A noite estava fria, muito mais do que o habitual. O vento cortante não fazia distinção entre as camadas de roupas que usávamos para nos proteger, e eu sentia o ar gélido penetrar até os ossos. A aldeia, embora em ruínas, ainda era nossa casa — ou ao menos o que restava dela.
Lyra havia sumido. E eu, imerso nas novas revelações do holograma, não sabia mais em quem confiar. A mulher de cabelos brancos que apareceu na esfera, Aria, havia falado sobre o Coração de Gaia e sobre algo ainda mais perigoso escondido em Anunaki. E, no final, ela mandava que eu confiasse em Lyra, a mesma Lyra que, no momento, parecia se esconder de mim.
Eu preciso de respostas, pensei, o peso do fragmento em minha mão tornando-se cada vez mais insuportável. O que estava acontecendo comigo? Não era apenas o fragmento drenando minha energia; agora, as palavras do ancião e da esfera estavam começando a fazer sentido. Eu estava sendo arrastado para algo muito maior do que poderia imaginar, algo que eu nem ao menos queria entender.
A decisão estava prestes a ser tomada. Eu sabia que algo, algum poder imenso, estava me observando. Eu não podia mais me dar ao luxo de ignorar os sinais. O fragmento, a esfera, a misteriosa mulher… tudo isso era parte de algo, e eu tinha que descobrir o que.
“Confie em Lyra.”
Aquelas palavras reverberavam na minha mente. O que ela sabia que eu não sabia? Era claro que ela tinha mais informações do que estava me dizendo, e esse segredo, talvez, fosse a chave para tudo o que estava acontecendo.
Olhei para a tenda onde o ancião havia se refugiado. Ele parecia exausto, como se cada movimento fosse um esforço monumental. Aproximando-me lentamente, a única luz que iluminava o local vinha da fogueira, onde as chamas dançavam suavemente. A figura de Lyra apareceu na entrada da tenda. Ela estava agachada, olhando algo em suas mãos.
— Lyra? — chamei com a voz firme, mas não sem uma pontada de incerteza.
Ela se virou lentamente. Seus olhos não estavam mais escondendo a tensão que antes disfarçava com facilidade.
— Você está bem? — perguntei, tentando parecer calmo, embora meu coração estivesse acelerado.
Lyra hesitou antes de responder. Sua expressão estava fechada, como se estivesse calculando algo.
— Eu… Eu sabia que você descobriria, mais cedo ou mais tarde. — Ela deu um passo à frente, mantendo os olhos baixos.
— O que está acontecendo, Lyra? Você sabia sobre tudo isso, não sabia? O holograma… o Coração de Gaia… O que você está escondendo de mim?
Lyra finalmente levantou os olhos, e eu vi o conflito refletido neles. Ela estava dividida entre me contar a verdade e me proteger.
— Eu não queria que você soubesse, Akin. Não agora.
— Não agora? Não temos mais tempo! A aldeia foi atacada, os soldados de Agartha estão por toda parte, e eu mal entendi o que está acontecendo com o fragmento, e você está me dizendo para esperar?
Ela respirou fundo, os dedos cerrados em punhos.
— Há mais do que você imagina. Mais do que eu posso te explicar sem colocar sua vida em risco. E o fragmento… é só o começo.
Não consegui conter a frustração que se acumulava dentro de mim. O mundo estava desmoronando ao meu redor, e eu ainda não tinha o quadro completo.
— Se você não me disser tudo agora, eu vou descobrir sozinho. — Minha voz saiu mais ríspida do que eu pretendia.
Lyra baixou a cabeça, seus ombros caindo em resignação. Ela deu um passo à frente, mais perto de mim, e sussurrou:
— Eu confio em você, Akin. Por isso estou te dizendo, mas você precisa entender que as respostas que procuramos… elas vão mudar tudo.
Eu a encarei, sentindo o peso de suas palavras. Ela não estava falando apenas do Coração de Gaia, do fragmento ou das potências. Ela estava falando de algo muito maior.
— O que você sabe sobre a Agartha? — perguntei, minha voz agora mais calma, mas carregada de expectativa.
Lyra suspirou profundamente e, antes de falar, olhou em volta, como se temesse que alguém estivesse ouvindo.
— A Agartha… eles têm mais controle sobre a tecnologia do que qualquer outra potência. E estão desesperados por algo. — Ela hesitou por um momento, quase como se estivesse se preparando para contar um segredo muito pesado. — Eles sabem do fragmento. Eles sabem do que ele pode fazer, e eles querem usar isso para controlar tudo. Para controlar todos. E você, Akin, você é a chave.
Aquelas palavras me atingiram com força. Fiquei paralisado, processando o que acabara de ouvir.
— O que você está dizendo? Eles querem me usar? Ou querem que eu… os ajude?
Lyra balançou a cabeça, seus olhos vazios de esperança.
— Não se trata de ajuda, Akin. Se trata de controle. Eles sabem que você tem o poder de mudar o equilíbrio, e eles querem usá-lo para sua própria vantagem. A Agartha vai fazer de tudo para tomar o fragmento de você.
Aquelas palavras fizeram meu sangue ferver. Eu não podia permitir que isso acontecesse.
— Não vou deixá-los tocar no fragmento — disse, a determinação firme em minha voz.
Lyra olhou para mim com uma expressão que misturava preocupação e tristeza.
— Eu não posso prometer isso, Akin. Eles são poderosos. Mais do que qualquer um imagina. E você… você é muito mais forte do que acredita. Mas você precisa aprender a controlar o fragmento, ou ele vai acabar destruindo tudo o que você ama.
Eu respirei fundo, meu coração batendo rápido. Estávamos em uma corrida contra o tempo, e eu não sabia se conseguiria alcançar a linha de chegada antes que tudo se desintegrasse.
— Então o que você sugere?
Lyra deu um passo atrás, seu rosto agora sério.
— Eu sugiro que você se prepare para a guerra. Uma guerra que será travada não apenas contra Agartha, mas contra tudo o que há de mais sombrio dentro de você.
Eu engoli em seco, sentindo a tensão crescendo dentro de mim. O que quer que fosse, eu não estava mais sozinho nessa jornada. Mas também não sabia em quem realmente podia confiar.
— O que você quer que eu faça? — perguntei, minha voz mais calma agora, mas com o peso de uma decisão que já estava sendo tomada.
Lyra olhou para mim por um momento, e então, com um brilho determinado nos olhos, respondeu:
— Vamos até Anunaki.
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O resto da noite foi um borrão de preparação e incertezas. Na manhã seguinte, nos reunimos com os poucos aldeões sobreviventes que ainda estavam dispostos a lutar. Eu podia sentir a tensão no ar. Não apenas a tensão do conflito iminente com Agartha, mas a sensação de que algo maior estava em jogo. Algo que eu não poderia mais ignorar.
Eu estava prestes a entrar em um território desconhecido, e eu sabia que, ao fazer isso, não havia mais volta. As escolhas que fizéssemos a partir daquele momento determinariam o futuro de todos, e, por mais que eu odiasse admitir, isso era algo muito maior do que eu poderia controlar sozinho.
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Atualizado até capítulo 21
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