Harua apertou o cabo de suas espadas, o suor misturando-se ao sangue que escorria pelos cortes profundos em seu corpo. Ele sentia a dor irradiando de sua perna e ombro perfurados, mas ainda assim, não recuou. A chama dentro dele, a chama que havia sido acesa quando se uniu a Azaroth, queimava mais forte do que a dor.
Belphegor, com seu sorriso preguiçoso e olhos que pareciam observar tudo de uma posição superior, mantinha-se calmo.
— Você realmente continua insistindo... impressionante. — Ele ergueu a mão, materializando mais lanças de sombras ao seu redor, como uma tempestade iminente. — Vamos ver quanto tempo você aguenta.
Harua levantou-se lentamente, uma aura carmesim começando a emanar de seu corpo. A Esgrima do Sol Carmesim — sua técnica mais refinada e poderosa, uma arte que ele havia desenvolvido após sua transformação em vampiro sob o comando de Azaroth.
Antes, sua esgrima era precisa, mortal, mas limitada. Agora, era algo mais. Uma mistura de velocidade, força vampírica, e uma energia carmesim que parecia queimar o próprio ar ao seu redor.
— Você acha que conhece minhas limitações, Belphegor. — Harua limpou o sangue do canto da boca com as costas da mão. — Mas você está enganado. Eu não sou mais o mesmo de antes.
Ele avançou.
Harua desapareceu em um piscar de olhos, deixando apenas um rastro carmesim no ar. Belphegor mal teve tempo de reagir quando a primeira lâmina cortou em sua direção. Ele ergueu uma barreira de sombras, mas desta vez, a lâmina carmesim atravessou a defesa com uma força que Belphegor não havia previsto.
— O quê...? — Belphegor deu um passo para trás, observando a fenda que se abriu na barreira e uma linha fina de sangue escorrendo pelo seu braço. Pela primeira vez, o sorriso preguiçoso sumiu de seu rosto.
Harua não parou. Seus movimentos eram rápidos e fluídos, como uma dança mortal. Ele atacava de todos os ângulos, forçando Belphegor a recuar, a erguer mais defesas, a calcular cada movimento com mais precisão. A esgrima de Harua era como um sol em erupção, queimando tudo ao seu redor.
Belphegor começou a sentir a pressão. Ele não esperava que Harua pudesse melhorar tanto em tão pouco tempo. Mesmo assim, ele ainda estava confiante.
Ele era um dos Arqui-Duques do Inferno. Um Pecado. E não seria derrotado por um mero vampiro.
— Por que, Harua? — Belphegor disse enquanto desviava de mais um golpe mortal. — Por que você virou as costas para sua família? Para Shigen? Para Aki? E tudo isso... para seguir um morcego louco?
Harua girou no ar, desferindo uma sequência de golpes rápidos que forçaram Belphegor a criar uma onda de sombras para se afastar.
Ele pousou suavemente no chão e encarou o demônio com um olhar frio, mas firme.
— Você nunca entenderia. — Harua limpou o sangue da lâmina. — Azaroth não é um "morcego louco". Ele é um visionário. Um gênio que vê além do que qualquer um de nós pode imaginar. Ele não quer governar apenas por poder... ele quer criar um mundo onde o caos dos demônios e a autodestruição dos humanos sejam coisas do passado.
Belphegor arqueou uma sobrancelha.
— Um mundo perfeito? Que ingenuidade. A perfeição não existe. Nem mesmo Lúcifer ousou tanto.
Harua avançou novamente, suas lâminas deixando rastros de fogo carmesim no ar.
— Você pode zombar o quanto quiser. Mas eu sei onde minha lealdade está. Com Azaroth, nele eu vi o futuro. Um futuro onde não seremos peças descartáveis em um jogo infernal. E eu lutarei por isso... até o fim.
Belphegor sentiu o impacto dessa determinação.
Harua estava se movendo mais rápido, seus golpes estavam mais fortes, mais precisos. O equilíbrio da luta começava a mudar.
Mas Belphegor não era um oponente qualquer. Ele canalizou sua energia sombria, criando uma rede de sombras que começou a envolver Harua, restringindo seus movimentos. A luta ainda estava sob controle... ou assim ele pensava.
