De volta a torre

O nono andar da Torre era um deserto gelado, onde o frio cortante penetrava até mesmo as proteções mágicas. Cristais de gelo refletiam a luz de forma traiçoeira, criando um ambiente ilusório, onde a realidade parecia distorcida a cada passo. Aki caminhava à frente, com sua presença calma, quase fria como o próprio ambiente.

Ele trajava a armadura negra que ganhara durante a missão dos orks, uma peça imponente, forjada com aço mágico e runas antigas que brilhavam em um tom púrpura discreto. Rubi seguia ao seu lado, vestida com uma roupa feita da pele resistente de um urso negro de um chifre, uma criatura lendária que quase os havia derrotado em um dos andares anteriores.

Apesar do ambiente hostil, Rubi estava animada. Seus olhos brilhavam de curiosidade, como sempre, especialmente quando se tratava de Aki, cuja natureza misteriosa a intrigava desde o início.

— Aki, você sempre foi assim? Tão... sério? — perguntou Rubi, quebrando o silêncio com sua voz leve.

Aki caminhava em silêncio por alguns segundos antes de responder, sem virar o rosto.

— Sempre... não. — Sua voz era direta, mas sem ser rude.

Ela arqueou uma sobrancelha, insatisfeita com a resposta breve.

— E o que te fez mudar? Foi alguma coisa específica?

Aki olhou brevemente para ela, seus olhos cor de rosa brilhando levemente no reflexo dos cristais de gelo.

— Muitas coisas.

Rubi suspirou, mas não desistiu. A jornada até o boss ainda era longa, e ela estava determinada a conhecer mais sobre ele.

— Você não é muito de falar sobre si mesmo, né? Isso é meio... solitário.

Aki continuou caminhando, seus passos leves apesar do peso da armadura. Ele pensou por um momento antes de responder.

— Não é necessário.

— Não? — Rubi olhou para ele, curiosa. — Mas às vezes é bom ter alguém pra ouvir. Isso não te faz falta?

Aki desviou o olhar para o horizonte distante, onde as nuvens negras se agitavam ao redor de uma estrutura imponente: o ninho da Hidra de Lerna.

— Não tenho tempo para pensar nisso.

Rubi sorriu de lado.

— Você sempre age como se o mundo inteiro estivesse nas suas costas. Mas sabe... você também pode descansar de vez em quando.

Ele parou por um instante e olhou para ela novamente, sua expressão inalterada, mas havia um leve brilho nos olhos.

— Não posso. Não até chegar ao topo.

Ela percebeu a determinação inabalável em sua voz, uma mistura de propósito e algo mais profundo. Algo que ele ainda não havia revelado.

— E o que tem no topo? — perguntou ela, tentando decifrar aquele enigma que era Aki. — O que você vai fazer quando chegar lá?

Ele voltou a caminhar, mas dessa vez, respondeu sem hesitar.

— Proteger.

Rubi franziu o cenho, intrigada.

— Proteger quem? O mundo?

— Quem for importante. — A resposta foi direta, mas havia uma sinceridade nela que fez Rubi sorrir.

Eles continuaram a caminhar em silêncio por um tempo. O vento frio uivava ao redor deles, mas a presença de Aki tornava o ambiente menos opressor para Rubi. Ela sabia que, por mais calado e reservado que ele fosse, havia algo nobre em seu coração.

Depois de alguns minutos, Rubi quebrou o silêncio novamente.

— Sabe... eu não vou desistir de te entender. Pode continuar com essas respostas curtas, mas um dia eu vou saber tudo sobre você.

Aki não respondeu imediatamente. Quando finalmente falou, sua voz foi quase suave.

— Boa sorte.

Ela riu.

— Vou precisar mesmo. Você é como um quebra-cabeça.

— Um quebra-cabeça complicado. — Aki acrescentou, sem nenhum tom de arrogância, apenas uma constatação simples.

Eles finalmente chegaram à entrada do ninho da Hidra de Lerna, uma enorme caverna de gelo coberta por estalactites afiadas. A energia sombria que emanava do lugar era sufocante.

Rubi respirou fundo, ajustando suas armas e se preparando.

— Pronto para mais uma batalha? — perguntou ela, tentando soar confiante.

Aki deu um passo à frente, seus olhos brilhando com uma determinação inabalável.

— Sempre.

A entrada do ninho da Hidra de Lerna era uma imensidão gélida, um abismo profundo onde ecos distantes reverberavam, dando a impressão de que o próprio ar estava vivo. Rubi observava o interior escuro com empolgação. Ela sabia que esta luta seria diferente. Não era apenas uma batalha contra uma criatura mítica, mas uma oportunidade de provar a si mesma.

Aki, ao seu lado, manteve a postura calma, como sempre. Seus olhos rosados analisavam o ambiente com frieza, cada detalhe, cada sombra. Então, ele se virou para Rubi, sua voz serena quebrando o silêncio.

— Você vai lutar contra a Hidra.

Rubi piscou, surpresa.

— Sério? Você não vai lutar? — Seus olhos brilharam de empolgação. — Vai deixar tudo comigo?

Aki assentiu levemente.

— Sim. Vou observar.

A animação de Rubi era palpável.

— Você vai ver, Aki. Vou acabar com essa coisa rapidinho!

Aki deu um passo para trás, cruzando os braços enquanto se apoiava em uma parede de gelo próxima.

— Mostre-me o que aprendeu.

