Capítulo 01 • Antonella Rossi

Atualmente...

Os dias aqui se estendem como as correntes de ferro que me acorrentam. Já faz algum tempo que perdi a percepção do tempo, não consigo mais discernir entre o dia e a noite, cada instante é uma eternidade de angústia e desespero.

Desde que fui confinada nesta câmara gelada, onde apenas a escuridão me acompanha, a dor é o único sinal de que continuo viva.

Meu pai me introduziu aqui há tanto tempo que nem consigo lembrar quantos anos se passaram. Certamente, foram muitos. Ainda dói perceber que o homem que deveria me resguardar se transformou no meu mais feroz opressor.

Minha mente frequentemente me leva ao passado, recordando as recordações que me permitiram respirar. Recordo-me de, ainda na infância, ter aprendido que a Máfia sempre deveria prevalecer sobre qualquer interesse e que a fidelidade ao meu líder era mais valiosa do que o próprio sangue.

É irônico que essa mesma lealdade tenha me lançado nesse poço de angústia ao qual fui sentenciado.

Cresci em um contexto onde a infidelidade era punida com rigor e onde as relações familiares eram estendidas ao extremo pela cobiça, ambição e poder.

Meu pai, Mário, sempre se apresentou como uma figura distante e indiferente em nossa residência. Como líder da Máfia Italiana de maior importância, ele é temido e respeitado por todos que o conhecem.

No entanto, sob a aparência de autoridade, fidelidade e respeito, sempre se desvendou um homem impiedoso e impiedoso, pronto para sacrificar qualquer coisa para atingir suas metas pessoais.

Identifiquei o seu lado traidor e fui penalizada por isso. Desde a infância, presenciei as ações violentas e manipuladoras do meu pai, sem que ele expressasse qualquer sinal de arrependimento.

Minha mãe sempre se apresentou como uma mulher subjugada e vulnerável, incapaz de resistir ao controle de Mário. Ela se submetia à sua vontade, renunciando à sua dignidade pessoal em prol da suposta proteção da nossa família.

Vi-a padecer silenciosamente, seus olhos sem vida espelhando a melancolia de uma existência desperdiçada ao lado de um homem cruel. Simultaneamente, diante dos demais, ocultava seus sentimentos e emoções, exibindo apenas o que desejava que os demais percebessem.

Construíamos a família ideal, fiel ao seu líder e comprometida com os objetivos do nosso clã. Um espetáculo dirigido por Mário e fielmente seguido por todos os personagens que ele concebeu e moldou... menos por mim.

Magda e Magnólia, minhas irmãs, seguiram o exemplo de nossa mãe, aceitando seu destino com resignação e até mesmo com satisfação. Elas se transformaram em instrumentos nas mãos do nosso pai, seus corações endurecidos pela mesma crueldade que moldou a nossa casa.

Eu as amava, mas também tinha medo, pois entendia que sua fidelidade a Mário ultrapassava qualquer vínculo sanguíneo e até mesmo a Máfia, à qual fomos instruídas a servir e proteger acima de nossas vidas.

Então, eu era a rebelde que se recusava a se submeter às vontades do meu pai. Desde a juventude, questionei a autoridade de Mário, questionei suas escolhas ao notar que ele pretendia trair Alessandro e, num gesto de rebeldia e insanidade, questionei suas diretrizes.

Eu me tornei uma exceção em nossa casa, a única peça do seu jogo sombrio que ele não conseguia dominar.

A questão é que a minha insurgência teve um custo excessivo para mim, tornando-se agora algo que não consigo mais tolerar, por isso compreendi que não há mais alternativa.

Joguei a toalha... Abandonei a vida...

Quando descobri os planos do meu pai para matar a esposa de Alessandro, o nosso chefe da Máfia, estava ciente de que não podia me calar.

Declarar que revelaria todos os seus planos foi uma traição intolerável para Mário. O problema é que, internamente, eu tinha consciência de que não poderia permitir que meu pai cometesse um delito tão atroz.

Seria uma infidelidade séria e intolerável e, no final, todos nós seríamos penalizados por suas atitudes.

