Alguns dias depois...
– Já está a caminho do hospital?
Mariano questiona quando nos distanciamos do contêiner carregado com armas, se amanhã será enviado para a costa sul do Pacífico, mais precisamente para o Chile.
– Sim!
Toco o bolso da minha calça para pegar o meu celular e enviar uma mensagem para Alessandro e os outros, informando que o transporte das armas foi concluído com êxito.
Envio a mensagem codificada ciente de que todos compreenderão e poderão prosseguir para que a mercadoria chegue ao destino final de maneira bem-sucedida.
Frequentemente, utilizamos mensagens cifradas para transmitir orientações e comunicar sobre atividades e encontros, prevenindo assim a interceptação por hackers contratados por máfias rivais ou até mesmo pela polícia. Embora saibamos que esta última, por estar incluída em nosso salário mensal, dificilmente nos causará problemas.
– Quando Antonella receberá alta?
– Ao que tudo indica, amanhã. – Respondo, e um arrepio percorre a minha coluna.
– Está certo de que levará ela para morar com você? – Mariano insiste. – Você sabe que não precisa fazer isso, nós podemos mantê-la em segurança.
Nos últimos dias, não apenas Mariano, mas Lucca, Alessandro e Enrico tentam fazer com que eu repensasse sobre a ideia de levar Antonella para morar comigo, mesmo que fosse temporariamente.
– Você sabe que eu sei, nem precisaria perguntar isso. – Abro a porta do carro, uma Lamborghini Urus. – Só que ficarei mais tranquilo sabendo que ela estará debaixo do meu teto.
– Você sabe que está à procura de sarna para se coçar, não é mesmo, meu amigo? – Ele levanta a sobrancelha com curiosidade.
Entro no veículo, soltando um suspiro antes de responder à pergunta que acabou de ser feita.
Mariano, juntamente com os outros subchefes do clã, são os mais próximos familiares que já tive na vida. Isso explica por que estão constantemente interferindo nos meus assuntos pessoais com seus conselhos inúteis, mesmo quando não solicito.
No entanto, ao contrário do que normalmente acontece quando somos alertados por todos de que estamos entrando em uma situação irreversível, desta vez sinto que preciso seguir meu instinto, mesmo que isso implique em contrariar as opiniões de todos.
– Antonella precisa de alguém para protegê-la, e eu serei essa pessoa. – Ele acena com a cabeça, reconhecendo a minha escolha e compreendendo que eu tenho consciência de todas as consequências dessa decisão. – Eu sei o que estou fazendo.
Sorri sarcástico.
– Finalmente, teremos mais um soldado morto no clã.
– Vai se foder, Mariano.
– Enrico, Alessandro, agora você – ele brinca. – Sobrou apenas eu e Lucca para mantermos nossa posição de comedores de boceta. é bom que obra mais.
– Enrico? – Levanto a sobrancelha.
– Ele foi o que se fodeu primeiro, apenas finge que não. Não admite nem pra ele mesmo. – Sorrio, concordando com a cabeça, porque realmente é verdade. Enrico vive num inferno, lutando contra si desde que reencontrou com Elena, a ex-mulher do seu irmão, vivendo na rua e pedindo esmolas com seus dois sobrinhos.
Tudo o que se sabe é que eles possuíam um relacionamento antes dela se envolver com seu irmão. Depois disso, passaram anos separados e Enrico só a encontrou recentemente, em meio a essa delicada situação.
Ele a resgatou das ruas e a levou inicialmente para a casa de Alessandro, onde permaneceu por poucos meses até Enrico ter um surto e levá-la para sua residência. Não entendemos como eles conseguem coexistir, pois sempre que estão juntos é como se uma bomba estivesse à beira de detonar tudo ao redor.
Em última análise, não é uma questão nossa. Embora estejamos constantemente vigilantes para evitar danos, cercamos apenas para evitar ações que ele possa se arrepender e não possa corrigir posteriormente. No fundo, acreditamos que é apenas uma questão de tempo até que eles se acertem... ou não.
– Vai lá... vai se encontrar com a sua ragazza. – Mariano me provoca dando um tapa de leve na lataria do meu carro.
Dou de ombros, consciente de que, de alguma forma, ele está certo. Estou ciente de que trazer Antonella para morar comigo representa uma enorme responsabilidade, que eu nem mesmo consigo estimar as consequências concretas.
No entanto, sinto que é o correto a fazer, que não posso deixá-la desprotegida após tudo o que aconteceu.