Rubi deu um sorriso afiado, revelando suas presas. Seus olhos lupinos brilharam com um tom azulado intenso enquanto ela avançava para dentro da caverna.

A Hidra de Lerna aguardava no fundo, suas sete cabeças emergindo das sombras, cada uma com olhos escarlates brilhando como brasas no escuro. Seu corpo era uma mistura de escamas negras e gelo, um monstro colossal que parecia moldado pelo próprio ambiente.

— Vem cá, grandona! — Rubi rosnou, seus instintos lupinos assumindo o controle enquanto suas garras cresciam, afiadas como lâminas.

A Hidra rugiu, um som gutural que fez a caverna tremer, e atacou com três cabeças ao mesmo tempo, cada uma movendo-se com velocidade e força devastadoras. Mas Rubi estava preparada. Ela saltou para o lado com agilidade sobrenatural, suas garras cortando o ar enquanto desviava dos ataques.

Ela pousou graciosamente e avançou, rasgando uma das cabeças com um golpe rápido, a carne se partindo sob o impacto de suas garras reforçadas pela magia lupina. A cabeça decepada caiu no chão, mas quase imediatamente, duas novas cabeças cresceram no lugar.

— Ah, claro... — Rubi murmurou, semicerrando os olhos. — Cabeças regenerativas. Isso vai ser divertido.

A Hidra atacou novamente, agora com cinco cabeças se movendo em sincronia. Rubi girou no ar, suas garras cortando duas delas ao mesmo tempo, o sangue escuro da criatura salpicando o chão gelado. Mais uma vez, novas cabeças surgiram, aumentando o desafio.

Apesar disso, Rubi não recuou. Ao contrário, ela sorriu com entusiasmo selvagem.

— Pode vir mais! Eu tenho garras suficientes para todas vocês!

Ela se lançou contra a Hidra, suas garras faiscando contra as escamas da criatura, cada golpe cortando profundamente. A cada ataque, Rubi se movia com uma mistura de graça e brutalidade, lutando como uma verdadeira loba, seus instintos aguçados guiando seus movimentos. Ela atacava rápido, cortava profundo e saltava para fora do alcance antes que as cabeças pudessem retaliar.

Aki, observando de longe, permaneceu em silêncio. Seus olhos fixos em Rubi enquanto ela lutava. Ele percebeu a determinação feroz em cada movimento dela, a forma como ela encarava o desafio com entusiasmo, sem hesitar, sem recuar.

Por um breve instante, um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios. Um gesto raro, uma fagulha de algo humano escondido sob sua máscara de frieza. Mas o sorriso desapareceu tão rapidamente quanto surgiu, substituído novamente pela neutralidade.

Rubi percebeu que estava sendo observada, mas não perdeu o foco. Ela precisava vencer. A Hidra tentou novamente, suas cabeças atacando em sincronia, tentando encurralá-la. Rubi saltou alto, girando no ar, e caiu com toda a força sobre o dorso da criatura, cravando suas garras profundamente.

— Agora você vai sentir! — Rubi gritou, sua voz carregada de adrenalina enquanto rasgava as escamas da Hidra com violência, expondo a carne sensível por baixo.

A Hidra rugiu de dor, suas cabeças se debatendo, tentando se livrar dela, mas Rubi não soltou.

Ela sabia que precisava pensar além dos instintos. Precisava de uma estratégia.

“Quanto mais eu corto, mais cabeças aparecem...” Ela pensou, suas garras ainda fincadas no monstro. “Preciso mudar de tática.”

Saltando do dorso da Hidra, ela pousou à frente da criatura, encarando-a com um olhar afiado.

— Certo... nada de cortar cabeças dessa vez. Vamos ver o que você faz quando eu acertar seu coração.

Ela correu em direção ao peito da Hidra, desviando das cabeças que avançavam para mordê-la. Seus movimentos eram rápidos e calculados, como uma dança feroz entre a vida e a morte. Cada passo era preciso, cada golpe era direcionado.

Finalmente, Rubi atingiu a base do pescoço central da Hidra, onde acreditava estar o núcleo da criatura. Suas garras brilharam com uma luz prateada, imbuídas com energia mágica que acumulava desde o início da batalha.

— desculpa mas Isso é pelo Aki, que confiou em mim para essa luta! — Ela cravou as garras no peito da Hidra, rasgando em direção ao coração da criatura.

A Hidra soltou um rugido final, seu corpo tremendo violentamente enquanto a energia vital escapava de seu núcleo. As cabeças começaram a despencar uma a uma, como folhas caindo de uma árvore morta.

Finalmente, com um último suspiro, a Hidra de Lerna desabou, seu corpo colossal quebrando o gelo ao redor. A caverna ficou em silêncio, exceto pelo som da respiração ofegante de Rubi.

Ela se virou para Aki, um sorriso vitorioso no rosto, o brilho azulado de seus olhos ainda intenso.

— Viu? Eu disse que ia acabar com ela.

Aki caminhou calmamente até ela, seus passos ecoando no chão gelado. Ele parou à sua frente, observando o corpo inerte da Hidra.

— Você fez bem.

Rubi ergueu uma sobrancelha, surpresa.

— Foi isso? Só “fez bem”? Sem parabéns?

Aki olhou para ela, e por um breve momento, houve um leve brilho de aprovação em seus olhos rosados.

— Parabéns.

Rubi riu, satisfeita.

— Vindo de você, isso já é muita coisa.

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!