Belphegor forçou Harua a recuar novamente, agora usando sua sombra como uma corrente que o puxava para baixo. Harua tentou cortar a prisão sombria, mas ela se regenerava mais rápido do que ele podia destruir.
— Você é bom, Harua. Mas não o suficiente. Ainda não. — Belphegor ergueu a mão. — Está na hora de acabar com isso.
Harua estava preso, seu corpo enfraquecido, seus movimentos limitados. As sombras começavam a sufocar sua energia. Ele podia sentir a morte se aproximando.
Belphegor preparou o golpe final, uma lança de sombras tão densa que parecia sugar a luz ao redor.
— Adeus, espadachim. Foi divertido... enquanto durou.
Mas antes que a lança pudesse ser lançada, o ar ao redor deles congelou. Uma presença esmagadora invadiu o campo de batalha.
Azaroth estava intervindo.
— Já chega. — A voz de Azaroth ecoou como um trovão, fria e autoritária. Seus olhos vermelhos como sangue brilharam na escuridão, e com um simples gesto de sua mão, as sombras que prendiam Harua foram dissipadas.
Belphegor recuou instintivamente. A presença de Azaroth era avassaladora, muito além do que ele esperava enfrentar naquela noite.
Harua caiu de joelhos, respirando com dificuldade, mas com um sorriso no rosto.
— Azaroth...
O Deus Rei Vampiro avançou lentamente.
— Belphegor, você cometeu um erro. Achou que poderia matar um dos meus. Mas eu não permitirei isso.
Belphegor, mesmo com todo seu poder, sentiu um calafrio.
— Você... Azaroth... — Ele tentou recuperar sua compostura. — Não se meta. Essa luta é entre mim e ele.
Azaroth sorriu friamente.
— Não mais. Agora, é entre você... e eu.
A batalha estava longe de terminar, e agora, Belphegor enfrentava um adversário que ele não havia previsto.
Azaroth manteve seu olhar fixo em Belphegor, a tensão no ar palpável. A respiração de Harua ainda era pesada atrás dele, mas o Deus Rei Vampiro não se abalava. A presença de Belphegor era avassaladora, sim, mas ele sabia que a vantagem da preguiça era subestimada.
Belphegor limpou o sangue escorrendo de um pequeno corte no rosto e olhou para Azaroth com um sorriso preguiçoso.
— Eu vejo... a malícia que você esconde por trás desse ar de nobreza, Azaroth. Você quer parecer um salvador, mas há escuridão em você. Uma que até mesmo seus próprios servos desconhecem.
Azaroth ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços com um leve sorriso frio no rosto.
— E você acha que sabe quem eu sou, Belphegor? Um arqui-duque, pecador como qualquer outro demônio... julgando o que não compreende.
Belphegor riu baixinho, com os olhos semicerrados.
— Oh, eu compreendo perfeitamente. Você quer o mundo, mas por trás de suas palavras de ordem e controle, você é tão caótico quanto qualquer um de nós. O mundo que deseja governar... você não quer consertá-lo, quer moldá-lo à sua imagem.
Azaroth não respondeu de imediato, mas o sorriso em seus lábios ficou mais sombrio.
— Talvez você esteja certo. Mas isso não muda nada. No final, eu sempre vencerei, porque minha determinação é maior que o caos que você representa.
Belphegor deu um passo à frente, as sombras ao seu redor começando a se condensar.
— Determinação não significa nada... se você não puder se manter acordado.
Azaroth estreitou os olhos, analisando o que Belphegor pretendia. O demônio então retirou uma pequena agulha de aparência peculiar, repleta de uma substância azul-escura que parecia pulsar com uma energia própria.
— Vou mostrar a você por que eu sou a Preguiça. Você não pode me vencer... quando estou desperto. — Ele ergueu a agulha e a injetou em seu próprio pescoço, sem hesitação.
Azaroth ficou em silêncio, observando a ação com curiosidade e cautela. Belphegor começou a balançar levemente, como se estivesse prestes a cair, mas seus olhos se fecharam lentamente. Ele permaneceu de pé, estático, enquanto sua respiração se tornava profunda e ritmada.
— Está dormindo? — Harua murmurou, ofegante.
