a segurança que ela necessita, pois entendo que esse conforto não está ligado ao aspecto financeiro, mas sim ao emocional, algo muito mais profundo e com o qual não estou acostumado a lidar.
Se eu tivesse a chance de aliviar um pouco o fardo que Antonella carrega, se eu pudesse proporcionar-lhe um raio de esperança em meio à escuridão que a envolve, independentemente do custo, eu o faria.
Independentemente do custo, eu lhe concederia o que fosse necessário sem hesitar. Por essa razão, tenho consciência de que preciso localizar Mário, agarrá-lo antes que seja tarde demais.
Mas como procederei?
Onde iniciar a busca?
Começa a surgir uma ideia em minha mente, uma ideia que poderia nos conduzir até ele ou nos trazer até ele.
É perigosa, arriscada. Caso algo dê errado, Antonella pode se encontrar em uma situação de risco ainda mais elevado. No entanto, não posso deixar que o receio de feri-la me impeça de agir, especialmente quando o seu destino, segurança e vida estão em jogo.
– Merda, esqueça essa ideia. – Deslizo a maçaneta do meu quarto e adentro o local irritado.
Não deveria ter passado pela minha cabeça essa ideia absurda, mas agora ela oscila como um bumerangue, mesmo que eu tenha consciência do quão absurda ela é.
Estou à procura de uma saída, outra opção.
Mário me convidou para dançar no além, mas ele não faz ideia de que posso ser ainda mais terrível que o próprio demônio.
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Atualizado até capítulo 49
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