Confrontei-o, supliquei que abandonasse seus planos, mas ele se negou a me atender. Ao contrário, ele me confinou aqui, nesta câmara escura e gelada, me condenando a uma vida de tortura e angústia.

Agora, ao encarar mais um dia de sofrimento e desespero, um fragmento de mim anseia pela morte como uma forma de libertação. No entanto, uma parte mais forte e resoluta se recusa a abandonar a esperança. Às vezes, sinto um desejo de apagar essa tênue chama de esperança, mas não consigo.

O meu corpo sofreu tantas agressões que mal consigo recordar, tornando-me um objeto nas mãos de Mário; ele me despedaçou enquanto sorria para seus homens.

A primeira penalidade, os lábios costurados, se tornou um hábito. Eu percebia o prazer cruel ao ordenar que seus homens descosturassem para, meses mais tarde, prendê-los novamente.

Lutei o máximo que pude contra as amarras que me aprisionavam: as visíveis e as ocultas também. Desafiei a escuridão que tentou me consumir tantas vezes que já não consigo me recordar, mas agora não existe mais uma alternativa, não para mim, não após tanto tempo.

Agora, só anseio ardentemente pela morte como libertação, mas também estou ciente de que, mesmo nas profundezas do inferno, ainda existirão sentimentos de raiva e dor ardendo em meu interior. E, enquanto essa chama persistir, continuarei desejando que Mário pague pelos seus erros, independentemente do preço.

Os dias aqui são um turbilhão de sofrimento e angústia, uma repetição constante de aflição e temor. Em algumas ocasiões, questiono-me se um dia serei salvaguardada, se alguém me descobrirá nesta prisão obscura e me libertará.

A esperança a cada dia se torna mais tênue, uma luz minúscula batalhando para persistir na obscuridade do meu pensamento.

As paredes testemunham em silêncio toda a minha angústia. Elas guardam os segredos mais íntimos do meu espírito, os gritos sufocados da minha angústia, as lágrimas que secam antes mesmo de tocar o chão gelado.

Em algumas ocasiões, ao fechar os olhos, consigo me transportar para uma era mais simples, antes de me ver presa neste pesadelo sem fim. Recordo das minhas gargalhadas na infância, das histórias contadas em volta da lareira do meu quarto, das brincadeiras com minhas irmãs.

Atualmente, essas recordações são como fantasmas, desvanecendo gradativamente sob a pressão da minha realidade. Os flashbacks me atormentam, momentos de uma vida que eu gostaria de esquecer, pois é ela que me mantém viva.

É impossível esquecer o olhar frio de Mario quando me agarrou e me torturou em todas as ocasiões, o prazer estampado em sua face ao me desmantelar quando me viu como um obstáculo aos seus planos.

Recordo cada palavra cruel que você disse, os insultos e ameaças que me atingiram tão profundamente quanto a sua faca em outras ocasiões.

Mesmo com todo o meu sofrimento, por um período, existiu uma fagulha de esperança ardendo intensamente dentro de mim. Uma voz suave que murmurava ao meu ouvido, garantindo que, um dia, eu alcançaria a minha liberdade e que, quando esse dia chegasse, Mario arcaria com todas as suas ações.

Esperei por esse instante incerto por um período extenso demais. Agora, deixei para trás qualquer esperança que ainda existia em mim. Nos últimos dias, não estou comendo nem bebendo, e Mario voltou a costurar meus lábios como castigo pela minha falta de alimentação.

Não ligo mais para a dor.

Eu desisti!

Abandonei a mim mesmo, a vingança, tudo...

Até mesmo desejei a morte como um escape deste tormento sem fim.

Os desejos já não têm mais espaço em mim.

Em momentos de clareza e obscuridade, percebo o tempo passar devagar e, quando tudo parece sem solução, sinto que o momento chegou.

A perda, a redenção, a almejada liberdade...

Os passos ressoam nos corredores frequentemente vazios e me reconduzem à realidade. Não é a morte que almejei, mas sim o meu carrasco se aproximando e rompendo o silêncio opressivo que impera neste local.

