O Efeito Colateral

A casa parecia quieta demais, quase como se tivesse sido purificada de todo o terror que havia nos assombrado nas últimas horas. Mas o silêncio não era reconfortante. Pelo contrário, ele carregava um peso, como se algo invisível ainda estivesse entre nós, observando de longe, esperando o momento certo para se manifestar novamente.

Meu amigo e eu estávamos sentados no chão da sala, exaustos, mas aliviados por termos, ao menos temporariamente, vencido o skinwalker. As chamas da lareira ainda crepitavam suavemente ao fundo, e as cinzas da coleira de Max flutuavam no ar, deixando um cheiro forte de queimado. Mas, por mais que tentássemos relaxar, algo não parecia certo. Era como se o ar ainda estivesse impregnado com uma presença. Não sabíamos ao certo o que, mas havia uma sensação no fundo de nossas mentes de que essa luta estava longe de acabar.

"Eu não acho que acabou de verdade", meu amigo murmurou, olhando para as cinzas com um olhar perdido. "Aquela coisa... ela simplesmente desapareceu rápido demais. É como se... fosse só o começo de algo maior."

Eu não queria admitir, mas concordava com ele. O skinwalker havia sido derrotado, mas a sensação de que algo terrível ainda estava à espreita era inegável. Cada ruído na casa, cada pequena corrente de ar fazia meu coração acelerar. Era difícil ignorar o medo de que aquela criatura pudesse, a qualquer momento, retornar ainda mais forte.

Decidimos sair da casa e caminhar para clarear as ideias, tentar ver as coisas de uma nova perspectiva. O ar fresco da noite parecia nos ajudar a aliviar um pouco a tensão, mas à medida que andávamos, comecei a sentir algo estranho. Era uma sensação de desconforto que começava na nuca e descia pela espinha. Meus músculos estavam tensos, e por mais que eu tentasse relaxar, o nervosismo crescia a cada passo.

De repente, algo incomum aconteceu. Ao passar por um poste de luz na calçada, notei que minha sombra se movia de maneira estranha. Por um segundo, pensei que fosse apenas o efeito das luzes oscilantes, mas logo percebi que não era uma ilusão. Minha sombra não estava apenas se movendo normalmente—ela estava atrasada. Enquanto eu caminhava, havia um pequeno atraso na maneira como a sombra se projetava no chão, como se estivesse reagindo a algo que eu não conseguia ver ou entender.

"Você viu isso?" perguntei, tentando manter a voz firme, mas sabendo que o pânico estava prestes a tomar conta de mim.

Meu amigo parou ao meu lado e olhou para a minha sombra, sem entender de imediato. "Ver o quê?"

Eu me virei para ele, apontando para o chão. "A sombra... está... fora de sincronia." Ele me olhou como se eu estivesse ficando paranoico, mas quando ele se aproximou e olhou mais de perto, pude ver seus olhos se arregalando. "Não pode ser... o que está acontecendo?"

Minha mente estava acelerada, procurando por explicações racionais, mas tudo parecia surreal demais. Eu sabia que o skinwalker havia manipulado a forma de Max, mas agora, parecia que algo estava tentando manipular a minha própria imagem, a minha própria identidade. Como se, de alguma forma, aquela entidade estivesse tentando se conectar diretamente a mim.

Meu amigo deu alguns passos para trás, obviamente preocupado. "Isso é algum tipo de efeito colateral? Algo que aconteceu depois de a gente destruir aqueles ossos? Talvez... tenha causado uma ruptura... ou algo assim."

Eu queria acreditar que isso era temporário, um efeito residual da batalha intensa que travamos com o skinwalker, mas meu instinto me dizia que não era tão simples. Olhei em volta, tentando entender o que poderia estar acontecendo. As ruas estavam desertas, o vento soprava suavemente entre as árvores, e as sombras dos postes de luz balançavam conforme as folhas se moviam. Mas a minha sombra... ela não balançava da mesma forma. Ela se movia de maneira independente, e parecia, a cada segundo, mais distorcida.

"Não podemos ficar aqui", decidi, minha voz mais firme do que me sentia. "Se isso é um efeito colateral, precisamos descobrir o que está acontecendo e como parar. E se não for... então estamos lidando com algo que vai além do skinwalker."

Voltamos para a casa, que parecia mais sombria do que antes. A sensação de desconforto era quase palpável, como se a escuridão tivesse ficado mais densa desde que havíamos saído. Ao entrar, tentei ignorar a sensação de que estávamos sendo observados, mas cada movimento nas sombras, cada som de estalido nas tábuas do chão, me faziam saltar. O lugar, de alguma forma, parecia vivo.

Sentamos de volta no chão da sala, o computador ainda aberto com as pesquisas sobre skinwalkers. Mas agora, uma nova questão surgia: e se aquilo com que estávamos lidando fosse algo diferente? Algo que usava a lenda do skinwalker como uma fachada para algo ainda mais antigo, mais poderoso?

"Tem uma coisa que não conseguimos entender direito", meu amigo disse, enquanto folheava os arquivos no laptop. "Havia outros relatos sobre skinwalkers, mas nenhum mencionava efeitos colaterais após derrotá-los. E se... aquilo que vimos era só a ponta do iceberg? E se a verdadeira ameaça nunca foi o skinwalker, mas algo que ele estava tentando liberar?"

A ideia me deixou tenso. Se essa hipótese fosse verdadeira, então estaríamos em terreno desconhecido. Algo dentro de mim dizia que não estávamos preparados para o que viria a seguir.

"Precisamos de mais informações", disse eu, tentando manter a calma. "Precisamos saber com o que estamos lidando de verdade. Não podemos ficar aqui esperando isso nos consumir."

Pesquisamos mais sobre criaturas mitológicas, maldições antigas e rituais sombrios. O que encontramos foi perturbador. Havia menções a entidades que assumiam formas, mas que não eram skinwalkers. Eram seres antigos, que usavam as sombras e os reflexos para manipular suas vítimas. E o mais preocupante: essas entidades não podiam ser destruídas de forma convencional. A única maneira de lidar com elas era selar sua conexão com o mundo físico.

"Só que o problema é", meu amigo interrompeu, "se realmente for isso... como vamos selá-la?"

A dúvida pairava no ar. Era como se estivéssemos enfrentando uma entidade invisível, uma ameaça que já havia rompido a barreira entre o mundo das lendas e a nossa realidade. Sabíamos que, de uma forma ou de outra, precisávamos agir rápido. As sombras ao nosso redor pareciam ficar mais escuras, mais densas, como se estivessem se preparando para nos engolir.

"Temos que descobrir como encerrar isso", falei, me levantando. "Antes que seja tarde demais."

Sabíamos que o próximo passo seria arriscado. Mas também sabíamos que, se não agíssemos logo, aquela sombra, aquele efeito colateral, se tornaria algo muito maior do que qualquer um de nós poderia enfrentar.

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