Conduzo silenciosamente até o hospital, com a mente inundada por pensamentos turbulentos, dúvidas e incertezas. Pela primeira vez na vida, não tenho tudo planejado, mas estou pronto para mergulhar nesse oceano de incertezas, pois desde que observei aqueles olhos azuis tempestuosos, percebi que não poderia me distanciar.
Nos dias recentes, tenho dedicado a maior parte do meu tempo livre a cuidar de Antonella, tentando auxiliá-la em sua recuperação. No entanto, ela permanece em silêncio, com poucas palavras saindo de seus lábios desde que despertou.
Embora eu seja naturalmente impaciente, compreendo seus motivos. Entendo que ela está batalhando para superar os traumas que sofreu das mãos do pai e confiar não é uma tarefa simples após tudo o que passou.
Após alguns minutos, paro o carro em frente ao hospital e subo pelo elevador até o quarto onde Antonella está hospitalizada.
Cumprimento os guardas que guardam a sua porta e, ao adentrar o espaço vazio, a vejo deitada na cama, na mesma posição que me assombra todas as noites, com os olhos voltados para o teto branco que se ergue acima dela. Por favor, pare de me ver nessa situação. Toda vez que a vejo assim, sou imediatamente transportado para o dia do seu salvamento. Tão frágil e suscetível, tudo o que mais anseio é abraçá-la e protegê-la de tudo, especialmente de si mesma.
– Oi! – falo, fazendo-a notar a minha presença antes de se assustar ao me ver entrando no quarto. Em seguida, fecho a porta atrás de mim
Ela inclina a cabeça devagar em minha direção, as pupilas se dilatam como sempre que chego.
– Olá! – ela responde, sua voz tão suave que mal consigo captar.
Pelo menos agora ela tenta, mesmo que de maneira monossilábica, responder quando tento alguma interação.
Aproximo-me da cama, acomodando-me à sua beira. Essa é a maneira que encontrei para me aproximar e fico contente por não experimentar medo ou repulsa ao me aproximar.
Ela me olha como sempre: silenciosamente, com curiosidade e expectativa, como se estivesse constantemente tentando entender o que estou arquitetando para ela.
Todos os dias, sinto como se ela questionasse o motivo de eu estar cuidando dela, talvez esperando o momento em que eu também a machucaria. A menina não poderia estar mais enganada, pois eu jamais tocaria um fio do seu cabelo com a intenção de ferir.
– Como se sente? – pergunto, treinando minha voz para que saia suave.
Antonella suspira, desviando o olhar do meu.
– Estou bem – responde, embora a sua expressão indique o contrário.
Entendo que ela está receosa, temerosa do que o futuro lhe reserva, teme que seu pai a encontre e a magoe novamente. O que ela desconhece é que estarei sempre ao seu lado, nunca a deixarei encarar seus demônios sozinha, ninguém irá feri-la. Nunca mais.
– Esta é a sua despedida aqui, amanhã você estará livre para voltar para casa.
Ela concorda, a inquietação permeando seus olhos azuis e revelando o seu receio.
– Para casa? – Ela indaga, sua voz tão delicada que poderia arrancar meu coração se eu tivesse um.
– Sim, para a minha casa. – respondo, tentando transmitir confiança. Ela ainda não sabia qual seria seu destino ao receber alta do hospital.
– Para a sua casa?
– Sim, Antonella, para a minha casa. – Digo, colocando a mão sobre a dela, um gesto que estou acostumado a realizar sempre que estamos mais próximos. Ela olha para nossas mãos entrelaçadas. – Prometi que cuidaria de você, e já te disse que cumpro todas as minhas promessas.
Antonella me olha, seus olhos azuis transbordando de incredulidade e, simultaneamente, um lampejo de esperança.
Posso perceber a batalha que enfrenta, o receio confrontando o anseio de acreditar em mim, de ter a certeza de que não a decepcionarei.
– Você... realmente fará isso por mim? – Sua voz é tão baixa que quase se perde no ar.
Nos dias recentes, tivemos poucos diálogos, nossa interação verbal ainda é bastante limitada, mas seus olhos sempre me revelam muitas coisas.
Neste instante, percebo gratidão, surpresa e confiança. Aperto delicadamente a sua mão, tentando transmitir toda a sinceridade das minhas palavras.
– Com certeza, Antonella. – Meus olhos permanecem fixos nela, numa intensidade que espero que ela entenda a verdade contida nas minhas palavras. – Como já mencionei anteriormente, você não está mais sozinha. Nunca mais estará.
Renovo porque sinto que ela precisa escutar essa verdade inúmeras vezes até que realmente acredite que é verdadeira.
