A clareira parecia um campo de batalha, as árvores inclinadas como se até a natureza se recusasse a testemunhar o confronto. Os agentes de Agartha avançavam com precisão militar, e cada movimento deles era tão calculado que senti minha respiração ficar pesada. O ar puro de Anunaki parecia rarear a cada golpe de energia disparado contra nós.
— Akin, pegue o fragmento! — gritou Lyra, enquanto bloqueava um ataque com uma lâmina de energia que parecia vibrar em suas mãos.
Minha mente estava em um turbilhão. O que era o fragmento, afinal? Por que eu, de todas as pessoas, precisava protegê-lo? Apesar das perguntas que latejavam em meu cérebro, instintivamente avancei para o altar de pedra negra no centro da clareira. A luz azul parecia pulsar como um coração, viva e convidativa, mas ao mesmo tempo intimidante.
Assim que meus dedos tocaram a superfície fria da pedra, um calafrio atravessou meu corpo. Imagens de terras desoladas, oceanos fervendo e tempestades devastadoras invadiram minha mente como um furacão. Era como se o fragmento estivesse me mostrando o futuro — um futuro sem o Coração de Gaia.
— Akin! — Lyra chamou, interrompendo minha visão.
Virei-me a tempo de vê-la desviar de dois agentes que a cercavam. Antes que pudesse pensar, as raízes sob meus pés se moveram como se tivessem vontade própria, agarrando os inimigos e os puxando para o solo.
— Não sabia que você era tão protetor da natureza — Lyra comentou, arfando, enquanto empunhava sua lâmina contra outro adversário.
— Acho que o planeta gosta de mim — respondi, meio brincando, tentando ignorar o pânico crescente em meu peito.
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Quando a última figura encapuzada caiu, o silêncio na clareira foi tão ensurdecedor quanto o som da batalha havia sido. Lyra se ajoelhou ao meu lado, os olhos fixos no fragmento que eu ainda segurava com mãos trêmulas.
— Isso... isso é o Coração? — perguntei, minha voz mais fraca do que eu gostaria.
— Não, apenas um pedaço — disse Lyra, suas palavras carregadas de reverência e dor. — Mas é suficiente para te mostrar a verdade.
Eu a encarei, esperando por mais explicações, mas ela apenas se levantou e gesticulou para que eu a seguisse.
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Caminhamos por horas, atravessando florestas densas e campos abertos. Lyra parecia conhecer cada centímetro do terreno, movendo-se com a confiança de alguém que pertencia ali, apesar de ser de Agartha.
— Como você sabe tanto sobre Anunaki? — perguntei, finalmente quebrando o silêncio.
Ela parou, olhando para mim por cima do ombro.
— Porque meu pai me ensinou.
Minha respiração travou.
— Seu pai?
Lyra assentiu, os olhos brilhando com algo que parecia entre raiva e tristeza.
— Ele era de Anunaki antes de ser exilado.
As palavras me atingiram como um soco no estômago. Exílio era uma das punições mais severas em Anunaki, geralmente reservada para os que traiam sua própria terra.
— Por quê? — perguntei, tentando manter minha voz firme.
Ela me encarou, a dor evidente em sua expressão.
— Porque ele sabia demais sobre o Coração. E tentou avisar as pessoas.
Ficamos em silêncio pelo que pareceu uma eternidade. A ideia de que alguém poderia ser exilado por buscar a verdade me deixou inquieto.
— E você? — perguntei finalmente. — Por que está aqui?
Lyra riu, mas não havia humor em sua voz.
— Porque ele me deixou um legado que não posso ignorar.
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Ao cair da noite, chegamos a uma caverna escondida entre as montanhas. Lá dentro, as paredes brilhavam com cristais que emanavam uma luz dourada suave, iluminando o espaço com um calor quase reconfortante.
No centro da caverna, havia uma mesa de pedra coberta por mapas, documentos e mais fragmentos que brilhavam com o mesmo azul pulsante do altar na floresta.
— Bem-vindo ao meu esconderijo — disse Lyra, com um gesto amplo.
— Parece... aconchegante — comentei, embora meus olhos estivessem fixos nos mapas.
Ela pegou um deles e o estendeu para mim. Era um mapa de Anunaki, mas marcado com símbolos e linhas que eu não reconhecia.
— Este é o plano deles — disse Lyra, apontando para os símbolos em vermelho. — Agartha quer usar o Coração para construir uma arma, algo capaz de controlar não só Anunaki, mas toda a Terra.
— Isso é impossível — retruquei automaticamente. — O Coração não pode ser usado para destruição.
— Não sozinho — concordou Lyra. — Mas se eles conseguirem combinar o poder do Coração com a tecnologia de Calodopseia...
De repente, tudo fez sentido. O conflito, as invasões, a busca desesperada pelo Coração. Era mais do que uma questão de poder. Era uma questão de controle absoluto.
— E onde eu entro nisso? — perguntei, olhando para ela.
Lyra hesitou antes de responder.
— Porque você é especial, Akin. Sua conexão com o Coração é única. Você pode senti-lo, ouvi-lo. E isso significa que você também pode protegê-lo.
A ideia era absurda, mas, ao mesmo tempo, algo em mim sabia que ela estava certa. Desde o momento em que toquei o fragmento, eu senti a conexão.
— Não posso fazer isso sozinho — disse finalmente.
Lyra sorriu, e pela primeira vez, havia algo genuinamente caloroso em seu rosto.
— Você não está sozinho.
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Naquela noite, enquanto Lyra dormia perto da entrada da caverna, fiquei olhando para o fragmento em minhas mãos. A luz azul parecia dançar, quase como se estivesse viva.
Eu me perguntei se o Coração realmente podia morrer. E, se pudesse, o que isso significaria para Anunaki, para o mundo.
Mas o pensamento que mais me perturbava era outro: se eu estava destinado a protegê-lo, isso significava que eu estava destinado a falhar.
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Atualizado até capítulo 21
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