O céu estava tingido de tons de fogo enquanto o sol se escondia lentamente no horizonte. Eu ainda podia sentir as palavras do ancião ecoando na minha mente, um peso que parecia dobrar meus ombros. Enquanto caminhávamos de volta pela aldeia, o fragmento, agora envolto em um tecido grosso, parecia pulsar como uma segunda batida do meu coração.
— Não gosta de falar sobre o destino, não é? — Lyra perguntou, interrompendo o silêncio.
Ela estava um passo à frente, a lâmina descansando no cinto, mas seus olhos continuavam alertas.
— Não acredito nele — respondi, tentando parecer mais confiante do que realmente me sentia. — Acho que as pessoas usam o destino como desculpa para suas falhas.
— Talvez. — Lyra deu de ombros. — Mas também pode ser o que nos mantém caminhando.
Eu não respondi. Ao invés disso, olhei para o horizonte, onde as árvores começavam a lançar sombras longas e ameaçadoras. Algo dentro de mim dizia que estávamos longe de estar seguros, mesmo na tranquilidade dessa aldeia.
---
A primeira explosão foi tão forte que parecia ter arrancado o chão debaixo dos meus pés.
Fui lançado para trás, batendo contra uma árvore com um impacto que fez minha visão escurecer por alguns segundos. Quando consegui me levantar, tudo ao meu redor era caos. A aldeia, que antes estava tão pacífica, agora era um campo de batalha.
Homens e mulheres corriam em todas as direções, alguns carregando armas improvisadas, outros protegendo crianças assustadas. Lyra já estava com a lâmina em mãos, enfrentando o que pareciam ser soldados de Agartha.
— Akin! — ela gritou, enquanto derrubava um deles com um golpe preciso. — Proteja o fragmento!
Eu não tive tempo de responder antes que um dos soldados avançasse em minha direção. Ele usava uma armadura negra que parecia pulsar com energia própria, e seus movimentos eram rápidos demais para serem humanos.
Agarrei o fragmento com força, sentindo seu calor se intensificar. Quando o soldado estava a poucos metros de mim, levantei a mão instintivamente, e uma explosão de luz azul o atingiu em cheio, jogando-o para trás.
— Isso é incrível — murmurei, mas não havia tempo para apreciar o momento.
Outro soldado surgiu, e dessa vez fui mais rápido. Usei o fragmento novamente, mas a energia parecia mais fraca.
— Ele está drenando você! — Lyra gritou, aparecendo ao meu lado.
— O quê?
— O fragmento. Ele responde à sua energia vital. Use-o demais, e pode acabar se matando.
Engoli em seco, tentando processar a informação enquanto desviava de outro ataque.
— Ótimo. Mais uma coisa para me preocupar.
---
A batalha continuou por minutos que pareceram horas. Quando finalmente conseguimos repelir os invasores, a aldeia estava em ruínas. O ancião, que havia se refugiado em uma das tendas, saiu mancando, mas aparentemente ileso.
— Eles não vão parar — disse ele, olhando para mim com olhos que pareciam mais velhos do que nunca. — Você precisa entender o que está carregando, Akin.
— Estou tentando! — respondi, minha voz mais alta do que pretendia. — Mas ninguém me diz nada concreto. Tudo é sobre destino, sacrifício e equilíbrio. E, enquanto isso, essas pessoas estão morrendo.
O ancião me observou por um momento antes de se aproximar.
— O Coração de Gaia não é apenas uma arma. Ele é vida. E morte. Cabe a você decidir como usá-lo.
— Ótimo. Mais pressão.
---
Enquanto ajudávamos a reconstruir parte da aldeia, Lyra se aproximou, limpando o sangue de sua lâmina.
— Você foi bem hoje.
— Bem? — repeti, apontando para as ruínas ao nosso redor. — Isso parece "bem" para você?
— Você está vivo. Isso já é mais do que a maioria pode dizer.
Eu não sabia se deveria rir ou ficar irritado. Antes que pudesse decidir, um dos aldeões aproximou-se, carregando algo em uma caixa de madeira.
— Isto foi deixado para você, jovem Manhiça — disse ele, entregando-me o objeto.
Abri a caixa com cuidado, revelando uma pequena esfera de metal que parecia estar coberta por runas brilhantes.
— O que é isso? — perguntei, virando a esfera em minhas mãos.
— Um presente de alguém que conhece sua jornada — respondeu o ancião, que havia se aproximado novamente. — Use com sabedoria.
Lyra arqueou uma sobrancelha, mas não disse nada.
---
Naquela noite, enquanto estávamos sentados ao redor de uma fogueira, examinei a esfera mais de perto. Quando toquei uma das runas, ela começou a brilhar intensamente, projetando um holograma no ar.
A imagem de uma mulher apareceu, vestindo o que parecia ser um traje de combate de Agartha. Seu cabelo era tão branco quanto neve, e seus olhos tinham o mesmo brilho azul dos soldados que enfrentamos mais cedo.
— Meu nome é Aria — disse ela, sua voz firme e clara. — E, se você está vendo isso, significa que o destino colocou você no caminho para salvar ou destruir tudo o que conhecemos.
Olhei para Lyra, que parecia tão surpresa quanto eu.
— Quem é ela? — perguntei.
— Não faço ideia — respondeu Lyra, mas havia algo em seu tom que sugeria o contrário.
O holograma continuou:
— O Coração de Gaia é apenas o começo. Há algo ainda mais poderoso escondido em Anunaki. Algo que todos estão procurando, mas que apenas você pode encontrar.
— Mais enigmas. Que surpresa — murmurei, mas continuei ouvindo.
— Confie em Lyra. Ela sabe mais do que você imagina.
Minha cabeça virou-se imediatamente para Lyra, que agora evitava meu olhar.
— Lyra?
— Não aqui — disse ela, levantando-se de repente. — Não agora.
— Lyra, você sabia sobre isso?
— Eu disse, não agora! — gritou, antes de desaparecer na escuridão.
Fiquei ali, sozinho, com mais perguntas do que respostas. A fogueira crepitava ao meu lado, mas o calor que ela emitia não conseguia aquecer a confusão dentro de mim.
Algo estava muito errado.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 21
Comments