Antonella me olha por um longo instante, com os lábios semicerrados como se estivesse pronta para dizer algo, mas logo os fecha. Posso observar a luta que ocorre em sua mente, os fantasmas do passado confrontando a possibilidade de um futuro alternativo.
Por fim, ela concorda, um movimento de cabeça quase imperceptível, porém suficiente para preencher minha mente com esperança. Sei que não será simples, tenho consciência de que enfrentará muitos desafios, mas estou resoluto em auxiliá-la a vencê-los.
– Obrigada, Diego. — Sua voz é apenas um murmúrio, mas a segurança que transparece em suas palavras é como um raio de luz que atravessa as nuvens escuras que a rodeiam.
Sorrio, um sorriso que brota do mais íntimo de mim, um sorriso que desejo que ela compreenda como um sinal de que estou ao seu lado, agora e para sempre.
– Já disse que não precisa me agradecer, Antonella. – Minha voz sai cheia de determinação. – Estamos juntos nessa e você agora é minha para cuidar e proteger, para sempre.
Quando as palavras fogem dos meus lábios, sinto remorso, ainda não consigo administrar os múltiplos sentimentos que essa garota suscita em mim. Tudo é tão ambíguo que me sinto desorientado em minha própria mente, em uma dança incessante entre luz e escuridão, onde a mente e o coração lutam incessantemente.
Sinto como se duas forças estivessem empurrando-me em direções contrárias, deixando-me num estado de indecisão e incerteza que quase me deixa desorientado.
Ela fecha os olhos por um instante, como se estivesse absorvendo minhas palavras. Quando os reabre, noto um brilho de determinação e confiança em seu olhar, o que é corroborado pelas suas próximas palavras, possivelmente as mais elaboradas e genuínas desde que a encontrei em sua prisão particular.
– Vou confiar em você, Diego. – A sua voz está um pouco mais firme, até mesmo mais segura. – Não me decepcione. – As últimas palavras parecem vir do mais profundo da sua alma.
Aperto sua mão mais uma vez, um gesto de segurança que espero que você compreenda.
– Estamos juntos, Antonella. – Minha voz é apenas um murmúrio, mas espero que ela compreenda o sentido da frase.
Me levanto da cama, envolvido por uma sensação de tranquilidade e resolução. Antonella ainda possui um extenso percurso pela frente, mas estarei ao seu lado, independentemente do que ocorra.
Tomo um rápido banho e, após auxiliá-la na alimentação, como é habitual todas as noites, finalmente me deito para descansar.
– Boa noite, Diego. – Sua voz ecoa suavemente na escuridão. É a primeira vez que ela se expressa por iniciativa própria.
Possivelmente, a certeza de que estará sob minha proteção a fez se sentir mais próxima de mim. Fico contente por ser um passo significativo, o começo da relação de confiança que espero que se estabeleça entre nós.
– Boa noite, Antonella. – respondo, mas decido não estender a conversa, deixando que ela tome seu próprio tempo para refletir sobre o que será daqui para frente.
A última noite no hospital parece se estender para sempre. Surpreendentemente, Antonella dorme mais tranquila, talvez finalmente encontrando um pouco de tranquilidade em seus sonhos frequentemente agitados, enquanto eu continuo acordado, imerso em minhas próprias reflexões. Confuso com um futuro que nunca sonhei para mim.
Tantos pensamentos percorrem minha mente, muitas incertezas e preocupações. Estou ciente de que trazer Antonella para morar comigo não será uma tarefa simples, mas estou resoluto em honrar minha promessa de cuidar pessoalmente dela.
Aproveito para ponderar sobre as opiniões dos meus amigos, que frequentemente questionaram minha escolha e sugeriram opções para garantir a segurança de Antonella sem a necessidade de intervenção direta. No entanto, no íntimo do meu ser, tenho certeza de que é a decisão correta a tomar. Ela necessita de alguém ao seu lado, alguém em quem possa depositar confiança.
Quando a retirei do local onde era mantida pelo seu pai, percebi a confiança em seus olhos e percebi que era disso que ela necessitava para se reerguer.
Antonella necessita de um refúgio seguro e estou pronto para ser esse refúgio.
Conforme a noite avança, mais perto estou de levá-la para casa. Pela primeira vez em muitos anos, sinto-me simultaneamente ansioso e preocupado, sem saber exatamente como lidar com o que estou mesmo causando.
A única garantia que possuo é que não a deixarei enfrentar seus demônios sozinha, agora ela tem a mim, e isso é algo inabalável em nossas existências.
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Atualizado até capítulo 49
Comments
Nilvan Coiote
muito boa a história, estou aqui tamanha 4:14 da madrugada lendo kkkkkkkkk
2024-12-23
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