A porta da minha cela é aberta com um impacto intenso e surdo, enchendo a sala com uma luz fraca. Não me mexo, permaneço na mesma posição: deitada, com as costas apoiadas no chão frio, mãos unidas ao peito, pernas estendidas e olhos fixos no teto, esperando o que está por vir.

Outra tortura... Mais um sofrimento... Mais uma dor... Talvez, finalmente o término.

Se aproximam passos decididos. Uma figura majestosa se posiciona ao meu lado. Pela sombra, reconheço que não se trata de Mário e suponho que seja um de seus guardas. Ainda não tomei nenhuma ação.

Esperando...

– Alessandro, você precisa descer aqui. – Ouço uma voz grossa, mas não é do homem que está parado ao meu lado, mas de alguém que está mais longe.

Minha mente busca entender quem é o indivíduo. Alessandro é a nossa autoridade máxima. Ele me encontrou? Identificou os planos de Mário? Será que ele foi assassinado?

– Trata-se da filha mais nova do infeliz. Ela está viva, Boss. – Uma vibração cada vez mais imponente permeia meu corpo. – Vamos seguir o mesmo destino dos outros? – A questão é fria e desprovida de emoção.

Talvez seja isso, seja o momento do castigo que eu sempre previ, todos nós seríamos penalizados pelos erros de Mário. Por fim, uma bênção após todo o meu sofrimento, o final que tenho ansiado nos últimos tempos.

– Ela não viria aqui se não fosse relevante para ele. – Uma voz terceira me alcança, parece que estamos isolados no espaço, sem Mário. Eu reconheço que essa voz é de Alessandro, pois o indivíduo ao meu lado o chamou de Boss. – Talvez ela possua alguma informação que possa nos auxiliar.

Quero declarar que não tenho conhecimento de nada, que vivi confinada nos últimos anos, que Mario me odeia tanto quanto a eles, mas permaneço em silêncio, esperando passivamente a sua decisão... a minha sentença final.

– Nessa condição? – O indivíduo murmura e se ajoelha ao meu lado. Lentamente, elevo a cabeça e o encara. Identifico o indivíduo, Diego, como um dos subchefes do clã. Recordo vagamente de tê-lo visto em algumas das poucas festas que frequentei. – Se quiser obter qualquer informação, precisamos subi-la, a garota necessita de assistência imediata.

– Hum, hum, hum. – Tento expressar-me, mesmo consciente de que não serei compreendida devido à costura nos lábios.

– Relaxe, eu vou te auxiliar – O homem fala com uma voz tão delicada que me causa surpresa.

Ele se move com destreza e, utilizando uma pequena navalha, remove as cordas que prendem meus lábios.

– Você... - sussurro com dificuldade - veio me socorrer. – Minha voz sai seca, com a garganta doendo devido à escassez de líquidos nos dias recentes.

– Menina, não sou o herói, trouxe a morte para sua casa. – Ele agarra meu corpo com força em seus braços, me erguendo do chão.

– Isso. – Insisto enquanto ele corre pelo corredor escuro e gelado que me protegeu nos últimos anos. – A morte – apenas o essencial, preservando o restante da minha energia. – É a redenção. Solicito sua compaixão, ansiando ardentemente pelo término da minha agonia.

Sem mais dor, sem mais tormentos, sem mais lábios costurados, apenas a tranquilidade que surgirá após o término.

– Puta que pariu. – Escuto seu murmúrio e cerro os olhos, me rendendo finalmente à escuridão.

Durante muito tempo, ansiei por ser salva, mas só agora compreendo que não posso salvar o que sobrou de mim.

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Comments

Nilvan Coiote

Nilvan Coiote

quanto sofrimento

2024-12-23

2

Adriacmacez

Adriacmacez

aí q dó 🥺
meu Deus 😭😭😭😭
Continua porfavorzinho PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS PLIS 🙏🙏🙏🙏🙏🙏🙏🥺🥺🥺🥺🥺🥺

2024-11-26

2

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