Azaroth franziu o cenho.
— Não... Ele está lutando em um estado além do físico. Agora... ele está mais perigoso.
De repente, a atmosfera ao redor deles mudou. O poder de Belphegor se intensificou, mas de uma maneira peculiar. Não era uma explosão caótica de energia, mas um peso esmagador que parecia dobrar o espaço ao redor. A realidade parecia distorcer-se ao toque de seu sono.
Belphegor abriu os olhos lentamente, mas agora, eles brilhavam com uma luz pálida, quase etérea. Ele sorriu, mas de forma completamente diferente.
— Bem-vindo ao meu domínio... aqui, Azaroth, tudo é lento, tudo cede ao cansaço. Até mesmo você.
Azaroth avançou primeiro, movendo-se com velocidade vampírica, mas algo estava errado. Seu corpo parecia mais lento, como se o ar ao redor estivesse mais denso, cada movimento exigindo mais esforço do que o normal. Ele atacou com um golpe direto no peito de Belphegor, mas o demônio simplesmente inclinou-se para o lado, desviando como se estivesse dançando em um sonho.
Azaroth recuou e desferiu uma sequência de golpes rápidos, mas Belphegor continuava a esquivar-se com uma leveza quase preguiçosa, movendo-se como se estivesse flutuando no ar.
— Está sentindo? — Belphegor perguntou com a voz calma e arrastada. — Aqui, tudo cansa... até mesmo a sua vontade de lutar.
Azaroth não respondeu. Ele reuniu sua energia, concentrando-se. As sombras ao seu redor começaram a se condensar, transformando-se em garras que ele lançou contra Belphegor. Mas antes que pudessem alcançá-lo, as garras desaceleraram, parando no ar, como se tivessem sido sugadas para dentro do sono do demônio.
Belphegor suspirou.
— Você é poderoso, Azaroth... mas neste estado, estou além de você.
Ele ergueu a mão, e uma lança de sombras condensadas surgiu do vazio. Ele a lançou com um movimento lento e calculado, mas mesmo assim, Azaroth sentiu que era impossível desviar completamente. A lança perfurou seu ombro, fazendo-o recuar com um grunhido de dor.
— Maldito... — Azaroth rangeu os dentes, arrancando a lança de sombras do corpo, enquanto o sangue manchava sua jaqueta preta. Ele olhou para Belphegor, seus olhos agora brilhando intensamente. Ele não podia perder ali. Não naquele momento.
— Você não entende... — Belphegor falou, ainda calmo. — A torre de Lúcifer não pertence a você. Este mundo não pertence a você. Humanos, vampiros, demônios... todos estão condenados pela própria natureza. Você quer controlá-los? Não há controle. Só existe o sono eterno, a paz da indiferença.
Azaroth riu, mesmo com a dor.
— Indiferença? Paz? Isso é preguiça disfarçada de filosofia barata. Eu não vim ao mundo para descansar, Belphegor. Eu vim para reiná-lo.
Com um esforço tremendo, Azaroth invocou uma onda de energia vermelha, desintegrando parte da rua ao redor deles. Os prédios ao redor tremiam, algumas estruturas desmoronando sob a força do impacto. Belphegor foi jogado para trás, mas mesmo caindo, ele parecia flutuar como se estivesse sendo embalado por um sonho.
Quando ele se levantou, não havia um arranhão.
— Impressionante... mas inútil. — Belphegor estalou os dedos, e dezenas de lanças de sombras surgiram no ar ao seu redor. — Você já está cansado, Azaroth. Eu posso ver isso.
Azaroth respirava pesadamente.
Sua visão estava começando a escurecer, os efeitos do domínio de Belphegor cobrando seu preço. Ele sabia que, se continuasse assim, seu corpo não aguentaria. Ele precisava de uma estratégia. Algo inesperado.
Belphegor começou a avançar lentamente, as lanças de sombras pairando ao seu redor como serpentes prontas para atacar.
— Vamos, Azaroth. Mostre-me... sua última tentativa desesperada.
Azaroth sorriu, mesmo com a dor, mesmo com o cansaço.
— Última tentativa? Não... eu ainda nem comecei.
E, com isso, ele mergulhou em direção a Belphegor.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 28
Comments